sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Peças
Eu .................Eles......................... Nós
A última........ Os traumas.............. O impossível
Ele................ Elas......................... Em nós
O abismo....... A sombra..................Eternizados
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Sem nome
Às vezes, o silêncio do silêncio.
Leio poemas em uma rua vazia.
Sou o que esconde.
No fundo sou segredo.
Lá no fundo onde me escondo.
Amo em segredo.
E como amo intensamente...
Escrevo para os solitários,
e para os pássaros.
Escrevo para mim mesmo.
Para me sentir essencial.
Para fazer com que minha vida,
tenha um sopro de sentido que seja,
um resto de beleza,
de calafrio,
de dor,
de arrepio,
de perplexidade,
de loucura.
Minha poesia recria a criação de outros
Faz dos mesmos temas
leituras diferentes,
ampliadas.
Fala do prosaico,
que no entanto é único,
raro,
precioso e assombrado.
Minha poesia nasce
da minha perplexidade e angústia
em neste mundo estar.
Este mundo que conheci sem entender,
este mundo que em mim sempre fará nascer perguntas,
para a maioria das quais,
eu dificilmente terei respostas.
M.V
"A poesia é a religião da humanidade"
Novalis, poeta alemão
Letras em uma mesa de folhas

Minha cabeça está pesada
corpo cansado
Meu olhar está perdido
perfil embaçado
Meu corpo está pegando fogo
contornos desencontrados
Meu pensamento está tonto
abstrato do amassado sufocado
Meu peito está agitado
calma desejada do teu abraço
Minha boca está seca
quer da tua o gosto da surpresa
Minha pele está arrepiada
de leve toca uma folha meu pescoço
Minha vida se faz adormecida
no teu intervalo tão breve
e de leve voa uma folha de meu livro
a folha sobe e depois desce...
Quero-te para que,
dissolva meu pensar,
embriague meu olhar,
faça-me enfim descansar.
Porque de todo ainda
faço-me cansada demais.
Tenho a ti mais do que
a mim mesma.
De mim tanto faz.
Desde que dentro de ti eu aconteça.
Tonta e fugaz,
que seja.
Amo enfim algumas
letras
que se voltam nas sombras
que se esfumaçam na luz
Amo enfim algumas
mesas
que se depositam nos cantos
que se revelam nos centros
Amo enfim algumas
plantas
que se tocam em sua pele
que se embelezam em sua inspiração
Amo enfim algumas
horas
que se tecem sufocantes
que se amam em instantes
Amo enfim alguns
olhares
que me dominam concentrados
que me perdem apaixonados
M.V
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Da paixão e da literatura

A breve história de como um amor preenche páginas em branco com tintas de dor, loucura, felicidade, desespero, contentamento descontente...
Malu era uma menina ainda, não pela idade, posto que juventude ou velhice não se medem pela idade, mas pelas atitudes. Tinha já seus trinta anos e demonstrava, ainda que inconscientemente, uma falta de apego ao mundo adulto, uma lacuna de entendimento, ajuste e aceitação neste espaço dos ditos amadurecidos. Sempre sonhadora, olhar longe, inexprimível, inspiração atenta, mãos rápidas e inquietantes. Atraída pelo que aos olhos alheios poderia parecer banal, pela pedra no meio da rua, pelo pássaro bicando a janela, pela neblina esfumaçando a manhã, pela flor desabrochando da terra, pela terra bebendo a água, pela chuva insistente a molhar a terra. Delirava pelo silêncio, pelo olhar, pelo toque, pelas texturas e cheiros de frutas, doces ou produtos de limpeza. Gostava da multiplicidade da vida, da sua variedade de tons, da eterna polissemia das palavras por ela conotadas.
Malu não tinha emprego fixo, nunca dera certo em nenhum. Gostava mesmo era das letras, do papel, das incursões para dentro de um eu que ela nem mesmo sabia o que era. Tudo nela era como um mistério que conduzia a outro mistério. Sentia prazer nas palavras, em vê-las de repente ocupando uma folha, em vê-las enfeitando uma página, uma pele, um rosto, o fundo de um olhar poetizado.
Mas antes de qualquer outra coisa, antes do emprego que não tinha, da letra que incorporava, do ritmo que dançava, Malu era terrivelmente apaixonada.
Conhecera C. ainda na universidade quando cursava Letras. Nos primeiros encontros, sutis e por vezes desencontrados, por ele se derramava tal como a roupa que não cabe na mala já lotada e insiste em cair pelos lados. Sentia uma felicidade quase que indomável, um desejo alucinado, uma loucura atraente e desesperada, com ele era puro delírio, era algo mais e também não era nada. Ela sentia-se como se tivesse acabado de ter sido criada, parecia nova e antiga, resto de outro tempo e de outra vida. Com ele, Malu era como a ressaca do mar.
Não cabem muitas considerações a respeito de seu amado, exceto que era este muito inteligente, sedutor, sensível e amante das letras escritas, torcidas, enxugadas, esburacadas e devoradas.
C. era um homem fantástico que em Malu resvalava em restos, lembranças, pedaços e um conjunto de contos, poesias, romances escritos por ela para ele e em nome do seu amor, apenas para que ele, por toda vida, lesse aquelas letras borbulhantes, queimadas, tingidas de dor e paixão.
Viveram juntos durante um tempo, ele escrevendo e ela também. Ela mais do que ele. Ele, que sempre escrevia de forma menos intensa que ela. Malu era de todo intensa demais, pensava em coisas absurdas, fazia coisas intraduzíveis, adormecia em maravilhas, em perfeições, queria viver a beleza, exaltá-la e nada mais. Na beleza, ela se perdia em meio à solidão de tantos dias, solidão que a ajudava a escrever, dando forma à sua obra desprovida de tal forma.
Malu escrevia, bebia e dançava de vez em quando. Todos os dias, ela e C. se amavam, viviam um momento de loucura, êxtase, sedução, atração e desejo tão grande que aquilo lhe era indescritível e demasiado completo a tal ponto que lhe dava medo. Achava estranho um momento tão eterno, tão conhecido, tão vindo de outros tempos, carregado pelos anos, repleto do poder de lhe fazer feliz e de alimentar por horas e horas da madrugada as suas poesias, os seus textos, a sua alegria por vezes inexpressiva e misteriosa. E para ela não havia coisa melhor, amava, escrevia, dançava, escrevia e calava. De vez em quando brigavam, mas sempre voltavam.
Deixava o absurdo de seus pensamentos para ficar apenas como o absurdo da realidade e tinha certeza que preferia o poeta ao homem. Quando C. deixava de ser poeta e se tornava homem ele a fatigava tremendamente. Mas quando a amava, sempre era poeta, não nas letras sobre o papel, mas nas letras que existiam no suor do seu corpo, nas letras que eram o som sussurrado em seu ouvido, nas letras que eram beijos que a enlouqueciam bem mais quando tocavam seu corpo todo do que quando se limitavam à sua boca tão seduzida que ficava até seca. No momento em que o amava, Malu arrepiava-se com o cheiro dos cabelos de C.. O que de fato a interessava nele era o cheiro dos seus cabelos que descia um pouco para a testa, apenas para o começo da testa.
Quando se amavam, o cheiro transbordava. C. era, inevitavelmente, seu poeta. Poeta a escrever uma poesia toda de sons, cheiros, beijos e toques que se convertia em letras vermelhas sobre um fundo branco, já que Malu sempre escrevia com tinta vermelha, levando o arrebatamento da palavra e do sentimento aos seus limites mais insuportáveis.
Malu e C. passaram por todas as fases que um amor por essência há de passar. A euforia do primeiro momento, o ciúme e a desilusão que vem depois e, por fim, adentraram em uma região que era puro delírio.
O fato é que toda aquela louca e embriagada paixão entre Malu e C. alimentava a literatura de ambos, novamente a dela mais do que a dele. Só quando ela sofria por amor escrevia, a inspiração era diretamente proporcional à desilusão, à solidão e à melancolia e amargura de seres que, como ela, não sabem amar pela metade sem alcançar o extremo da escrita e da insanidade. O seu amor não a levava a calar, pelo contrário, transbordava e esparramava sobre seus papéis e sobre os cabelos dele. Maior que a paixão que a unia a C. havia vínculos invisíveis que a ligavam à literatura, sua insaciável paixão secreta. A relação entre Malu e C. quando já era puro delírio se fazia tensa, ambígua e resvalava pelo terreno da loucura, ambos alimentavam mutuamente a sua neurose. Até que C. passou a assistir à caminhada lenta e agonizante de Malu em direção à loucura e insanidade completa. Ela ainda escrevia belíssimas histórias, mas já cruzara a fronteira tênue que separa a lucidez da completude do inconsciente, estágio em que o ser humano já é só instinto, sem sublimações, limites e superficialidades, ele já é só lírios e imensidão. Malu já não pensava racionalmente, ela de fato nunca à razão fora afeita, como nesta história já dissemos, mas agora já abandonara a razão por completo ou a razão é que a havia abandonado. Na sua loucura era só essência, e ainda guardava restos de frustrações, preconceitos, traumas e solidão.
No entanto, C. nunca deixou de amá-la, sua escrita o fascinava, a sua beleza e composição estética, a sua precisão e sensibilidade sempre o atraíram, despertando nele seus próprios sonhos de escritor e poeta.
Mesmo com a certeza de um grande amor e com a oferta de sua literatura, a paixão provou não ser capaz de sustentar uma vida. Em um eterno desregramento dos sentidos, Malu terminou seus dias internada na sala sete do Hospital Psiquiátrico mais antigo da cidade de Sol onde moravam. Sua cama tinha lençóis verdes com números bordados que identificava cada paciente, os números ajudavam a aumentar a frieza do lugar, e grades brancas, ficava no canto de uma sala onde muitas outras camas se amontoavam. Todos os dias, C. ia vê-la, sentava ao seu lado, tentava tecer ao menos um fio curto de conversa que fosse. No começo, o fio ainda podia ser tecido, mas com o tempo, Malu não lembrava sequer quem era aquele homem que, desde os primeiros dias de visita, sempre saía delas com um papel branco onde algumas letras se viam esboçadas em vermelho.
Mesmo quando seus olhos já não mais reconheciam C., a literatura e a palavra de Malu, maior que ela própria, nunca o esquecera. Em cada visita, as mãos perdidas e loucas contrariavam a mente e escreviam sozinhas palavras soltas, lindas, apaixonadas, raras e simples, extremamente simples. Os corações de ambos não se desencontraram cansados um só instante, neste caso, apesar dos inúmeros momentos asfixiantes, a escrita sustentava ao menos o amor que nas letras de Malu e no seu inconsciente ainda era vivo, mesmo já sepultado na sua mente e consciência.
Para C. ver Malu naquele estado era como sentir uma presença esmagadora, mas o fato é que tanto ele como ela não passariam um sem o outro jamais.
No último pedaço de papel que Malu entregara para C., poucos minutos antes de sua morte e sem ter a menor idéia de quem ele era, assim estava escrito:
Teu amor me salva entre os paradoxos da paixão, entre seus momentos tensos, porém sempre intensos e inspirados em que nos amamos ao longo desta vida e da outra, misteriosamente. Nesta vida que teima em seguir escorrendo lenta, viscosa. Continue vivendo e escrevendo, sem buscar heroísmos em tua escrita, apenas a vida e os seus acúmulos de pequenas dores e alegrias. Minha dor neste momento é por demais apenas a minha dor, a tal ponto angustiante que só o sepulcro do mar pode enterrá-la juntamente com meu amor por ti, tal como diria Heinrich Heine, poeta meu e teu. De todo, estive pensando em como realmente gosto de árvores, peço que as abrace quando dos meus braços sentires falta e cresça como elas crescem, sem ferir ninguém. De ti guardo muito, mas levo principalmente o cheiro de tua testa, aquele que sempre descera dos teus cabelos, ele me resta nítido e forte já que todos esses dias em que vieste me visitar ficaste encostando tua testa e cabelos bem próximo ao meu rosto. O cheiro aqui restou ao lado da minha literatura, eternamente alimentada pela nossa paixão e por essa minha derradeira loucura. Siga escrevendo... Tua letra.
domingo, 15 de novembro de 2009
Palavra
José Castello, escritor e jornalista
Pés em pedaços descalços

O sol bate forte em minhas costas.
Sou toda suor e lembranças,
que queimam, espremem,
meu peito e pensamento.
Sou toda dúvida, medo e perplexidade.
A dúvida bate em meu coração,
e faz com que ele queime feito fogo.
Sou toda tempo que se derrete,
se dilui para se desprender do próprio tempo.
Sou toda ensurdecedora.
Queria o silêncio naquele instante,
nada além do silêncio.
Que som dilacerante, provocante, insinuante.
Que formato prolixo e semelhante.
Queria ser apenas surda ou cega quando enfim tive medo,
do infalível destino, das suas artimanhas,
da sua habilidade em provocar emoções
de todo já tão esfumaçadas.
Sou toda desconfiança de mim mesma.
Imbecil insegurança.
Sou toda loucura, orgulho, impetuosidade.
Vontade de voar,
mergulhar no sonho de um cego,
dentro de mim mesmo afundar.
Era um abismo quando descobri o sentimento de querer sumir.
Dali, daqui, de dentro de um corpo,
quase que insuportável aos seus limites,
entontecidos, brilhantes.
Giratórios e brilhantes.
E saber o porquê de mim,
o que faço, o que sou,
o que entendo de amor e dor.
Me descobri como existente no nada.
Me descobri gelada,
sobre uma atmosfera quente.
De repente era tudo como esta gota de suor,
que agora desce fria sobre meu corpo dormente.
Deixando-me seca e molhada
sob um sol que se levanta gritante.
Tal como essa minha angústia,
insistente,
desintegrante,
a esconder uma felicidade que de todo o resto,
se faz ausente, distante.
E agora chove...
Lá fora ela é leve,
dentro de mim o céu se derrama mais forte!
M.V
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Lygia por Lygia
Pelo sonho é que vamos
Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.
(Sebastião da Gama)
Homenagem à Lygia Fagundes Telles, à sua palavra, vocação, suas meninas, sua estrutura da bolha de sabão, seu feminismo, sua crença na continuidade e eternidade dos seres, sua arte de escrever histórias nas últimas páginas de cadernos escolares ou de faculdade, sua arte de escrever o mundo e a sua realidade por meio da ficção, tão ou mais real que a própria realidade, confusão de sentidos e percepções. Homenagem àquela que escolheu ser escritora e mulher, combinando inteligência e beleza!
Lygia por Lygia, a autora inaugura a já belíssima série da TV Cultura, Autor por Autor. A série utiliza diversos recursos visando uma ampla produção de significados. Há uma constante hibridrização da linguagem, são fotos, palavras a brincar no cenário, atores interpretando Lygia, sua mãe, pai e amores, além da própria escritora contando a sua história, desta vez a sua história que perpassa em tantas outras belíssimas e sutis histórias que Lygia criara, com certeza, inspirada na sua primeira e derradeira história!
Um programa lindo de se ver, inteligente, híbrido, rico em signos e linguagem, cheio da vida e da intensidade inerente à palavra escrita, pungente e quente.
Amarelo

Quando ontem tudo apagava, a chama amarelecida da vela ocupou por algum tempo o lugar do barulho das máquinas. O girar frenético do ventilador cedeu espaço para o movimento sedutor e atrativo da chama que, por alguns instantes e ângulos, parecia ser eterna. O zunido do computador e suas luzes que cansam e entontecem saíram de alguns ouvidos para que estes escutassem e atingidos fossem apenas pelo som primitivo e selvagem da chama intermitente da vela. A televisão emudeceu-se. Por um instante de tempo, foi interrompida a produção de sentidos, a canalização de desejos, o conforto e o engano da solidão. De repente, não havia mais sequer uma simples imagem, tampouco as vozes perdidas, alheias e distantes que de dentro da tela saltam alucinadas. No seu lugar, aos olhos foi trazido o consolo de uma imagem pura, simples, tão cheirosamente delicada.
No instante em que tudo por fim escureceu, algumas vozes gritaram, outras se calaram, outras derramaram curiosidade, poucas as que sentiram o apagar de tons e o acender de luzes tão mais belas, naturais e, desde sempre, familiares, que vieram ao socorro do homem quando os seus tantos e, aparentemente, infalíveis aparatos técnicos de fato falharam. Eis que assim como a fé caberia onde a razão não mais é suficiente, a simplicidade de uma luz de vela é que nos conforta quando a sofisticada técnica parece querer nos aprisionar na escuridão. De todo, já digo de antemão que me agradou demasiado a chama que saltava da vela, saía de dentro dela para rasgar-me e vir refugiar-se dentro de mim. A chama tornou meu quarto mais belo, mais essencialmente clássico, como se tivesse sido desenhado, pensado e esculpido em cada sutil detalhe. Presenteou-o com o silêncio das máquinas, com o canto afinado das luzes de outros e tantos tempos.
Ao longo deste vasto país nosso, para muitos as máquinas não pararam, continuaram alimentando vícios, preenchendo ausências tantas de nós, seres já tecnificados. A vela continuou guardada no fundo da gaveta, coberta de poeira, ou sequer precisou ser comprada por muitos que já não a têm mais em sua casa. Para outros, cercados pelos limites de seu lugar, alguns trabalhos no computador podem ter sido perdidos, os últimos segundos do banho podem ter sido protagonizados por uma água gelada, o que significa um fim de banho apressado e originalmente natural, ou uma saída rápida, automática, com o corpo ainda coberto de espumas, ainda molhado.
E outros ainda se viram presos nos elevadoras de nossa sociedade excessivamente amontoada ou verticalizada, sufocados pelos limites extremamente limitados, sinais de nossa claustrofobia contemporânea.
Ouvi dizer de uma senhora que utilizava um aparelho respiratório elétrico e ao apagar das luzes teve que sair de casa em uma ambulância às pressas rumo ao hospital mais próximo de sua casa. Enquanto isso, a mídia e suas vozes pedem alucinadamente calma em uma eterna contradição de discursos. Talvez, muitos precisassem desse conselho de calma, desse conforto partindo de uma voz distante, tão distante. São tantos os casos, tantas as casas, tantas as criações que permeiam uma grande cidade, tantos os dramas, tantas as histórias, tantos os momentos, tantas as faces de um mesmo apagar de luzes e de almas. As coisas enfim são tão incertas.
Em meus tantos e infindáveis limites, confortei-me de todo com a chama de minha vela. O apagar geral me era distante, suas causas, consequências, culpas e omissões mais ainda. Apenas que fascinava a chama de minha vela, pois sigo conservando algumas em uma gaveta não para casos em que a luz elétrica me falta, mas para momentos em que dela me canso. A chama da vela me inspirava, tornou-te tão mais belo aos meus olhos, pude sentir por um instante a respiração, o cheiro, o silêncio do mundo e, em meio a gritos de um, sufocamentos e desespero de outros, acariciei a tua pele linda e amarela.
...instantes cortantes de existir e estar. Entendam a luz, incorporem a chama.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Sob e sobre mim

Escrevo sempre um pouco de minha alma
O que me cala
O que me acalma
O que me fala
Espremo e torço as pontas de minha alma
As que me amarram
As que me esparramam
As que me dançam
Transformo em cacos de vidro os cantos de minha alma
Os que me cortam
Os que me ferem
Os que me renovam
Expresso o tecido selvagem de minha alma
Aquele que me tece
Aquele que me entontece
Aquele que me acontece
Escrevo a minha alma
Sobre a minha pele
Assim me construo
Assim me desconstruo
Nas entranhas de minhas entrelinhas
No abismo de minhas tantas peles e almas
nunca findas
M.V
Bem vindos ao caminho do VIRTUAL!
O livro O que é o virtual? , de Pierre Lévy tem um caráter profundamente abstrato e filosófico. Não se pode dizer do livro sobre verdades absolutas, eles traz, acima de tudo, um conjunto de ideias e conhecimentos muito bem articulados que geram formas de saber múltiplas e, ao mesmo tempo, específicas. Toda essa produção de saber se dá por meio de uma linguagem extremamente rica e trabalhada, com metáforas bem pensadas, comparações oportunas e um encadeamento perfeito de introdução de uma ideia, desenvolvimento desta ideia, construção de uma base argumentativa e explicativa para sustentá-la e, por fim, uma conclusão que, como já dito, não é absoluta e sim abstrata, inacabada, complexa e nunca fechada, maniqueísta, simplista ou dicotômica.
A obra de Lévy se faz interessante e indispensável exatamente por trabalhar com um tema atual e onipresente, a virtualização, de uma maneira aberta, profunda e, principalmente, sem se valer de preconceitos ou ideias catastrofistas. O autor é responsável, isento e audacioso no seu relato que, algumas vezes, se faz até um tanto quanto hermético, de difícil compreensão em razão da densidade dos conceitos e ideias que são trabalhados, no entanto, percebe-se do autor um esforço para didatizar seu relato por meio de exemplificações constantes, analogias e até quadros que organizam e equilibram os conceitos e definições apresentados.
O ponto mais interessante desta obra é a maneira de olhar do autor . Ele vê a virtualização com olhos que bebem da filosofia e das ciências humanas, por isso, produz uma obra com características humanísticas, de caráter social. Lévy não adota o método cartesiano, fechado, extremamente racional, ele abre possibilidades, incorpora o antigo ao novo, não descarta o primeiro em detrimento do aparecimento do segundo, pelo contrário, mostra como o segundo pode contribuir para o desenvolvimento em essência do primeiro, pela potencialização de todas as suas possibilidades.
No capítulo Três do livro, o autor trata da virtualização do texto. Este capítulo é particularmente interessante em razão da forma como o texto transportado para a tela é visto e apresentado ao leitor no que diz respeito às suas possibilidades de mutação, ampliação e transposição de limites. Lévy começa falando sobre a leitura como uma forma de atualização do texto, uma forma de agir na qual se começa a desligar o texto, rasgá-lo, amarrotá-lo, costurar suas partes, abrir um meio vivo no qual possa se desdobrar o sentido. Um texto recortado, distribuído e avaliado segundo critérios de uma subjetividade que produz a si mesma.
Ler equivale a construir-se para Lévy, um eterno recriar do mundo de significações que somos.
A filosofia a respeito da leitura se faz interessante e indispensável para que depois dela, o leitor mergulhe em questões como a do hipertexto informático.
A escrita com o início da hominização passa a ser uma espécie de virtualização da memória, virtualizante ela dessincroniza e deslocaliza, segundo Lévy. Neste ponto, ele fala de uma diferença importante e marcante do texto em papel e do texto na tela.
Para Lévy, a escrita sobre um suporte estático se sobrepõe sobre os saberes narrativos e rituais das sociedades orais, já o texto contemporâneo que corre em redes, é fluído e desterritorializado, reconstitui a copresença da mensagem e de seu contexto vivo que caracteriza a comunicação oral. Ou seja, o texto em redes, sob suporte móvel, incorpora a linguagem oral, enquanto que o texto sob suporte estático, em papel, se sobrepôs a ela no contexto do seu aparecimento, com essa ideia Lévy quer dizer que o texto contemporâneo incorpora as outras linguagens, não exclui nenhuma delas.
O texto na tela, além de incorporar a linguagem oral, surge então como uma pequena janela a partir da qual o leitor explora uma reserva potencial, não virtual.
O mais interessante e fascinante do hipertexto é que com ele toda leitura também se tornou um ato de escrita. Lévy lembra essa questão em seu livro, e ao fazê-lo mostra como o texto em redes oferece todas as possibilidades para que o leitor não seja mais um sujeito passivo diante das letras negras no fundo branco. Ele agora participa, interage, se movimenta para onde ele quiser e tiver interesse, o hipertexto é uma ferramenta do texto digital que permite dar ao leitor todas as possibilidades para que ele saia de sua passividade e passe a escrever o texto, justamente como autor, não se limitando apenas a lê-lo.

Com o uso do hipertexto e outras ferramentas, o texto claramente passa por um processo de desterritorialização. Os dispositivos hipertextuais nas redes digitais, formadas por fios de diversos universos subjetivos, desterritorializaram o texto.
O que se tem é um texto sem fronteiras nítidas, como diz Lévy com adjetivos precisos e muito bem ilustrativos, não há mais “um texto discernível, individualizável”, mas apenas, “texto”. É como se a página do texto fosse se apagando, ela se furtou e seus signos soltos vão juntar-se à torrente digital.
“Peço ao texto para me fazer pensar, a sua virtualidade alimenta minha inteligência em ato.”
Essa frase de Lévy deixa claro como o texto em redes Lévy diz claramente que a cultura do texto é levada a um imenso desenvolvimento no novo espaço de comunicação das redes digitais e não a um desaparecimento ou fim. A nós, ele nos lembra da importante tarefa de distinguir o texto digitalizado do texto em papel, tradicional, enfatizando que cada um tem suas particularidades, vantagens e desvantagens, o digital se diferencia claramente do impresso, mas o aparecimento de um não decreta o fim do outro, pelo contrário, resgata a essência deste outro, como afirma Lévy ao dizer que a virtualização contemporânea realiza o devir do texto, como se a escrita acabasse de ser inventada, como se a sua aventura tivesse acabado de começar.
Pensamento lúcido, responsável e atento às complexidades deste mundo nosso, Lévy nos ensina a ver que a virtualização sempre existiu, que nós nos constituímos nela, que ela não necessariamente é algo que exclui o resto, pelo contrário, o interessante em Lévy é que ele não trabalha com a ideia de exclusão, uma coisa não substitui a outra, elas se complementam e se resgatam em um eterno devir do texto, da palavra, do corpo, da mente, da vida...
Pontos de Lévy, em pontos do epílogo...
. Sofrimento ao se submeter à virtualização sem entendê-la, causa da loucura e da violência de nosso tempo
.. aponta a necessidade de humanizar a virtualização e ele de fato a humaniza em seu relato.
... para ser ator social deve-se usar e entender a virtualização de forma mais completa e profunda
.... desconstrução de alguns conceitos prontos e difundidos, como a idéia de que a virtualidade é algo falso, imaginário, enquanto que esta é, na verdade, um modo de existência, inerente ao mundo de onde surge tanto o real quanto o imaginário, tanto a verdade quanto a mentira.
..... PAPEL E FUNÇÃO DA ARTE
A arte propicia um salto vertiginoso para dentro da virtualização, é essencial para que se entenda e se viva de fato a experiência da virtualidade
ARTE deve fazer com que a parte ainda MUDA, ouça seu próprio canto, evitando que o POSSÍVEL esmague o virtual e que a SUBSTÂNCIA sufoque o ACONTECIMENTO.
...... a saída nunca é resistir à virtualização e sim acompanhá-la e dar um sentido a ela.
....... a ARTE aparece como principal instrumento de oposição entre uma virtualização requalificante e inclusiva e outra que se faz desqualificante e excludente. A virtualização, como qualquer outra ferramenta, não é boa nem ruim, tudo vai depender do uso que se faz dela.
o homem CRIA as ferramentas
as ferramentas RECRIAM o homem
Mc Luhan
.......Lévy nos convida por fim a seguir o caminho do virtual não de forma ABSOLUTA e sim de forma RELATIVA, não de maneira SIMPLISTA, mas ABRANGENTE, não de forma IMPETUOSA, mas CUIDADOSA, exatamente como se orienta a sua obra.
........Uma obra cuja proposta principal é fazer com que a ARTE e a disponibilidade de estar aberto para entender o novo, que na verdade sempre esteve ao nosso lado, nos preencha enquanto seres que entendam a dinâmica de seu mundo, um mundo de existência e acontecimento....
.......................DE VIRTUALIDADE.............................
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Especial
Diante de muitas questões que se colocam na atualidade, tantos desafios, causas mais humanas e carregadas de sentidos pelas quais lutar, a cooperação, sincronização e organização coletiva fazem falta no sentido de evitar que este nosso tempo, onde dificilmente conseguimos atingir um grau de participação e organização coletiva harmônica, seja marcado por lutas isoladas, angústias espalhadas e condenadas à falta de esperança, vozes que gritam mudas, porque solitárias, pessoas que falam e ouvem quase que constantemente o eco da própria voz.
Eis que surge, neste caótico e fantástico mundo nosso, um vídeo, produzido por alunos de uma Faculdade de Comunicação em Quebec, que é uma espécie de aula, um exemplo claro de como sincronia é apenas uma questão de treino, vontade, concentração, esforço e disposição das pessoas para tal.
O vídeo tem vários elementos que o tornam original e interessante. Primeiramente, não há edição, a gravação é contínua, ininterrupta e há uma perfeita sincronia entre música, movimento de corpo, movimentos gestuais, fala e dinâmica espaço temporal. Além de animado e divertido, ele trás uma proposta de produção totalmente diferenciada que depende, acima de tudo, da cooperação, participação e perfeita harmonia entre todos os participantes e também entre o conjunto de signos que ajudam a dar vida a ele.
É justamente com a colaboração de todos que se faz outro jornalismo, outro capitalismo, outro socialismo, outra realidade, outro professor, outra escola, outra universidade, outro amor, outra viajem. É com a voz coletiva que se constroem outros discursos, outras lógicas, que se erguem mais pontes e menos muros, que se recitam mais versos e menos ordens, que se abrem mais sorrisos e abraços, que se ajusta o olhar, sem muita luz ou muita sombra. É encarando esta luta como coletiva, carregada de um sentido social, pautada por uma verdadeira ética baseada em valores, não em moral que se conquista qualquer coisa, seja ela um prêmio, um namorado, uma vitória, um emprego, uma boa história.
É claro que tudo começa em cada um, a semente da luta, da insatisfação, do descontentamento, da busca por mais sentidos, por mais poesia, por mais humanismo, por mais verdade, por mais alegria é plantada no coração de cada um, no coração daqueles onde a terra é mais fértil, mais aberta, menos fechada, menos absoluta, mais inacabada, onde a terra é menos seca e mais molhada. Mas essa semente depois de plantada, depois que crescer, de em árvore se transformar, revelando toda potência existente no atual que se realiza por fim no virtual, não consegue crescer e se fazer árvore apenas a partir da semente, esta para germinar precisa da água, da luz, dos pequenos encantos da natureza viva, ou seja, a semente plantada não se faz árvore sozinha.
Da mesma forma, aquele que quer mudar, não muda sozinho, ele precisa do outro, ele precisa de outros sonhos tão belos quanto o seu, que fortaleçam o seu, ele precisa da sincronia dos alunos de Quebec para que, assim como eles, produzam um vídeo sem edições, uma obra completa, bela, que ao menos faça sentido, que ao menos queira sempre construir. Às vezes, podemos achar que estamos sozinhos, no desespero de um dia, quando somos destruídos por alguma outra pessoa sem aquela mesma terra fértil a cobrir seu coração, mas depois que o desespero passa é possível ver que não estamos sozinhos, é possível se completar com as coisas miúdas e fazer delas encantadas. É possível fazer das pequenas coisas o encanto da vida, extraindo o silêncio de suas mais profundas e intraduzíveis cores e formas.
Começemos pela poesia...
A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.
"Meu fado é de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades."
"No osso da fala dos loucos têm lírios."
“Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser árvore.”
Manoel de Barros
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Cor de Rosa

A estrada vai passando, os dias chegando, o céu de repente se tinge de vermelho, vai ficando sublime, algo assim como divino, o céu vai se tingindo de cores fortes, o sol brilha pela metade, as sombras descem pelos cantos recortados do chão de cortes e disfarces estourados da vida. Ela queria novamente um lugar branco, apertado, queria a dor de uma angústia maior que a dela, maior que a que ela pensasse que pudesse suportar. Ela queria e esperava por ser fraca, de fato o era, fraca, calada, molhada de suor e lágrima porque fizera calor por grande parte daquele seu dia tão cheio e, ao mesmo tempo, tão vazio. Um calor que a deixava ainda mais cansada. Pensava em indiferença, em também assim o ser, sabendo, no entanto, que não conseguiria. Parecia sempre saber do certo e do errado, mas sabia de forma limitada, porque limitados são o bem e o mal, sequer existem, o que de fato fazia era algo além do bem e do mal, algo próximo dela e além dela.
E assim ela escutava vozes, distantes das pessoas que pareciam falar. Alheias a tudo, como o universo, tão grande, imóvel, parece não se confundir, não se perder nas pequenas dores, permanece sempre sólido, sequer treme, não se devora, tampouco se entorpece aos primeiros olhos. Quem sabe aos segundos, terceiros, possa entender-lhe a dor, a falta que sente, sem saber exatamente de que falta ela sente. Lá no fundo algo despedaça sem que os pedaços sejam vistos. Discretos eles se multiplicam.
Universos das aparências, da natureza como a mais alta potência do falso. A flor esconde a melancolia por trás daquela tocante beleza. As montanhas escondem a fraqueza por trás da altura firme, da rocha e sua fortaleza. Os córregos calmos escondem a perturbação frenética da alma desesperada. O mundo é um mistério a si mesmo. Um inacabado eterno. Uma sombra crescente. Uma insatisfação constante. Ao homem, ser deste ou de outro universo, ser do nada, quase que do nada, toda falta de verdade, todo limite da aparência, toda pretensão do acabado, todo infinito de um céu azul sem nuvens. Eis a terra dela parada sem ventos, toda duplicidade de quem nunca vencera a si mesmo.
O quarto vai se movendo
Paredes azuis
Mente branca
Atormentada
Pela brevidade
Pela indiferença
Quem o faz
Não ama


