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domingo, 25 de abril de 2010

Série de colagens do alemão Max Ernst chega ao MASP revelando toda originalidade e poder de crítica social do surrealista



A suspensão da razão. Figuras obtidas a partir de colagens para mostrar toda mesquinhez e conformidade emocional da burguesia. As imagens bílicas para remeter-se a uma atmosfera divina e blasfema. A busca por uma arte que seja, acima de qualquer outra coisa, manifestação e expressão sem a necessidade de ser explicada racionalmente, quando muito, apenas interpretada.
Alguns desses tons se veem refletidos na série de colagens produzidas pelo artista alemão Max Ernst (1891-1976) que chega ao MASP neste mês de abril revelando de forma criativa e densamente original todo o surrealismo que brota de sua obra.
O artista alemão é interessante não só pelas imagens que cria, pautadas pela inversão de qualquer espécie de lógica racional, como também pelo seu método original de criação que confere ao seu trabalho uma sofisticação ousada. Chamadas colagens, suas obras reúnem recortes variados de publicações (livros, revistas,etc) que folheados durante anos pelo autor geram um produto final semelhante a gravuras em preto e branco.
No MASP já está sendo exibida a seleção completa das 182 colagens de Max Ernst integrantes dos cadernos chamados Uma Semana de Bondade.
Nas cenas que compõem os cadernos de Ernst, a presença da água é bastante forte remetendo-se a qualquer espécie de tragédia que já aconteceu ou está acontecendo ou à própria imagem bíblica do dilúvio. Em uma das gravuras, há uma mulher com trajes de cabaré que permanece firme e inatingível diante da torrente de água que tudo invade e destrói. Enquanto um homem é pela água devorado, a mulher paira acima da tragédia apoiada em uma torre de relógio. Neste caso, longe de dizer da superioridade da mulher, o artista parece se remeter aos grupos sociais que dificilmente são abalados por algumas tragédias, àqueles estratos sociais que não podem ser destruídos ou ameaçados.


Em contrapartida, se nesta gravura a mulher resiste aos tormentos e ameaças, em outra série de colagens vemos a mulher quase sempre apresentada nua e em posição de submissão, sofrimento. Ao lado dela, na mesma cena, homens-pássaros, figura que remete diretamente à infância do artista que no mesmo dia em que recebeu a notícia do nascimento de sua irmã, testemunhou a morte de seu animal de estimação: um pássaro. As figuras híbridas, as mulheres subjugadas, a inversão de qualquer espécie de lógica, são elementos presentes nas gravuras de Ernst e conduzem o espectador a todo um universo de crítica social e do homem, a uma tentativa de virar o mundo do avesso assim como a guerra e todo seu sofrimento havia feito com a vida de muitos homens da época, inclusive Max Ernst, para quem a guerra sempre fora um elemento traumático.




Neste sentido, como disse o próprio artista, muito pouco pode ser efetivamente explicado de seu ousado e original trabalho, no entanto, fica evidente como ele se deixou influenciar por fatores externos, não fechando-se somente no seu mundo interior, nos fluxos intermitentes de seu inconsciente. A sociedade está refletida em Max Ernst, principalmente a sociedade burguesa e a sociedade autoritária que faz e alimenta a guerra, de uma maneira absurda e irônica, com o objetivo de expor o que essa sociedade apresenta de mais grotesco e de mais trágico. Além de criticar de forma inteligente o seu tempo, o artista também antecipa temores em relação ao futuro que se mostraram de fato válidos. Censurado e perseguido pelo nazismo da época, Max não se deixou intimidar, foi para os EUA onde continuou produzindo sua obra que, no mesmo movimento em que reunia pedaços de outras figuras, dava forma e vida a uma imagem totalmente nova que ganha vida e transbordamento no detalhe sutil de cada recorte.




Texto inspirado em matéria da Carta Capital

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A temática da morte em "Sonhos", do cineasta japonês Akira Kurosawa

Akira Kurosawa (1919-1998) é um cineasta japonês que possui uma obra cinematográfica imensa e de excepcional qualidade, ele é brilhante do ponto de vista estético e extremamente criativo em filmes que vão do gênero épico e lírico, histórico e contemporâneo até o realista e fantástico. Possui uma característica rara em muitos cineastas: a de saber refletir, na medida certa, sem sentimentalismos superficiais ou exageros que acabam resvalando no terreno do ridículo, os dramas mais comuns e sutis da existência humana. Kurosawa cede gentilmente um espaço quase divino em sua obra para que questões relativas à vida, ao sofrimento, à solidão e à morte sejam discutidas por meio de uma estética inteligente, algumas vezes, belíssima, outras, sombria, mas sempre enriquecedora do ponto de vista humano e existencial.
Em um de seus filmes mais recentes, Sonhos, “Yume” em japonês (1990), Kurosawa rompe com diversos modelos e paradigmas do fazer cinematográfico e mergulha de forma fantástica e ousada no espectro da morte. Uma das inovações e originalidades mais marcantes do filme está na construção da narrativa. Esta se dá de forma enviesada, não linear, há uma diluição do próprio tempo, o que existe são instantes recolhidos e reunidos que compõem uma metalinguagem fascinante com a própria linguagem e natureza dos sonhos. São oito episódios reproduzidos apenas na lógica sensitiva do sonho. Este também não conhece tempo, apenas existe na nossa mente como uma voz que salta e uma imagem que aflora do inconsciente, produto direto de nossos medos, culpas, desejos e projetos de felicidade. Nada melhor do que construir uma narrativa diluída, sem preocupação com passado, presente e futuro para falar de sonhos, nada mais apropriado e sugestivo e aí estão os detalhes que fazem com que um filme não seja apenas um mero relato da realidade, mas uma ampliação e reflexão sobre ela, de modo que se rompa todos os limiares e subverta-se todos os princípios da arte cinematográfica em busca de algo humano e denso.
Dentre os oito episódios que compõem o filme Sonhos, em três deles há elementos estéticos e vozes que formam um discurso entremeado e recortado por elementos que fazem referência à morte. São frestas da narrativa, dos ângulos, dos diálogos, do próprio roteiro pelas quais a morte se faz perceber, ainda que não tão claramente.
No episódio “Corvos”, Kurosawa nos convida a inverter a lógica da contemplação de uma obra de arte, se o movimento mais comum que fazemos ao olhar uma pintura é trazê-la para dentro de nós, de nossas referências e conhecimentos anteriores, o cineasta propõe que se faça o caminho inverso da contemplação, ao invés de trazermos a obra de arte para dentro de nossos referenciais somos nós que entramos dentro da obra de arte por meio da figura do personagem principal do filme e apreendemos novos ideais, novas formas de ver o mundo por meio da sensação de atravessar a textura da tela, caminhar pela espessura da tinta, inebriar-se com as cores e com o visual deslumbrante registrados a partir das cenas da natureza, nada mais onírico, lúdico e, ao mesmo tempo, fantástico.
São vários os elementos que dão forma à viagem do protagonista do filme pelas obras do pintor impressionista neerlandês Vincent Van Gogh. Alguns desses elementos fazem referência direta à ideia de morte. Na ocasião do encontro entre o protagonista e Van Gogh, a estética da luz faz referência ao passar do tempo, à proximidade da morte a cada instante, o sol se pondo no mesmo movimento em que Van Gogh sai do plano da cena transmite a ideia de fim, de diluição e brevidade das coisas. A própria fala de Van Gogh: “Preciso pintar enquanto há luz, não tenho tempo para ficar aqui conversando com o senhor”, tem relação direta com a efemeridade e com o sentido de todas as coisas no contexto de um caminhar certo em direção à morte. Por fim, a cena é tomada pelos corvos e forma-se a imagem do quadro de Van Gogh. O quadro não foi escolhido por acaso, por que este quadro e não outro? Talvez, a resposta esteja justamente nas referências que poderiam ser traçadas entre o contexto reproduzido neste quadro e a ideia de morte. Além dos corvos, a imagem do campo de trigo provoca, às vezes, uma espécie de vertigem, de repente, ela se parece com a imagem do infinito ou com o caminho percorrido em direção à morte e ao que nos aguarda depois dela. Em um olhar ainda mais ousado, seria como se Van Gogh ao transpor o enquadramento, transpusesse a linha que separa este mundo do outro, tudo isso complementado pela sensação de alucinação provocada pelo trigal e pelas sombras trazidas nas asas dos corvos fazendo com que a morte paire acima da paisagem, como ela de fato paira acima dos homens. Por fim, liquefazem-se os sentidos, a morte é apenas mais uma obra de arte.




No sentido primitivo da verdadeira obra de arte, Sonhos, de Kurosawa provoca uma espécie de êxtase, saída de si mesmo, uma catarse que se relaciona diretamente com a ideia de sublime marcada pelo extravasamento, pela força, inspiração, criatividade e elevação. Entre um silêncio e outro, ouve-se o eco da grandeza da alma.

sábado, 10 de abril de 2010

Em "O Homem da Câmera, Dziga Vertov faz da lente uma extensão do olhar humano na captura do real

Dziga Vertov fazia cinema enquanto este ainda nem ganhara sua linguagem própria, o cineasta russo inaugurou um conceito e modelo de documentário baseado, acima de tudo, na realidade e na não intervenção ou manipulação desta. Segundo Vertov e a escola russa da qual ele pertencia (Kino Pravda, a do cinema-verdade), as cenas do real deveriam ser mostradas em seu estado puro, perpassadas sempre por um viés educacional. Os filmes de Dziga Vertov não eram feito para entreter e sim para fazer pensar, provocar reflexão, levar o homem à crítica de si mesmo e da sociedade na qual ele se insere. Um dos filmes mais famosos de Dziga Vertov é O Homem da Câmera (1929) no qual o cineasta, documentarista e jornalista mostra o cotidiano de cidades russas, principalmente Moscou. Esse filme antecipa muitas tendências a serem apropriadas por cineastas e documentaristas posteriores a ele, como a trucagem (fusão de imagens) ou a habilidade de montar, compor o real, visando conferir uma potência ideológica bastante forte para as imagens. O Homem da Câmera revela-se um filme extremamente agradável, denso, inteligente, crítico e capaz de proporcionar um imenso prazer estético. A criatividade e também o sabor poético da obra se fazem perceber em passagens como a fusão da lente da câmera ao olho humano, como se a lente fosse uma extensão deste, como se o real pudesse ser totalmente aprendido em sua crua realidade a partir das lentes do cinema. Em última instância, como se essa fosse a grande razão de ser do cinema!

Abaixo, trecho do filme O Homem da Câmera, de Dziga Vertov, por meio de suas cenas podemos viver a experiência única dos primeiros movimentos do cinema, movimentos ousados que mostram como a sétima arte de fato nasceu como documentário.

terça-feira, 30 de março de 2010

Wifredo Lam – O Sonho dos Trópicos em uma porta ao lado de Andy Warhol na Estação Pinacoteca

Na Estação Pinacoteca - antigo Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) de São Paulo, órgão de repressão política que teve o ápice de suas atividades durante o regime militar (1964-1985) - não confundir com a tradicional e bela Pinacoteca, o público encontra uma das exposições mais comentadas, divulgadas e procuradas dos dias recentes. Trata-se da individual do artista norte-americano, símbolo da pop-art, Andy Warhol.
A publicidade em torno da exposição de Andy Warhol diz que se trata da maior exposição do artista já montada na América Latina", mas o que se vê dá aquela sensação de “pensei que fosse mais”.
A exposição parece ser melhor quando se lê sobre ela, sobre a importância que Warhol teve para sua época, sobre seu olhar de vanguarda, sua capacidade de antecipar tendências futuras, mas quando se vê de perto, falta algo que emocione, que revele um caminho verdadeiramente artístico. No entanto, se os comentários o atraírem, caro leitor, para a individual de Andy Warhol, vá e se sentir que as produções do americano não lhe trazem nenhuma nova e profunda sensação, entre por outra porta, em uma na qual há uma inscrição tímida em um dos cantos dizendo “Wifredo Lam”. Não, não vá embora, abra esta porta:
Eis o mundo desse outro pedaço de chão...

La Jungla

Femme Assise

Zambezia, Zambezia

Les loa petro enfantent dans la danse

Soeur de la gazelle

Untitled C

Untitled A

Nativité

Annonciation


As linhas, os contornos, as cores, tudo revela uma estética que vai além do surrealismo. Há algo de sexual, de onírico, há um prazer disfarçado, uma verdade escondida, por vezes, revelada. A sensação é de leveza, tal como um voo a desprender quem olha do chão, a aproximar quem vê do infinito ou de algo mais imenso, largo, flutuante... Mágico! Um feitiço que resvala abertamente na criatividade, imaginação levada até o ponto onde ela se faz necessária, em hipótese alguma excessiva ou ridícula. Uma tragédia escrita com formas e detalhes na medida certa. Nada sobra, tudo transborda. A estética da obra de arte provoca o extravasamento, a saída e o reconhecimento de si mesmo. Há algo de romântico misturado ao surrealismo. Uma pincelada emotiva, imaginativa, uma preocupação com a forma equilibrada com uma busca pelos sentidos, pela emoção genuína e primitiva. Ao olhar já se reconhece o estilo, a dádiva de ser original, a "mimesis" grega talvez até tenha existido na construção dessas obras, mas no sentido de tomá-la para ir além da pura e simples imitação, a originalidade está em olhar o que já se construiu e pensar em algo novo, algo autoral. Arte é estilo, nada mais que isso!
Wifredo Lam (1902-1982),artista cubano, viveu por um tempo na França onde sofreu influência tanto de Picasso como da estética surrealista, foi um pintor capaz de sintetizar os elementos culturais de uma América genuinamente diversa - que era folclore de um lado e autêntica vivência popular e forma de representar o mundo de outro - tão plástica, mística e surreal. Daí, algumas características que marcam a sua produção artística.
Sem ele, talvez teríamos, nós, habitantes da América, ficado sem uma perturbadora e profunda visão de nós mesmos, de tudo aquilo que temos de belo e fantástico. Lam absorveu, como nenhum outro artista, a força literária do surrealismo, deu lugar na sua obra para que irrompesse a voz e força do oprimido e não se contentou com lugares comuns, deu ao povo um espelho salpicado por cores para que nele enfim tivéssemos uma visão de quem realmente somos.
Ficamos tímidos diante das gravuras de Lam, o surrealismo nos bloqueia, sua realidade nos parece muitas vezes distante, estranha. Wifredo Lam funciona também como um sintoma da plasticidade imaginativa que nos marca, desta dificuldade que temos em nos libertar de nossa, algumas vezes besta, racionalidade.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Musique é o novo espaço do Caderno 2+Música do jornal O Estado de S. Paulo, um encontro entre o revelado e o escondido

Arnaldo Antunes

O caderno 2 +Música do jornal O Estado de S. Paulo estreou hoje o espaço Musique, um espaço muito interessante não só por divulgar a obra de importantes e criativos compositores brasileiros, como também por permitir a participação dos leitores e oferecer um caminho para que talentos da música se façam visíveis e tenham a oportunidade de musicar a composição de nomes consagrados no cenário musical brasileiro, daí o nome Musique.

Em uma segunda etapa, o projeto Musique se inverterá, ao invés de melodias serem enviadas por anônimos para completarem as letras de compositores famosos, o espaço dará oportunidade para que letristas desconhecidos enviem versos que vão se combinar a uma melodia composta por artistas conhecidos.Abre-se, portanto, espaço para que o público participe tanto com a letra quanto com a melodia.

São iniciativas como essa que fazem com que a cultura se popularize, torne-se mais próxima do público e aconteça no mesmo movimento em que oferece espaço e oportunidade para que os talentos que andam por aí aos montes, sem serem notados, sejam por fim vistos, ouvidos, sentidos, contribuindo para tecer essa teia fascinante e transformadora da cultura brasileira.

Esse é o papel da mídia no nosso país, mediar os conflitos sociais, refletir as entrelinhas da sociedade e dar espaço para aquilo que nos transforma, faz de nós seres potentes, conscientes dos próprios desejos, elevados em nossa sensibilidade: a cultura, o movimento estético e belo da arte.

Em matéria publicada no site do jornal, o leitor encontra todas as informações necessárias para poder participar do projeto do espaço Musique.
A letra publicada nesta primeira edição é uma composição inédita de Arnaldo Antunes, simplesmente impecável. Os versos que você vê a seguir aguardam uma melodia, quem se habilita?


Planta colhe, de Arnaldo Antunes

o arroz
que se planta se colhe
o amor
que se planta se colhe
o que vai
volta um dia mais forte
o que fica
escondido explode


o feijão
que se planta se colhe
solidão
que se planta se colhe
se fugir
a estrada te escolhe
e o destino
também não dá mole


ao redor
pra onde quer que se olhe
a saída
é uma porta que encolhe
aflição
que se planta se colhe
algodão
que se planta se colhe


se cair
nessa chuva se molhe
sempre há sede
pra dar mais um gole
toda culpa
se planta e se colhe
na garupa
do tempo que corre


cada grão
que se planta se colhe
furacão
que se planta se colhe
cada um
inaugura sua prole
pedra dura
procura água mole


tudo vem
quando o tempo é propício
todos têm
sua porção precipício
o que sabe
não busca sentido
o que sobe
retorna caído


ilusão
que se planta se colhe
confusão
que se planta se colhe
num segundo
o desejo te engole
só não corre
esse risco quem morre

quinta-feira, 18 de março de 2010

Um pássaro negro

Hieronymus Bosch


as letras engolem meus dias
len-ta-men-te
naturais

salto da minha alma pra sua
mar-ca-da-men-te
desigual

rimo meus versos sem nexo
a-lu-ci-na-da-men-te
sensuais

tento esquecer aquela cena
in-sis-ten-te-men-te
surreal

busco romances em mim mesma
es-va-zi-a-da-men-te
banais

refogo o destino sem pressa
pen-sa-ti-va-men-te
abismal

separo as letras
me-ti-cu-lo-sa-men-te
e ainda me falta o final

terça-feira, 16 de março de 2010

Romantismo - A Arte do entusiasmo , Van Gogh - A Arte da eternidade

O cotidiano às vezes se apresenta cansado, cinzento, mudo. Parece estar existindo com pressa, diluído, espetacularizado, sem rumo...
O cotidiano às vezes aparece belo, simples, inebriante, doce e regado por uma inesperada graça da infância. A vida vai se confundindo, as cenas se entrelaçando, as teias vão sendo tecidas ao acaso, ao sabor do oceano obscuro onde está firmemente ancorado o destino.
E quando os olhos já estão cansados, o espírito sedento sem saber qual é o nome ou a forma de sua sede, os movimentos lentos e entrecortados, alguém, um dia, pinta o mundo com cores primitivas. Olha os recortes da paisagem com olhos puros e sensíveis, percebe as coisas além da tangível superfície, representa as cenas com uma realidade ainda maior, realidade confundida com a fantasia, fantasia impressionada com a realidade, traços camuflados em saudade, saudade salpicando em pontos suspensos e inertes. Faz-se um estilo acima de todos os limites e regras, um método que não é método e paira sozinho, um tom de romance, de doçura. A promessa do novo, a certeza de que, como diz a canção, o novo sempre vem e, melhor ainda que venha romântico...
Romantismo – A Arte do entusiasmo é o tema de uma exposição com 79 obras do Museu de Arte de São Paulo (MASP) que têm em comum ideias e a estética do romantismo. São pinturas e esculturas de 63 artistas. A justificativa para a exposição parece ser um pouco abrangente, mas a mostra reúne alguns dos melhores trabalhos do Acervo do Masp e, além disso, traz ao público obras de mestres como Hieronymus Bosch, Amedeo Modigliani, Van Gogh, além de impressionistas franceses como Edgar Degas e Paul Cézanne, este último já foi tema de um post aqui do Impressões sobre a sua estética do inacabado.
Entre tantos nomes que estarão reunidos na mostra, o Impressões decidiu dar um destaque para a obra do pintor neerlandês Vicent Van Gogh. Van Gogh criou uma estética única na arte, com temas simples e cenas do cotidiano vertidas em pinceladas quase mágicas, de um movimento, precisão e leveza peculiar. Ao incorporar tendências impressionistas, o pintor também tinha aspirações modernistas e influenciou variadas correntes artísticas do século XX como o expressionismo, o fauvismo e o abstracionismo.
Mas falar de Van Gogh é muito pouco, aos olhos veste melhor as suas cores, sua melancolia sutil, sua doçura suspensa, seu olhar esplêndido, sua alma quase desenhada...
Aos olhos e aos ouvidos um presente, dessa vez menos mudo, mais absurdo!

Aviso aos navegantes: A exposição fica no Masp até o dia 8 de maio.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Um desmaio doce

Criador de uma obra que não se encaixa em nenhuma das escolas das vanguardas, o pintor russo Marc Chagall (1887 - 1985) pintou na tela com cores vibrantes, formas originais, temas fantásticos e também religiosos, uma forma única de se fazer arte. Considerado um expoente da arte moderna, Chagall foi muito além dela, materializando uma arte sem nome que incorporou aspectos de diferentes correntes estéticas às cores e formas da tradição russa. O pintor bebeu de diversas fontes e produziu algo fascinante e inexplicável perpassado por uma presença marcante de imagens bíblicas. Judeu, o pintor retrata em uma série de gravuras, pinturas e vitrais, cenas do Antigo Testamento. Independente de religião, a arte de Chagall é um espetáculo aberto diante dos olhos atentos e fascinados de quem se rende à alma colorida, pungente, levemente melancólica e marcada por uma pitada de surrealismo, de sua arte.
Aviso aos navegantes: vale a pena conferir a exposição O Mundo Mágico de Marc Chagall – Gravuras, uma versão reduzida da mostra que esteve em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro no ano passado. Na exposição, que acontece no Museu de Arte de São Paulo, MASP, até o dia 28 de março, de terça a domingo, das 11h às 18h, o público paulistano e da região de São Paulo poderá conferir 178 gravuras feitas pelo artista russo e mergulhar maravilhosamente no seu universo doce e sutil.

Abaixo, vídeo com trabalhos de Chagall, alguns deles estarão expostos no MASP:

domingo, 15 de novembro de 2009

Pés em pedaços descalços


O sol bate forte em minhas costas.
Sou toda suor e lembranças,
que queimam, espremem,
meu peito e pensamento.
Sou toda dúvida, medo e perplexidade.
A dúvida bate em meu coração,
e faz com que ele queime feito fogo.
Sou toda tempo que se derrete,
se dilui para se desprender do próprio tempo.
Sou toda ensurdecedora.
Queria o silêncio naquele instante,
nada além do silêncio.
Que som dilacerante, provocante, insinuante.
Que formato prolixo e semelhante.
Queria ser apenas surda ou cega quando enfim tive medo,
do infalível destino, das suas artimanhas,
da sua habilidade em provocar emoções
de todo já tão esfumaçadas.
Sou toda desconfiança de mim mesma.
Imbecil insegurança.
Sou toda loucura, orgulho, impetuosidade.
Vontade de voar,
mergulhar no sonho de um cego,
dentro de mim mesmo afundar.
Era um abismo quando descobri o sentimento de querer sumir.
Dali, daqui, de dentro de um corpo,
quase que insuportável aos seus limites,
entontecidos, brilhantes.
Giratórios e brilhantes.
E saber o porquê de mim,
o que faço, o que sou,
o que entendo de amor e dor.
Me descobri como existente no nada.
Me descobri gelada,
sobre uma atmosfera quente.
De repente era tudo como esta gota de suor,
que agora desce fria sobre meu corpo dormente.
Deixando-me seca e molhada
sob um sol que se levanta gritante.
Tal como essa minha angústia,
insistente,
desintegrante,
a esconder uma felicidade que de todo o resto,
se faz ausente, distante.
E agora chove...
Lá fora ela é leve,
dentro de mim o céu se derrama mais forte!

M.V

A foto que ilustra esta postagem é de um dos mais famosos fotodocumentaristas de todos os tempos, o americano Walker Evans (1903-1975), e faz parte de uma exposição que acontece no MASP (Museu de Arte de São Paulo) com 121 imagens que representam, em sua maioria, a Grande Depressão vivida pelos EUA nos anos 30. A exposição fica no MASP até o dia 10 de janeiro de 2010 e revela como o fotógrafo conseguiu atingir um grau de equilíbrio adequado, esteticamente belo e marcadamente humano ao retratar uma época de sofrimentos e perdas.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Lygia por Lygia

Lygia Fagundes Telles, escritora


Pelo sonho é que vamos


Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.

(Sebastião da Gama)


Homenagem à Lygia Fagundes Telles, à sua palavra, vocação, suas meninas, sua estrutura da bolha de sabão, seu feminismo, sua crença na continuidade e eternidade dos seres, sua arte de escrever histórias nas últimas páginas de cadernos escolares ou de faculdade, sua arte de escrever o mundo e a sua realidade por meio da ficção, tão ou mais real que a própria realidade, confusão de sentidos e percepções. Homenagem àquela que escolheu ser escritora e mulher, combinando inteligência e beleza!

Lygia por Lygia, a autora inaugura a já belíssima série da TV Cultura, Autor por Autor. A série utiliza diversos recursos visando uma ampla produção de significados. Há uma constante hibridrização da linguagem, são fotos, palavras a brincar no cenário, atores interpretando Lygia, sua mãe, pai e amores, além da própria escritora contando a sua história, desta vez a sua história que perpassa em tantas outras belíssimas e sutis histórias que Lygia criara, com certeza, inspirada na sua primeira e derradeira história!
Um programa lindo de se ver, inteligente, híbrido, rico em signos e linguagem, cheio da vida e da intensidade inerente à palavra escrita, pungente e quente.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

By Pipilotti Rist



Este vídeo traz cenas da videoinstalação Ever is Over All, de 1997, da artista suíça Pipilotti Rist. Ever is Over All estará no Paço das Artes, em São Paulo, até o dia 6 de dezembro, uma oportunidade para que o público brasileiro entre em contato com a obra de uma artista que tem a cara do nosso século. Pipilotti cria cenários coloridos e grandiosos que nos remetem à infância e ativam nossa imaginação.
São imagens que conseguem nos impressionar em meio a este mar de tantas outras imagens que nos invade todos os dias, projeções que tomam paredes inteiras combinadas com uma música vibrante e com a exploração dos limites entre o racional e o intuitivo, o físico e o psicológico.

A artista suíça une cenas e fatos que podem até parecer prosaicos, mas sob a estética e o estilo de sua arte ganham outra dimensão. Trata-se de uma artista irreverente, capaz de produzir obras que combinam morangos, sexualidade e vandalismo urbano, alimentando-se de ironia, emoção e também das questões relevantes de nosso tempo, um tempo tão confuso, colorido, ensurdecedor, alucinógeno e sonhador, tão a obra de Pipilotti Rist.

sábado, 3 de outubro de 2009

"A mais bela das primaveras"

O balé A Sagração da Primavera estreou em Paris no dia 29 de maio de 1913 com música de Igor Stravinsky e coreografia de Vaslav Nijinsky com direito a uma vaia que ficou marcada na história da arte. O fato é que se A Sagração chocou na estreia aos poucos foi caindo no gosto do público e se tornou uma espécie de “clássico de vanguarda”. Por mais paradoxal que a expressão possa parecer ela reflete muito bem o espírito do balé que inovou não só a dança e o modo de fazê-la como também a concepção de arte.


A Sagração da Primavera já foi apresentada em diversas versões nas quais os coreógrafos buscam com olhares peculiares contar a história de uma jovem que precisa ser sacrificada e oferecida ao deus da primavera. Mas, o mais impressionante não é essa antiga lenda russa que serve de pano de fundo para a história e sim o espetáculo de corpo, mente e alma que é apresentado pelos bailarinos no palco. Na primeira versão de Nijinsky, os dançarinos tremem, se contorcem em espasmos, dizem sem dizer, harmonizam seu corpo com a música, promovem uma encontro sublime entre representação e realidade. Eles golpeiam o solo com os pés, contrariando o tradicional “flutuar”, tudo isso em uma atmosfera mais rebuscada tanto no que diz respeito ao cenário quanto em relação ao figurino.


Já a primeira grande releitura da Sagração da Primavera tornou os recursos de cena mais econômicos e retirou a história do contexto regional russo. O francês Maurice Béjart em 1959 transformou a história do balé numa celebração ao amor universal. Para ele, o encontro carnal de um homem e de uma mulher no balé simboliza, também, a união do céu e da terra, a dança de vida e morte – “eterna como a primavera”.
Outras versões de A Sagração da Primavera foram feitas por Martha Graham em 1984 e pela coreógrafa alemã Pina Bausch em 1975. Pina trabalha em sua releitura as relações humanas, tema constante em toda sua obra e concebe a batalha entre vida e morte em um palco coberto de lama que, aos poucos, vai se alojando nos pés descalços, no peito nu dos bailarinos, nas camisolas transparentes das mulheres.
O fato é que em todas as versões de A Sagração da Primavera a ênfase na sexualidade sempre foi uma constante com movimentos pélvicos, violentos, de extrema intensidade, ou seja, os gestos primeiros de Nijinsky foram preservados e aquela vaia inaugural realmente ficou para trás dando lugar à verdade da contestação, aos movimentos de vanguarda na arte, a uma nova forma de dança que incorpora elementos da arte teatral e assim se faz dotada de uma força e essencialidade fora do comum.




Aviso aos navegantes: A Sagração da Primavera, versão de Pina Bausch, foi apresentada no Brasil agora no mês de setembro no teatro Alfa em São Paulo. No entanto, para quem não pôde ver (como esta que vos fala) ficam aqui fotos de algumas versões do balé e também a dica de um espaço no qual o leitor pode encontrar vídeos com trechos de releituras de A Sagração da Primavera. Vale a pena ver e se impregnar de arte no sentido mais completo que este termo pode ter. Arte em essência, beleza, harmonia e intensidade da música, do corpo, do ritmo, do olhar, do tempo e do espaço.

Com toda a força e a esperança da mais bela das primaveras...




terça-feira, 18 de agosto de 2009

III Semana Hércules Florence e III Seminário Imagem e Atualidade da PUC-Campinas

A mesa-redonda Natureza em Foco aconteceu nesta terça-feira, 18 de agosto, no Auditório Monsenhor Salim - Campus II da PUC-Campinas e contou com a participação dos fotógrafos Haroldo Palo Júnior e Adriano Gambarini, tendo como provocador o biólogo Rubens Rosa da Revista Terra da Gente.
A mesa é uma das atrações que compõem a programação do III Seminário Imagem a Atualidade organizado pela PUC-Campinas em parceria com a Câmara Municipal da cidade. Para quem não teve a oportunidade de assistir à mesa, na reportagem abaixo seguem algumas informações sobre a III Semana Hércules Florence, organizada pela Prefeitura Municipal de Campinas e também sobre o III Seminário Imagem e Atualidade da PUC-Campinas, especialmente sobre a mesa-redonda Natureza em Foco.
Vale a pena conferir a programação do Seminário, bem como as exposições de fotografia que estarão pelos campi da universidade até o dia 31 de agosto e, com isso, aprender a olhar a fotografia, seja ela qual for, de uma maneira mais crítica e reflexiva.



quarta-feira, 27 de maio de 2009

'VIK'


Exposição com 131 obras no MASP é a maior já dedicada ao artista. Depois de passar pelos EUA, Canadá e México, a exposição ‘VIK’ chega ao Brasil no momento em que o fotógrafo Vik Muniz atinge o ápice de seu reconhecimento. Vik Muniz é um artista brasileiro, de renome internacional, que utiliza a fotografia como instrumento básico para ir em direção a uma arte que mistura ilusão e realidade, a aparência comum com a essência inusitada. Ele fotografa seus trabalhos, realizados a partir de técnicas variadas.
Há algum tempo escrevi neste meu espaço sobre um artista que me fascinou, apenas por fotos de seu trabalho que vi pela internet. Quando escrevi, já previa que seu trabalho visto pessoalmente deveria ser de todo maravilhoso e delirante, mas não pensava que fosse tanto. Vik me surpreendeu quando o vi de perto e mais ainda quando o vi de longe. A exposição de suas obras no MASP está de fazer fugir as palavras de tão bela, reúne muito de Vik Muniz e sua arte. As obras do fotógrafo estão agrupadas nas várias partes que compõem a exposição, o que permite ao visitante entender cada fase de Vik, bem como o que esteve por trás de cada um de seus trabalhos. Para avivar as vontades e despertar a curiosidade em ver de perto esses incríveis trabalhos, seguem abaixo algumas informações de cada uma das partes da exposição ‘VIK’, que pode ser vista no MASP até o dia 12 de julho.

O melhor de Life
Esta é a fase inicial da carreira de Vik Muniz. Sua formação sofreu forte influência da coleção de fotografias da revista Life, que ele reproduzia em desenhos e fotografava depois de perder algumas de suas páginas. Neste episódio, podemos perceber o quanto o que vemos se baseia no que já conhecemos
Desenhos com linhas
Esta parte da exposição mostra obras fotografadas que Vik realizou utilizando linhas, isso mesmo, linhas. O fotógrafo tem mesmo esse poder e essa sensibilidade técnica e estética de transformar o que parece trivial no cotidiano em um elemento de uma obra de arte, um condutor da percepção e do delírio de quem olha para, em seguida, olhar de novo. Nos desenhos com linhas, Vik trabalha com as noções de próximo e distante. Para dar a ideia de proximidade ele utiliza mais linhas e para promover o distanciamento ele utiliza menos linhas em uma técnica baseada no corte em camadas. O efeito é surpreendente e tocante.

Duas Vacas
O bom humor de Vik se faz presente em algumas obras como Duas Vacas. Nesta, em um primeiro momento, existe apenas uma vaca. Quem olha pergunta-se atônito, mas onde está a outra? Olhando mais uma vez se descobre a segunda vaca disfarçada como uma pinta, dentro da primeira. Aqui já percebemos como Vik Muniz é um artista de dois momentos. Suas obras são para serem vistas e entendidas em dois momentos distintos. No primeiro, nossos olhos nos enganam, nossa mente é equivocada. No segundo ficamos mais cuidadosos, vemos e reparamos, e quando reparamos ao olhar, entendemos o que Vik realmente quer representar. São dois instantes, duas percepções para uma só plenitude artística.

Equivalentes
Nesta série há um espetáculo à parte de forma, criatividade, espontaneidade e graça, onde nos é revelado o hábito de achar formas nas nuvens, cultivado por Vik. A partir daí, o fotógrafo decide utilizar o algodão como nuvem e brinca com o pedaço branco, dando a ele formas variadas. O pedaço de algodão vira gato, duas mãos unidas e tudo aquilo que a imaginação inventar. A participação ativa do observador na interpretação do que ele vê fica clara nesta série de obras. É interessante perceber também que quando se vê o algodão perde-se a nuvem e os objetos e quando se vê a nuvem perdem-se os outros dois aspectos.
Instala-se a confusão preferida de Vik entre imagem, ideia e realidade.



Mônadas
As mônadas são partículas invisíveis que constituem a essência de todas as coisas. Vik utiliza esse conceito para compor fotografias onde as partes se refletem no todo, onde o todo é a parte, onde não se sabe mais o que é todo e o que é parte. Tudo se confunde e tudo se torna claro no espaço de dois olhares, no instante da percepção.

Esculturas
Vik diz que começou sua carreira como escultor, mas quando fotografava suas esculturas para documentá-las viu que era das imagens que ele gostava. Para ele, a foto era mais interessante que a escultura. Vik produziu 52 esculturas a partir de um único bloco de pastilha branca e depois de fotografá-las as esculturas eram destruídas e só sobravam as fotos.

Arame
Esta série mostra imagens onde duas leituras são possíveis. Vik trabalha com os conceitos de material e imagem e faz com que o arame se confunda com o traçado do lápis, com a linha do desenho. Quando olhamos pela primeira vez vemos um traçado feito a lápis, mas, no segundo olhar, olhamos melhor e o arame revela-se nas linhas do desenho, inacreditável, criativo, sensacional. Os desenhos com arame mostram como a pior ilusão possível é aquela que ainda pode enganar o observador, mas apenas por um momento. O arame desenha um balanço, uma torneira, uma lâmpada, uma cama, algumas roupas no varal, um papel higiênico e o que mais Vik resignificar.

Açúcar
Esta série de obras revela toda sensibilidade e percepção social de Vik Muniz que se repetirá lindamente em diversos outros trabalhos. Vik fotografou algumas crianças que trabalhavam de forma exploratória em plantações de cana de açúcar e depois decidiu duplicar aquelas fotos, polvilhando-as com açúcar em um pedaço de papel preto. O efeito é fascinante não só pela beleza estética que o açúcar conferiu às fotos, como também pela resposta da arte a um drama social e humano. E como a arte responde lindamente às nossas aflições!


Terra
Aqui Vik Muniz apresenta imagens de terra feitas com canudos e pedaços úmidos de algodão com a ajuda de um pequeno aspirador de pó. O desenho e a terra se unem sobre a tinta, um peixe maravilhosamente se revela, lindo e mágico. De perto não o vemos, mas de longe ele se faz majestoso e pelo. A arte de Vik é efêmera e, ao mesmo tempo, eterna em um paradoxo só dela.

Montinhos
Esta série de fotografias é particularmente original pela combinação de elementos aparentemente desconectados, mas que juntos mostram o quanto todas as coisas têm em comum umas com as outras. Afinal, com quantas coisas aparentemente descombináveis se pode chegar a uma obra de arte? O que um curry em pó tem haver com jujubinhas, espinhos com fusíveis, bebês de plástico com besouros? A resposta é dada por Vik por meio de sua arte. Na arte nada se exclui, as coisas se somam e há lugar pra tudo em um eterno rearranjar de elementos.





Diamantes e Caviar
Algumas das fotografias mais conhecidas de Vik Muniz estão nessa série de obras.
Nelas, Vik buscou uma solução criativa, como sempre, para retratar as divas do cinema. Pensando em todo seu brilho e glamour decidiu retratá-las por meio da beleza do diamante. Elizabeth Taylor fica preciosa e brilha, tal como uma estrela de cinema, tal como um emaranhado de diamantes. Já o caviar é usado por Vik para retratar rostos de monstros e vilões do cinema, um contraponto às divas e ao diamente.

O Depois
Mostrando mais uma vez toda sua percepção social, Vik olha para as crianças órfãs que dormem sob o lençol das estrelas nas ruas da maior cidade do país: São Paulo, e decide tirá-las, ao menos por um instante dali, trazendo-as para o instante eterno da fotografia, colocando-as sob as lentes de uma máquina humana e social. Vik dá um livro às crianças, pede que elas escolham alguma pose e a imitem. A partir daí ele compõe as fotografias com lixo colorido jogado às ruas na quarta-feira de cinzas, logo após o carnaval. A sutileza aqui presente é tocante. Vik escolhe o colorido do lixo porque o que ele mostra são crianças. Crianças devem ser coloridas, mas para aquelas crianças não poderia ser usado um colorido qualquer, já que a elas foi roubada parte de uma infância, elas têm um colorido diferente, é um resto de cor depois da alegria, por isso lixo da quarta-feira de cinzas. Depois do carnaval há apenas um resto da alegria em coloridos que se misturam à, por vezes, fria realidade.



Medusa Marinara
Esta obra une mitologia e modernidade, faz do clássico algo irreverente e único mostrando que a cópia de uma cópia é sempre um original.




Rebus
Outra série de fotografias lindas, pensadas e planejadas. Depois de Mônadas, Vik continua fazendo da parte o todo e agora usa uma variedade de brinquedos para mostrar que só se é jovem uma vez, mas isso pode durar uma vida inteira. São miniaturas de carros, bolas, lápis, cornetas, botões, colheres, garfos, dentre outros, das mais variadas cores e formas dispostos de modo a formar o que Vik quiser retratar.


Quebra-cabeças
Vik une peças coloridas que ilustram o esplendor arquitetônico de cidades idealizadas, civilizações míticas e centros de ensino mostrando que ter é acreditar, afinal, se nenhum lugar é definitivo sua realidade se concretiza nas pinturas, reiterando o tema recorrente de Vik Muniz. É lindo e desafiante, como montar um quebra-cabeça, ver o Jardim das Delícias e A escola de Atenas em meio a peças soltas encaixadas na mente de cada um que olha e admira.

Pigmento
Nesta série, particularmente linda e colorida, é como se a textura da imagem saltasse dos limites da fotografia, fosse maior que o papel, desafiasse a todo instante a nossa percepção.
Vik usa camadas de diferentes pigmentos para preencher pinturas a óleo sem o óleo, incrível o resultado, a ideia de profundidade e beleza que quadros já belos e clássicos como A Catedral de Rouen, de Monet ganharam. A catedral se recriou tanto na luz do dia como nas sombras da noite. A japonesa, do mesmo pintor, também ficou mais viva e colorida com cores tão fortes que, por vezes, poderíamos pensar nem existirem mais assim.


WWW – Imagens de Sucata
Esta fotografia é de uma fidelidade e perspicácia no retrato da modernidade tal como nenhuma outra já criada. Vik dá forma ao mundo utilizando peças de computadores velhos. O Brasil é quase todo de teclados, os EUA ganham forma por meio de vários CPU’s, o mundo vira literalmente um conjunto de peças de computadores tal como é atualmente, afinal, vivemos na era da internet e da globalização. Na era de tantas promessas tecnológicas, o mundo é um amontoado de computadores, mas até agora apenas no terreno das ideias, até um certo fotógrafo decidir transformá-lo de fato em um.



Papel
Nesta série de fotografias, Vik trabalha com os tons da escala de cinza para recriar o conteúdo histórico de algumas fotos. A sensibilidade estética no manuseio dos materiais e sua composição são marcas constantes nos trabalhos do fotográfo e dão a eles uma identidade própria e uma qualidade estética indiscutível.

Poeira
Essas fotografias, como tantas outras surpreendem. Vik é assim, quando se acha que ele já fez de tudo, é bom se preparar porque os olhos ainda não viram nada, ele supera a si mesmo e a nós resta a admiração e o conforto por saber que ainda se fazem artistas de verdade. Aqui, Vik compõe suas fotografias com os sacos de poeira retirados de aspiradores de pó. A poeira produz imagens abstratas, independentes do ambiente a sua volta. É fascinante.




Lixo
Uma das séries de fotografias mais bonitas de Vik Muniz, não só pela perfeição técnica e estética, pela vivacidade e harmonia das cores e pela perfeita combinação de elementos, como também e, principalmente, pela percepção de uma realidade social. Assim como Vik olhou para os meninos de rua da cidade de São Paulo e buscou abrigá-los na fotografia, ele também percebeu as pessoas que trabalham e vivem no Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, o maior depósito de lixo urbano do mundo. A partir desta realidade, Vik fez retratos dessas pessoas em situações alegóricas, utilizando os materiais que elas recolhem para reciclagem.
O próprio artista diz que, ao fazer estas fotografias, teve contato com um lado da vida que ele imaginou que não existisse mais. As fotografias são mais do que simples retratos de uma realidade, elas mostram um sentimento, mostram o que não se vê, o que está por trás da realidade, o que há de invisível aos olhos e visível aos sentidos. Nestas fotos, chinelos contornam as linhas, definem os traços, tampinhas formam e rosto, seus dramas e detalhes. O lixo sufoca o homem, pesa sobre sua cabeça, mas ele resiste abaixo, firme. A mulher continua bela, apesar do lixo, joga seus cabelos feitos de linha e cala pela sensualidade.





Sucata
Nestas fotografias, Vik Muniz faz imensas composições de materiais descartados. No primeiro plano aparecem sempre maiores, no segundo plano são menores dando a ideia de profundidade. O interessante desta série é tentar entender o que a sucata diz a nosso respeito e da nossa atitude diante do futuro. Novamente, o artista recria lindamente clássicas pinturas, agora é a vez de O Nascimento de Vênus, de Botticelli e de Narciso, de Caravaggio.

Earthworks
Trabalhos sobre a terra. Aqui, Vik mostra fotografias grandiosas por meio do real trabalho sobre a terra. As fotografias foram tiradas de helicóptero e os desenhos, inicialmente apenas utensílios domésticos, com cerca de 120 a 180 metros foram feitos utilizando uma escavadeira para que pudessem ser assim gravados no solo de uma mina de ferro brasileira e eternizados na lente. São livros, dedos, pratos com garfo e faca, clips, dente, cachimbo, chupeta, uma carta imensa, pés, uma tesoura cortando a terra e tantos outros brilhos de um artista que também sabe ser grandioso sem perder a graça das pequenas coisas.





Duas Bandeiras
Vik produz duas versões da bandeira americana que sugerem a passagem do tempo e o clico das estações por meio do predomínio de tons de verde em uma e marrons na outra.

Cores
Nestas fotografias, Vik usa a escala Pantone para criar. Ele mostra imagens que evocam seus pixels digitalizados e, no entanto, ainda são reconhecidas como imagem, apesar de sua fragmentação. A presença dos aspectos físicos traz a relação complicada que se estabelece entre objeto e imagem.

Cárceres
Lembram as imagens de linha, mas aqui o que importa é o espaço arquitetônico não a paisagem. A linha não repousa mais em camadas irregulares, ela ziguezagueia tensionada em uma trilha de alfinetes, oferecendo um contraste entre tipos de espaço, trabalhando com a profundidade da perspectiva e a baixa elevação dos alfinetes.

Caminhante sobre um mar de cinzas
Cigarros e cinzas dão vida e realidade a essa fotografia de Vik. Forte e inteligente.

Calda de Chocolate
Vik percebeu que o chocolate era um material pintável, fácil de trabalhar e cheio de associações. Chocolate se confunde com amor, luxo, romance, obesidade, escatologia, mancha, culpa, dentre tantos outros sentimentos que decorrem dele. A série é linda, de dar água na boca.