Mostrando postagens com marcador mordida na alma (poesia). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mordida na alma (poesia). Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ponto de Fuga


Os caminhos que me levam a ti
nenhum ponto de fuga
milhares de pontos de encontro
como uma linha reta
com água brotando de círculos
broto inconstante
complexa no que sinto.
O medo se mistura à calma
a insegurança se disfarça em silêncio
os dias correm ao teu lado feito loucos
andam feito lesmas quando foges de repente
as tintas raras que te pintam
ora me confundem
ora me decifram
sinto tanto tua leveza
e, ao mesmo tempo,
sinto meu peso e exagero
Mas, de todo, acho que
leveza e peso
se equilibram.
Somos ambos o ponto de fuga
que foge de minha busca
nossos corpos se combinam e,
em um mesmo movimento,
nossas almas se aliviam.

M.V

terça-feira, 20 de abril de 2010

Não sabia


Eu andava coberta
pelo céu que deslizava.
Eu deitada já pensava
e era tão criança ainda...
Eu escrevia o que sentia.
Sem saber naquele dia
poesia eu já fazia.

M.V

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Suspiro de olhar


E se assim estiver,
esfarrapado de alma
roubado de sonho
esfolado de dor
disfarçado de belo
adoçicado de calor
assustado de pudor
desencontrado de futuro
atormentado de passado
apaixonado pelos versos
adornado de fantasia
despido de graça
colorido de tom
ditado pelo preconceito
enfeitiçado por uma flor

E se assim estiver,
riscado a lápis
amado em rascunho
ainda te faltará
um sutil detalhe particular:
o suspiro que foge do olhar

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Despejo

Foto de JP Corrêa

Antes que o tempo

venha e esparrame
a confusão de linhas
ardentes por dentro
desejosas de que se ame
eu olho pelo vidro
que me retrata diferente
mas não vejo nada
resta apenas eu mesma
d
e
s
p
e
j
a
d
a

M.V

domingo, 11 de abril de 2010

Sem nome



Cores de bruma
enfastiam meu tempo
sedutoras em seu arrebatamento
infantis em ruas meigas,
em vozes repartidas
pelo tempo ou pelo vento que me despenteia.
Vozes sem hora definida
não sei nem menos nem tanto
tal pureza parece terra
areia fina que arrebenta
essas vias mal passadas por melancolia.
Vertes água pedra seca e endurecida
efêmeras indecentes
e acho que desfiguradas
com som de gesto
lançam a imagem da palavra inexistente.
Onde mora o absurdo,
por quais meios chegar ao começo?
Traços pretos
recortes de tantos rostos com defeitos
tua voz é pura
os silêncios faceiros
sentada apenas ouço aquele som de verde
verde, verde e mais verde...
Os telhados são hostis
as paredes brancas, estranhas.
Concretos discretos do infinito
meu prazer é o teu,
ali onde já não me percebes.
Eis a sombra e manto de árvore
sinta o toque destilado do divino
muito salta aos teus olhos libertinos
onde pecam minhas falhas e faltas
incertas...
tão cheia de vertigens
pálidas e altas
corretas...

segunda-feira, 29 de março de 2010

Aparição

surgiu-me
entre o cansaço
peça solta na multidão
depois de tanto tempo
justo aqui
e não senti tanto
agora mesmo já o esqueci

quinta-feira, 25 de março de 2010

Vestido Verde


Daria tudo por uma alma mais simples,
que fosse como um vestido discreto,
um traje inconscientemente completo.
As cores seriam básicas e uniformes,
as linhas retas, sem desvios,
o tecido sem marcas,
exuberantemente reto.
A textura seria macia e diáfana,
do tipo que se vê o outro lado,
do tipo que não se esconde do inesperado.
Também penso em alguma estampas,
mas não de bolinhas,
muito redondas, muito círculo viciante,
podem ser estrelas,
bastante, salpicadas,
bordadas com lantejoulas verdes,
as lantejoulas do baile verde,
ou das festas de minha infância,
podem ser o destino é quem manda.
Estrelas com lantejoulas,
tão lindas, tão simples,
meio tontas, meio comovidas.
Estrelas as quero por que brilham,
são luz sobre a vastidão negra,
no meu vestido são lembranças de outrora
salpicadas sobre um tecido cheio de cor,
mudo e sem demora.
Meu vestido pode ter todas as cores,
menos o preto.
Já sou muito negra,
só uso preto,
eis uma obsessão que nem sei da onde vem,
talvez seja a roupa de minha alma,
a cor com que ela no movimento da intuição
goste de vestir sua forma física tão banal.
De todo não quero buracos,
que o vestido venha bem aparado,
cergido, costurado, remendado,
de esburacamento de alma já estou farta.
Quero tudo preeenchido,
mas não com muitos sentidos e explicações,
prefiro as fábulas e as imitações.
O vestido poderia mostrar minhas pernas,
um pouco dos braços,
deixar fluir o arfar dos seios,
me deixaria livre,
brilhando feito estrela,
alegre feito lantejoula,
simples feito uma mulher
como qualquer outra.
E quando eu colocar o vestido?
Vou mandar fazer,
vou desenhar,
quero o vestido já,
quero ser simples,
alegre, cheia de estrelas e estilo.
É só meu corpo tocá- lo e serei outra
com certeza serei
não venham me dizer que não.
Imagino-o leve sobre minha alma pesada,
ele há de torná-la tão leve feito pluma.
Mas vou falar para a costureira pregar bem as lantejoulas
não quero lantejoulas caindo,
pedaços de infância pelo meio do caminho,
já perdi muitos pedaços na minha vida,
por caminho de desatino.
Nesta nova vida não aceito restos por aí
quero tudo comigo,
melhor talvez não deixar marcas
em seres já tão marcados.
O vestido andará comigo
por toda minha teia dividida
até o último derradeiro dia
quando só então
poderei dizer
se fui feliz ou não nesta vida.

M.V

quarta-feira, 24 de março de 2010

Do nada


Igual à música que te quis contente,
minha mente some inebriada,
a voz se faz muda e desamparada.
Não esperava aquela emoção.
Despejos de reticências do abandono,
gritos e tremores sem nome,
apenas sentia sem saber o que.
Era mais que um cansaço,
menos que uma revolta,
algo parecido com desejo e amplitude.
Sem tempo, o corpo se fez elevado,
nada mais separando o escrito do lembrado.
Vieram as palavras,
último sopro de uma lágrima,
sublime ou amaldiçoada.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Um pássaro negro

Hieronymus Bosch


as letras engolem meus dias
len-ta-men-te
naturais

salto da minha alma pra sua
mar-ca-da-men-te
desigual

rimo meus versos sem nexo
a-lu-ci-na-da-men-te
sensuais

tento esquecer aquela cena
in-sis-ten-te-men-te
surreal

busco romances em mim mesma
es-va-zi-a-da-men-te
banais

refogo o destino sem pressa
pen-sa-ti-va-men-te
abismal

separo as letras
me-ti-cu-lo-sa-men-te
e ainda me falta o final

quarta-feira, 17 de março de 2010

Mosaico



vejo demora
que não mora
nela
tampouco em mim

vejo sombras
que não são negras
brancas
tampouco ausentes de fim

vejo afinidades
que não têm idade
bela
tampouco ela é enfim

terça-feira, 16 de março de 2010

Modelos



oferecida
insistente
cansativa
irritante
assim são algumas meninas
chatas e invasivas
querem se fazer de cultas
simplesmente repetem frases cruas
de originais não têm nada
são modelos de auto-ajuda

domingo, 14 de março de 2010

A agulha e a linha



vinha pela rua
meio mágica
meio nua

andava na madrugada
meio aflita
meio acorrentada

colecionava poesias
meio indecentes
meio finas

dançava no escuro
meio sem jeito
meio sem rumo

falava sozinha
meio louca
meio linda

entrou na minha vida
meio noite
meio dia

me costurou nas entrelinhas
meio agulha
meio linha

quinta-feira, 11 de março de 2010

Mimesis

na diluição da lógica
na completude do saber
na fonte da lógica
na irracionalidade do mundo
na racionalidade de tudo
na vertigem absurda
no horizonte profundo
nas vozes da loucura
nas arestas do saber
nas notas do medo
na melodia da eternidade
na imensidão do negro
na perdição do branco
na busca pelo eterno
no encontro com o efêmero
nas sutilezas da saudade
nas lentes da igualdade
na travessia inebriada do vento
no cheiro que na vertigem reparte
na amarga incompreensão de um olhar
na poesia que disseca a palavra
na vida o caminho da arte



Vídeo com animação inspirada na obra do pintor espanhol Salvador Dalí

sábado, 6 de março de 2010

Forma da sombra, cheiro do tempo...

eu
nada meu
meu
tudo seu
seu
nada fácil
fácil
tudo leve
leve
nada breve
breve
tudo ágil
ágil
nada permanece
permanece
tudo muda
muda
nada se parece



hoje
apenas ontem
logo amanhã
efêmero sem sombra
brisa sem dono
o tempo cheira a maça
o ar contempla o abandono



o espelho está inteiro
a água límpida
o vento canta ligeiro

a fumaça está com preguiça
o sol deitou mais cedo
o silêncio por perto
ronda quieto

as sombras sem corpo certo
desfilam como borboletas
minha alma dança no teto
e se esqueçe dando piruetas

M.V

quarta-feira, 3 de março de 2010

Minimalesca



no seio do amor
vertida com dor
tua vertigem sem cor



céu nublado
dia gostoso
penteia algumas lembranças
o vento da minha infância



viagem
doce miragem
não levo nada
só saudade



poesia e você
receita
de prazer



na casa da esquina
mora gente bonita
a flor por trás do muro
parece infinita




não quero vozes de histeria
quero apenas a promessa
de uma nova poesia



aonde cabe a poesia?
me perguntaram certo dia
onde começa a fantasia
respondi feito menina



risco
rabisco
desafino teu disco



copos enfileirados
vento suave
olhares desconfiados

terça-feira, 2 de março de 2010

Os alguns dos outros

alguns gestos
doces
outros versos
mudos
alguns poemas
baratos
outros olhares
gratos
alguns dedos
arrepiados
outras promessas
tecidas em fio de plástico
alguns instantes
eternos
outros lugares
inverno
algumas palavras
mistério
outras histórias
despautério

M.V

segunda-feira, 1 de março de 2010

Confesso que vivi

“Talvez não tenha vivido em mim mesmo, talvez tenha vivido a vida dos outros.
Do que deixei escrito nestas páginas se desprenderão sempre – como nos arvoredos de outono e como no tempo das vinhas – as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado.
Minha vida é uma vida feita de todas as vidas: as vidas do poeta.”

Pablo Neruda





Confesso que vivi
nesse pedaço de caminho que percorri apertada
o céu chorando por fora
eu chorando por dentro
a solidão me deixando melancólica
a vida me parecendo deserta.
Estou eu indefinida
uma agonia sem razão certa,
uma incompreensão interiorizada,
um desfalecer sufocado em vida.
Mesmo assim, em pedaços
com o vento arrastando meus restos roídos de saudade
mesmo sem saber da ausência dessa tristeza e sofreguidão,
naquele pedaço de caminho,
despudoradamente,
mordendo a tua falta.
Confesso que vivi...

M.V

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Perdido



Não passe por mim
como quem passa pelos anos,
tímido e pensativo.
Não olhe pra mim
como quem olha o horizonte altivo,
perdido em mera contemplação.
Não me vista assim
como quem veste um paletó,
reto e sem emoção.
Não me descreva de cabeça
como quem descreve sem vibração,
morno e colecionando pó.
Não me faça tua
como quem toma pra si a lua,
e a esquece com o nascer do sol.
Apenas me faça muda
como quem deita na rua,
e abraça uma alma nua.
Me tome múltipla e escura,
e faça de mim somente uma,
mesmo assim ainda não serei
detalhadamente tua...

M.V

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Antes das aspas


O ar respira diferente
A incerteza veste o que vem pela frente
Meus olhos desfilam esquecidos no chão
O ar paira ausente
Eu sou agora como aquele
que, de repente,
não sabe mais o que sente.


Saudade das letras,

do romance delicado,
quanta assessoria neste espaço!
Não recuso a literatura,
vou aonde os versos estão,
neles eu percebo a mim mesma
é como a claridade na escuridão.



Constante

mente
Cansa-me
sente
Distante
mente
Demora-te
quente



Vou esperar

seu toque de dedos trêmulos
Vou revirar
seu salto de murmúrios breves
Vou desafiar
seu cotidiano de olhares inertes
Vou descobrir
seu palco de panos transparentes
Vou implodir
suas ruínas de versos indecentes
Vou decidir
se te coloco aspas ou parênteses

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Desintegração

Galatea of the Spheres, Salvador Dalí


Perdi a voz.



Sucumbi a um delírio sem nome,
o abismo enegrecido do prazer
misturou-se à intensidade de algumas lágrimas
vertidas sem que eu pudesse perceber.

Senti a sua alma.
Primeiro apenas a ponta dos dedos,
depois a doçura dos beijos,
o repousar da face,
a suavidade da voz.
Fugiu-me naquele instante o medo.

Andei pelo outro lado da rua,
colhi outras paisagens,
encontrei a minha saudade
toda revestida de negro
com uns olhos sem cor.
Estava um pouco envergonhada,
sedenta por paisagens mais largas.


Um suspirar do amor...