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segunda-feira, 15 de março de 2010

Escritores da alma

Uma tarde, durante um recesso do tribunal, eu estava sentado a essa mesa, tomando café com Panagakos, um fiscal de sursis, um fiador e dois detetives da delegacia de costumes, quando um curioso homenzinho entrou no restaurante. Tinha por volta de 1,62 ou 1,64 de altura e era bastante magro; não devia pesar mais que uns quarenta quilos. Estava com a cabeça descoberta e empinada para o lado, como um pardal. Tinha cabelos compridos e uma barba densa. Traços de sujeira na testa indicavam que a havia coçado com dedos imundos. Ele usava um capote vários tamanhos maior, quase roçando o chão. Trazia as mãos juntas, para aquecê-las – fazia muito frio -, e as mangas do capote as cobriam, formando uma espécie de regalo. Apesar da barba, o homem tinha algo de infantil e de perdido, com aquele capote grande demais, a cabeça descoberta e o rosto sujo: um menino que subira ao sótão com outras crianças para experimentar roupas de adulto, se cansara da brincadeira e caíra fora (MITCHELL, 2003, p. 43).

Joe Gould



Entre as grandes obras-primas do Jornalismo Literário, uma delas não pode deixar de ser lembrada, trata-se de O Segredo de Joe Gould (2003), do escritor norte-americano Joseph Mitchell. O livro é composto por dois perfis que têm como personagem um mesmo homem, ou como Mitchell prefere chamar, uma mesma alma perdida: Joe Ferdinand Gould. Os dois textos foram publicados na revista The New Yorker, na qual Mitchell trabalhou por grande parte da sua vida, o primeiro em 1942 e o segundo em 1964. Mitchell, a exemplo de jornalistas americanos que posteriormente se aventuraram nos ideias do New Journalism e se propuseram a fazer um jornalismo livre das amarras e dos limites formais e temporais presentes no cotidiano das redações, produziu textos simplesmente lindos e emocionantes, associando seu nome ao mais alto padrão de texto jornalístico que avançou sobre as margens da literatura. Ele tinha um dom natural, uma sensibilidade própria em voltar-se para os anônimos do cotidiano, era disso que Mitchell gostava, era sobre isso que sabia escrever como ninguém. Como diz a frase retirada do obituário de Joseph Mitchell no New York Times, ele gostava de sonhadores e bêbados,e, para ele, as pessoas eram sempre tão grandes quanto seus sonhos. Diante dessa característica, Mitchell evitava os lugares comuns do jornalismo como por exemplo as celebridades, os poderosos, as pessoas em evidência. Ele gostava dos que viviam à sombra, estes o atraíam para serem revelados delicadamente pelo estilo discreto de Mitchell. Quando diziam que ele se dedicava a personagens pequenos, ele costumava responder: “Eles são tão grandes quanto você, seja você quem for”. Tamanha sensibilidade e beleza de alma só poderia se refletir em um texto sonoro, regado por ideias belíssimas e originais, histórias e enredos inspiradores, atraentes, por uma linguagem trabalhada, embora não em excesso. Como já foi dito, Mitchell era, acima de tudo, um jornalista de estilo discreto que se esgueirava pelas ruas, camuflado pela escuridão em busca das luzes invisíveis da vida. Aos seus olhos, os personagens de uma grande cidade deixavam de ser mudos e invisíveis aos olhos e ouvidos da multidão diluída e uniforme e passavam a iluminar o mundo com a luz de sua loucura, com o lírio do seu olhar.
O personagem de Joseph Mitchell em O Segredo de Joe Gould é um boêmio que vive pelas ruas do bairro nova-iorquino Greenwich Village carregado de lápis, cadernos, guimbas de cigarro e piolhos. Dentre todos os seus personagens, Gould foi aquele que Mitchell mais escutou. Formado em Harvard, Gould é um literato maltrapilho que sabe falar a língua das gaivotas e traduz alguns poemas e textos para essa sua lingua mágica e doce. Daí, a inspiração para o título do primeiro perfil de Joe Gould, intitulado “Professor Gaivota”. Além de traduzir clássicos da poesia em língua inglesa para a lingua das gaivotas, Joe Gould também estava escrevendo uma obra monumental, eram muitos e muitos cadernos preenchidos que formariam a obra de toda uma vida chamada Uma história oral de nosso tempo. Essa história seria baseada apenas naquilo que as pessoas da sua época dizia. Gould decidira escutar as pessoas nas ruas, nos bares, banheiros, à noite, durante o dia, atrás das portas, enfim, escutá-las. Em outras palavras, Mitchell encontrou em Joe Gould um homem tremendamente parecido com ele próprio, que gostava de escutar as pessoas e achava que a história de uma nação estava justamente naquilo que as pessoas diziam, não nos parlamentos ou nas guerras. Joe Gould era seu personagem perfeito.
O interessante é perceber como Mitchell soube olhar bem para Joe Gould, ele enxergou o homem, o escritor, o falante da língua das gaivotas por trás do boêmio. Ele viu uma profundidade psicológica naquele indivíduo, uma cor diferente na sua alma, um olhar mais longo, reticente e profundo, ele viu uma história que valeria a pena ser contada, e esse é o segredo de um bom perfil. Se a história de vida não for boa o perfil simplesmente não se sustenta, mesmo com uma belíssima linguagem, tocantes metáforas, imersão total na realidade, múltiplos pontos de vista na narrativa e outros elementos do jornalismo literário, nada disso se faz suficiente quando a história não é boa o suficiente para envolver o leitor de modo que este se veja de alguma forma refletido naquelas páginas. Da mesma forma, de nada adianta uma bela história se não se sabe contá-la. Joseph Mitchell é fascinante porque reúne as duas características essenciais do jornalismo literário, ele sabe olhar para a cena do mundo e sabe escrever de forma rica e humanizada. Não há outra alternativa, sequer outro segredo, basta saber ver o que os outros não viram, saber contar com as palavras que outros jamais usariam, jornalismo literário também é arte, ele empresta a arte da literatura e quando se cai no campo da arte tudo é uma questão de estilo.
Mitchell tem estilo, sabe impressionar com a sua escrita clara, diáfana, direta, correta. Além disso, ele se utiliza da imersão. É evidente o seu mergulho profundo na alma de Joe Gould buscando apreender aquilo que talvez nem mesmo Joe Gould sabe que tem ou sente. Alem da imersão e da linguagem clara, precisa, discreta, Joseph Mitchell deixa marcado em tudo aquilo que escreve o seu estilo, a sua voz autoral ao narrar as sombras da realidade, jogando nelas uma luz quase sublime.

Joseph Mitchell e Joe Gould no filme Joe Gould's Secret, de Tucci e Howard A. Rodman





Basicamente, o estilo de Mitchell que perpassa ambos os perfis de Joe Gould, é preciso. Como o físico e matemático britânico Maxwell escreveu “seu texto lembra o som que fazem os carpinteiros quando estão construindo uma casa”. Não há hesitação, pregos tortos, acima de tudo, nada sobra, tudo é exato, não há sílabas desperdiçadas. Ele não era um escritor de excessos, era leve, o texto pairava acima das páginas e assim Mitchell desenvolveu formas próprias para tratar histórias da vida real com técnicas de ficção. A observação minuciosa do mundo material fazia parte do seu método, era uma estratégia literária e, ao mesmo tempo, uma forma de atingir coisas intangíveis, internas (emoções, sentimentos...) através de coisas palpáveis e externas (a estante de livros desarrumada, o relógio gasto, as roupas amontoadas...). Faz parte do estilo de Mitchell uma ponta de humor que transparece em algumas situações de O Segredo de Joe Gould, ainda que este humor seja melancólico, negro, daqueles que reduzem a quase nada as grandes pretensões da vida. Outro recurso que ele utiliza em O Segredo de Joe Gould é a precisão de dados e informações, principalmente, aquelas que se referem ao seu personagem. De Joe Gould ele tenta pesquisar tudo, reunir os números, as horas, as quantidades que ajudam a definir aquela alma perdida e mostra todos esses dados ao leitor de forma que este último se sente impressionado e, ao mesmo tempo, satisfeito por um efeito de realidade, um gesto irreversível que faz da realidade algo que simplesmente se impõe e completa as pessoas, no mesmo movimento que as incompleta. Mas neste ponto Mitchell entra com sentimentos, com a alma, com a solidão, talvez seja esta última o grande tema do livro: a solidão de um homem inteligente e puro. A sensação ao saber mais sobre ele é a de que todas as pessoas do mundo de repente tornam-se tão imbecis, tão medíocres, perto de seu coração tão puro, suave e sábio. Mitchell oferece ao leitor o real e o sonho, o que se tem, e o que se deseja, o que isola e o que reparte...

Joseph Mitchell


Em tudo isso, ele se faz humano, a humanização é constante em
O Segredo de Joe Gould e não poderia deixar de ser. Um perfil que não é humano não é um perfil, mesmo que o personagem não tenha sequer uma ponta de humanidade, o retrato de uma vida humana deve ser humano, porque sempre há pontas e névoas de humanidade por trás de cada alma suspensa, basta deixar que ela sutilmente brote. O que sempre interessou para ele foi a descrição do que ia dentro das pessoas por isso seus artigos são verdadeiros perfis psicológicos. João Moreira Salles, em belo e completo posfácio de uma das edições de O Segredo de Joe Gould, diz que ele prefere o mergulho vertical as prazeres horizontais.
Joseph Mitchell era realmente um escritor especial, entre suas grandes características, lembradas pelo cineasta João Moreira Salles, estavam a lentidão com que escrevia, o seu peculiar senso de humor, sua tristeza inata, sua grande cortesia, o enigma literário que cerca os últimos trinta anos de sua vida. Acima de tudo, ele era um homem que escutava, suas obras sempre são resultados de escutas atentas e constantes em um processo onde o que pode parecer banal, aos olhos dele, transforma-se em algo extraordinário. Nas entrevistas, ele era apenas um curioso que gostava de sentir o cheiro e provar o sabor do espontâneo. Mitchell dizia: “Acredito que, do ponto de vista da conversa, as pessoas mais interessantes são homens reunidos num bar, jogando conversa fora para combater a solidão”. Na cidade grande, ao contrário do que muitos buscavam, Mitchell tentava encontrar a permanência, as coisas que sobreviviam à crueldade do passar do tempo e assim as preservava. Pode-se dizer, portanto, que a memória é o elemento essencial de sua obra, ele escrevia para que as coisas não morressem, não fossem esquecidas, já que, como dizem os gregos, é no esquecimento que a morte cumpre plenamente a sua promessa.
O jornalismo literário não seria o mesmo sem as letras de Joseph Mitchell, sem a sua dedicação em aguçar a consciência do mundo, um grande escritor, com um grande personagem, antes de qualquer outra palavra a mais ou a menos, um escritor da alma...


E em nossa Noite de Poesia da Natureza ele implorou para declamar uns versos de seu poema 'A gaivota'. Dei-lhe permissão, e ele saltou da cadeira e começou a sacudir os braços, a pular e a gritar: 'Scriiic! Scriiic! Scriiic! Foi desconcertante. Somos poetas sérios e não aprovamos esse tipo de comportamento”. No verão de 1942, Gould protestou diante da exposição do Raven, pendurada na cerca de uma quadra de tênis da Washingto Square Sul. Numa das mãos segurava seu portfólio e na outra um cartaz em que escrevera: “JOSEPH FERDINAND GOULD, EXÍMIO POETA DE POETVILLE, REFUGIADO DOS RAVENS. POETAS DO MUNDO, INFLAMEM-SE! VOCÊS NÃO TÊM NADA A PERDER, ALÉM DO MIOLO!” Ao pavonear-se de um lado para o outro, de quando em quando dava um salto e perguntava aos transeuntes: “Quer saber o que Joe Gould pensa do mundo e de tudo que existe nele? Scriiic! Scriiic! Scriiic!” (MITCHELL, 2003, p. 32).

Joe Gould


"Encontrei uma palavra que resume meu modo de ser […]: 'ambissinistro', canhoto das duas mãos".

"Sofro de delírio de grandeza. Acho que sou Joe Gould".

Joe Gould sobre si mesmo

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

"O segredo dos teus olhos"


Eça de Queirós


E que falem as sutis e emocionadas descrições, o olhar lançado sobre a alma, a alma lançada sob os olhares atentos de quem deita o pensamento sob algumas páginas minuciosamente escritas. E que falem as discussões políticas, as ambições civilizatórias, os sonhos sublimes, a filosofia purificadora, a busca por menos oratória e mais ideia, a vontade de ser livre voando nas asas do conhecimento. E que falem os versos da natureza, a boca do sagrado, os lírios dos passos, a imagem da perfeição gratuita e delicadamente graciosa. E que fale o amor intenso, inexplicável, a dor urgente, o horror irreparável, o êxtase dos corações verdadeiramente apaixonados. E que fale o destino, sua maliciosa rede a beijar os corpos que nela irremediavelmente se enroscam. E que por fim a prosa se faça muda, a poesia absurda, o olhar esplêndido...

Eça de Queirós, escritor português, autor de romances como O crime do Padre Amaro, A Relíquia, O Primo Basílio, dentre outros, em um de seus mais conhecidos romances, Os Maias (1888), constrói uma obra diante da qual todas as outras palavras ficam estupidamente pequenas, tal a grandiosidade e lapidação esmerada de cada frase que ele tatua sobre o papel. Mestre e símbolo do realismo português, o escritor leva tal literatura realista às últimas e extraordinárias consequências quando faz o leitor divagar e desmaiar docemente diante de cenas inspiradas na realidade, tradutoras esmeradas da realidade, mas que a transcendem à medida que se fazem emprestadas do divino, do ideal, do destino. Se o realismo pretende descrever a realidade tal como ela é, fazendo-o de maneira sistemática e absorvente, Eça de Queirós não só descreve essa realidade, mas também vai além dela, inspirando-a com a sua forma de olhar e com a sua forma de contar. As descrições, como não poderiam deixar de sê-lo quando se fala em um escritor realista, são constantes no romance, perpassando-o da primeira à última página e desenhadas, quase esculpidas com um mármore muito fino, bastante delicado e majestosamente límpido. A linguagem por ele utilizada se faz absolutamente diáfana, lírica, intensa, marcando um estilo meticuloso e denso, em que a prosa bebe da poesia e a poesia ilumina a prosa. É literariamente lindo!

Complemento o estilo denso, descritivo e a linguagem eternamente a desabrochar, o enredo e os fatos que compõem a narrativa de Os Maias são por si só um atrativo incrível. A história gira em torno de uma tradicional e rica família portuguesa, cujos personagens principais são o avô, Afonso da Maia, rígido quanto aos princípios, de uma ternura quase pueril e, como é no livro às vezes descrito, semelhante a um mármore branco e fino. O filho de Afonso, Pedro da Maia, homem ardente e apaixonado, cheio de impulsos generosos que se mata depois de ser abandonado pela esposa, Maria. Do casamento de Pedro com Maria nascem dois filhos, Carlos e Maria Eduarda, separados ainda nos primeiros anos da infância quando Maria, ao fugir, leva consigo a filha ainda pequena. Dada como morta, Maria Eduarda é, com o passar dos anos, esquecida, até que o destino a coloca, doce e suavemente, cravada no olhar e no seio do coração apaixonado e sonhador de Carlos. Os dois se apaixonam e se entregam a uma paixão incontrolável, indomável, maior que a própria alma, destas que não acontecem duas vezes na vida de uma mesma pessoa. Como diz Eça de Queirós, Afonso da Maia se vê assim diante de “um implacável destino que, depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho, o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto”. Como já dizia Tolstói em Anna Karienina , “As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Esta, que é uma das aberturas literárias mais famosas da literatura russa, se aplica perfeitamente à história da família Maia. Estes são felizes e nisto se parecem com tantas outras famílias ricas e tradicionais, mas são surpreendidos pela malícia reta e grave do destino, por seu incontornável sortilégio, por aquilo diante do que os homens tornam-se de repente pálidos e mudos. Horrorizados, violentados, roubados de si mesmos, suspensos em relação à própria alma. Nos sofrimentos, a família Maia tem também a sua beleza, a sua essência, a sua arte, assim como tantas outras famílias que sofrem cada uma à sua maneira, respondendo ao seu destino. De todo, as desgraças não descem em todos os lugares, quem saberá as regras e normas do destino? Talvez elas escolham os mais fortes, os mais essencialmente originais ou talvez sejam apenas capricho aleatório, ou castigo planejado, talvez...

Na literatura são muitos os “talvez”, mas na boa literatura são muitas as certezas que produzem glórias. Em Os Maias , o que seria uma simples e novelística historieta de amor entre um homem e uma mulher que, mordidos pelo destino, se descobrem irmãos e em razão da evidência incestuosa se separam feridos e desintegrados de corpo e de alma, vai muito além disso, já que a belíssima e trágica história de amor entre Carlos e Maria Eduarda é entremeada por elevadíssimas discussões políticas, filosóficas, econômicas, sociais e artísticas. Eça de Queirós faz uma análise em seu romance da decadente burguesia portuguesa, a expõe no que esta tem de mais mesquinho e medíocre e, ao mesmo tempo, levanta discussões sobre a arte, valoriza a poesia, a beleza, as ideias, as lutas maiores e justificadas por uma sociedade menos superficial e vazia e mais poetizada, bela, inteligente e, se ainda não for muito, regada por uma fina réstia de ternura e generoso amor. Eça de Queirós moldura um belo quadro no qual se vislumbra perfeitamente um amor sincero, indomável, enlouquecedor e, essencialmente, fraternal, com a secura que habita o seio da sociedade e com o clamor urgente e inadiável por “civilização”, resvalando naquele que seria o sentido da existência humana.


Carlos e Maria Eduarda, interpretados por Ana Paula Arózio e Fábio Assunção na minissérie Os Maias, da Rede Globo


Pérola do realismo, uma das chaves-interpretativas para esse romance pode ser a social e também a psicológica, mas as possibilidades de entendê-lo são infinitas, embora os elementos principais de Os Maias sejam a personalidade humana - seus amores, dores, frustrações, angústias e sua incrível limitação diante do destino – e o complexo tecido social no qual ela encontra-se encravada.
Unindo linguagem impecável, narrativa inteligente e original, estilo denso, personagens sólidos e bem construídos, Eça de Queiróz ata em Os Maias as duas pontas do ser humano e do meio no qual ele vive, aquilo que há de mais belo e sublime e aquilo que há de mais indisfarçavelmente horrendo e rastejante. Uma obra rara, um presente gratuito entregue aos olhos, instantes de loucura, de devaneio, de saudade...

De uma coisa não resta dúvida, se Eça de Queirós diz ter decidido não fazer um romance, mas fazer um romance em que pusesse tudo o que tem, a nós, anestesiados por suas letras, não resta outra escolha senão colocarmos tudo o que temos na leitura deste livro, o que de fato fazemos, mesmo sem o perceber, inconscientemente. Quando nos damos conta já estamos todos dentro do livro, habitando as janelas tristes e tímidas do Ramalhete, chorando melancolicamente lágrimas soltas e nostálgicas ao lado de Carlos e Maria Eduarda, ouvindo as poesias declamadas nos saraus literários nas quais se sonha e se constrói em versos uma democracia branca, regada por paz e arte. Em outras palavras, não há como entender um realismo tão abismático se não nos rendermos ao interior do livro, colocando tudo que temos em suas entrelinhas disfarçadas, tudo aquilo que temos de mais enfadonho e covarde e também tudo aquilo que ainda temos de mais apaixonadamente sincero e belo!


À porta do bufete voltou-se ainda, ergueu o chapéu. Ela, de pé, moveu de leve o braço num lento adeus. E foi assim que ele, pela derradeira vez na vida, viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, à portinhola daquele vagão que para sempre a levava.

Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e descompondo até reentrar e se perder no infinito Universo... Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades.

- É curioso! Só vivi dois anos nesta casa, e é nela que me parece estar metida a minha vida inteira!
Ega não se admirava. Só ali, no Ramalhete, ele vivera realmente daquilo que dá sabor e relevo à vida: a paixão.

(trechos extraídos do romance Os Maias, de Eça de Queirós)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O soluçar do silêncio - Um homem extraordinário e outras histórias, de Tchekhov

Da arte de extrair do cotidiano as coisas simples e construir belíssimas obras de arte, da maestria ao usar as palavras, da habilidade em construir descrições atentas e cuidadosas, do encantamento e carinho ao esculpir cada frase, na sensibilidade em relação à vida humana, na sagacidade, perspicácia e talento literário em enxergar o outro, em curar ou revelar as dores da alma, em fazer da investigação psicológica densa e, ao mesmo tempo, singela a história mais perturbadora dentre todas as suas histórias. Da criatividade que surpreende, do enredo que prende a atenção, faz rir, angustia, revira a memória, cutuca a própria alma, dá forma ao inconsciente, cor ao medo, cheiro ao mistério, beleza à vida humana que em sua obra desfila tão docemente.
Da arte de escrever histórias curtas, que carregam toda sutileza necessária a um conto, de construir personagens reais, produtos de uma mistura tão bem dosada de sentimentos, contradições, medos, ilusões, recordações e sonhos, às vezes, confusos, desiguais e prolongados. Da simplicidade e sensibilidade estética e ética de ser Anton Tchekhov, um presente literário, um provocador de lágrimas, um pequeno milagre destes que, de vez em quando, aparecem por este mundo para algo de realmente lindo nos legar.
Já citado aqui no Impressões, no post “O cochicho do nada” que falava sobre o livro de contos de Tchekhov, “O Beijo e outras histórias”, o Impressões volta, mais uma vez, a falar deste escritor russo que soube, como poucos, iluminar a vida por meio da sua palavra. Em mais uma reunião de contos de Tchekhov, o livro “Um homem extraordinário e outras histórias” reúne contos exemplares do estilo do autor, histórias atmosféricas, cheias de um sentimento de sabedoria e compaixão, além de uma infinita generosidade para com o homem e sua alma multifacetada, taciturna, entrecortada por dramas, vazia de sentido, saciada por ilusões, desejosa de completude, urgente e angustiosamente fascinante.



Conservando a sua linguagem esculpida, poética, simples e, ao mesmo tempo, minuciosa, Tchekhov se revela, mais uma vez, nesta reunião de algumas de suas melhores histórias, um escritor que se afunda na caracterização psicológica de seus personagens e reproduz com isso tipos reais e comuns ao nosso cotidiano, que às vezes passam despercebidos ou andam por aí disfarçados, impostores deles mesmos, acima de tudo, o escritor reproduz a nós mesmos e talvez seja por isso que fascina tanto. Suas páginas, o preto sobre o branco, as entrelinhas mudas e alucinadas, são como espelhos esfumaçados de nossas feições imperfeitas, posto que humanas. Além da maestria na profunda investigação psicológica, Tchekhov abusa das descrições entremeadas por ações, do olhar atento sobre a natureza, sobre a beleza das coisas e do universo estático, tingido de um colorido tão bem enaltecido por ele e por aqueles que sabem de fato fazer arte. É uma combinação de psicologia e suave sensibilidade simplesmente linda! Tchekhov atingiu em sua obra a beleza literária e a beleza das coisas que tantos homens buscam pela vida sem nunca conseguirem encontrá-la ou enxergá-la de fato, sem, muitas vezes, nunca serem dignos dela e, por ser tão belo, por ser transpassado pela beleza, é talvez um enigma, um escritor além das críticas e análises literárias, um escritor que apenas se sente, se impregna, se liberta, um mistério insinuante e solitário, regado por uma réstia de tristeza, iluminado por um sopro de lucidez, sentido e alegria.

Avançando pelas páginas deste livro, encontramos contos como “O homem no estojo”, simplesmente genial, que nos revela de forma sonora e surpreendente, por meio de uma metáfora inteligente e sutil, a vida de um homem que se isolava do próprio mundo, das suas sensações, tomado por medo, invadido por um natural sentimento de solidão, um homem cujo sonho maior sempre fora esconder-se dentro de um estojo, protegido do frio, dos olhares, das vozes, do amor, por toda a eternidade. A construção desse personagem, em toda sua loucura e casmurrice, é plena, perfeita, um momento literário que paira acima da simples e efêmera finitude das coisas, uma obra de raro encanto, sublime e, ao mesmo tempo, tão próxima do cotidiano.

Em “Um homem extraordinário”, o escritor russo aposta novamente na construção esmerada e investigação psicológica de um personagem realmente extraordinário, extraordinário em sua frieza diante da vida, em seu caráter planificado, em seu pensamento burocraticamente e economicamente organizado, um homem que, nas palavras do próprio Tchekhov, torna o próprio ar pesado e faz ruir as paredes tal o medo e a sensação de ódio e desconforto que nos outros provoca. Este conto é particularmente sutil e fascinante, não só pela construção do personagem, mas também pelos detalhes da narrativa que, sabiamente colocados na hora e lugares corretos, fazem com que o leitor esboce um leve sorriso e tenha nos olhos uma expressão de surpresa e espanto, causados por tamanha maestria e talento narrativo.

No conto “Um dia no campo – Ceninha”, Tchekhov emociona pela simplicidade da história, pela bondade e generosidade de alguns personagens que aparecem neste e em outros contos deste livro e, faz os olhos ficarem de repente marejados de lágrimas ao se depararem com a simplicidade e gratuidade dos amores que não são vistos, daqueles que vivem em silêncio, dos quais apenas a lua é testemunha.



Em outra história retirada do cotidiano, “O relado do jardineiro-chefe”, Tchekhov utiliza da memória e do relato de um homem considerado sábio e quieto, para contar uma bela história da qual o personagem principal é um homem generoso, também sábio, que curava as dores do corpo e da alma, sem por isso cobrar nada em troca. Um homem que vivia ensimesmado em leituras, afundado em reflexões e contemplações, considerando o resto de tudo vulgaridades e tolices fabricadas. Neste relato do jardineiro, a mensagem principal é a de que se deve sempre acreditar na dignidade dos homens, conservar uma fé na espécie humana ainda que esta mostre, repetidas vezes que, a exemplo do que um dia disse Shakespeare, “no nosso século perverso e devasso, até a virtude tem de pedir perdão ao vício”.

E assim segue Tchekhov, em “Trapaceiros à força – Historinha de Ano-Novo”, neste conto, o escritor lança mão de toda sua ironia e constante perspicácia para construir uma história divertida e, ao mesmo tempo, de intensa capacidade reflexiva. Nela, motivado cada um por seus interesses, vícios, angústias, vontades e vaidades, os personagens decidem enganar o próprio tempo mexendo nos ponteiros do relógio e, com isso, ora adiantam a chegada do ano-novo, ora recuperam mais um tempo para o ano-velho em um jogo de enganar o tempo no qual eles acabam enganando a si mesmos. Nas entrelinhas, diz Tchekhov da irreversibilidade do passar do tempo, se uns os adiantam, outros o atrasam e ele volta ao correr habitual, os vício e vaidades que esperem...

Outro belíssimo conto dessa coletânea leva o nome de “Criançada”. Nesta história, o escritor reúne toda graça, naturalidade e espontaneidade das crianças aos sentimentos que aos poucos estas vão adquirindo com o passar do tempo e as diversas influências recebidas, que na história vêm à tona durante um jogo no qual se apostam alguns copeques. O genial deste conto é a maneira como o escritor mostra que para as crianças as brigas, ambições, sentimentos de amor-próprio e outras coisinhas mais, logo desaparecem e tudo volta a ficar bem de novo. Nada mais ilustrativo para falar da verdadeira essência da infância, permeada pela inexistência daquele sentimento de mágoa, ódio, inveja, frustração e tédio conservados e regados por muitos adultos ao longo da vida. Talvez por isso a infância seja linda de ser ver, como linda se faz neste conto de Tchekhov.

E as histórias seguem com situações incríveis como a de um peixe enamorado por uma moça que todos os fins de tarde ia se banhar na lagoa em que ele morava, a de um homem solitário que a anos vivia em uma estação de trem apenas com a sua esposa que ele há muito já não amava, descrente de que em sua vida algo de novo ou qualquer desgraça ainda pudesse lhe acontecer posto que para ele tudo de mal já lhe havia acontecido, até que o destino lança mão de suas teias ardilosas e enfeitiçadas e o surpreende com um novo amor e uma nova morada. Há também fragmentos da velhice, recortados por lembranças, por arrependimentos, por lágrimas escondidas porque envergonhadas, por visitas não tão sinceras, por abandonos múltiplos e miseráveis. Há atitudes confusas diante da desgraça alheia, um sentimento de pena que, como todo sentimento de pena, é mesquinho e preguiçoso, tão inútil quanto acovardado.
E, terminando o livro, nos preenche os olhos uma história belíssima tanto pelo enredo como pela delicadeza e esmero na escolha de cada palavra, na descrição de cada sentimento, na cor de cada lembrança, na confusão de cada momento. Tudo isso nos chega por meio de um olhar inumano, de uma inteligente e pensativa cachorrinha, “Cachtánca”, que dá nome ao conto. Por meio deste olhar inumano, aparentemente distante, Tchekhov revela todo fascínio e mesquinhez da alma humana. Traduz como ninguém a falta, o sentimento de angústia, de perda, de saudade, que chega sorrateiro, devagar e, de repente, preenche e perturba a cachorrinha. Também mostra o sentimento de indiferença em relação à vida, de conformismo, uma atitude indolente e desdenhosa em relação a tudo, um enfado permanente, um bufar eterno que na história se revela na figura de um gato, mas que na vida se reflete em muitas pessoas. Com sutileza e maestria, neste conto Tchekhov também pincela a visita da morte, a inquietação e o medo que essa figura sem cor e formas causa em animais ou homens, para depois deixar apenas um rastro de falta e mistério.
De todo o mais que possa ser dito, as palavras não serão tão belas e precisas quanto as dele, é preciso ler e ler-se a si mesmo...

“Tchekhov é um daqueles autores cuja inteligência é tão poderosa que por um momento somos seduzidos pelo prazer de acreditar no progresso humano, na evolução moral da espécie; então, em seguida, vemos que na verdade ele nada mais é que um gigante, uma anomalia, talvez um anjo, e que é bem possível que não tenhamos outro igual nos próximos mil anos”.
Russell Banks

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Retrato de uma Alma

"Não podia acreditar nessa mudança; entretanto, era um fato. Haveria, acaso, alguma afinidade sutil entre os átomos químicos, que se aglutinavam em forma de cor na tela, e a alma que ele levava dentro de si? Seria possível que eles concretizassem o que a alma imaginava, que lhe convertesse os sonhos em realidade? Ou haveria outra razão mais terrível? Dorian estremeceu transido de pavor e voltou ao divã. Dali espreitava o retrato, com uma expressão horrorizada". (O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde)

Um homem de rara e sedutora beleza, de nome Dorian Gray, portador de um caráter ingênuo, de uma alma pura e sonhadora. Um pintor, Basil Hallward, em busca de um ideal estético, da harmonia e perfeição de formas, da combinação perfeita entre arte e expressão, vida e representação, de algo perfeito e irresistivelmente belo, capaz de ser alimento e inspiração da sua arte. Um aristocrático, Lorde Henry, cheio de teorias, conceitos prontos, munidos de certa dose de preconceito e hipocrisia, formulados para explicar a vida por meio de visões simplistas, maniqueístas, dicotômicas, olhares superficiais lançados sobre a teia tão complexa da existência humana, não raro dupla, múltipla ou, muitas vezes, nula. De todas as ideias de Lorde Henry, o ponto principal seria tirar da vida o máximo de prazer e vivenciar as mais diferentes e improváveis experiências, não importando de que natureza fossem estas últimas. Ter como principal teoria nada mais do que a própria vida e fazer dela uma busca frenética por prazer na direção de um novo hedonismo baseado, acima de tudo, no prazer e culto aos sentidos. Como finalidade suprema de sua pregação, musical e melancólica, estava a espiritualização dos sentidos. “Curar a alma por meio dos sentidos, e os sentidos por meio da alma”, com esta frase e alguns livros, Lorde Henry seduzira e envenenara em doses lentas e incendiárias Dorian Gray, extinguindo aos poucos a beleza de sua juventude, a bondade primitiva de seu coração, a ponto de que este último chegasse a considerar o pecado como um simples meio de realizar o conceito de belo.
É, basicamente, em torno desses três personagens que o escritor inglês Oscar Wilde constrói com sensibilidade, perspicácia e uma linguagem extremamente lapidada, o enredo de uma de suas mais famosas obras, O Retrato de Dorian Gray.
Ao deitar os olhos sobre as primeiras linhas do livro e, aos poucos, ir avançando pelas suas páginas, o que primeiro salta aos olhos é o estilo do autor, um estilo que se faz simples e, ao mesmo tempo, denso, reflexivo, a tal ponto que se chega a demorar um tempo em apenas uma página, na ânsia de apreender a riqueza de detalhes que ela apresenta de maneira sutil e inteligente em descrições constantes, entremeadas por ações, diáfanas e belas. Complementando o estilo denso e reflexivo de Oscar Wilde, a linguagem do livro mostra-se portadora de uma aguçada e sensível veia poética, de uma escolha minuciosa das palavras e expressões, de um cuidado e esmero na construção das frases. A linguagem é fascinante, tão perfeita em provocar o efeito que o autor busca que, em certas linhas, chega a angustiar o leitor.
Em alguns momentos, era como se quisesse penetrar nas entrelinhas deste livro e pousar meu corpo sobre as letras escritas em uma tentativa de que elas passassem das páginas brancas escritas para minha pele sedenta por letras e vazia.
Estilo e linguagem dão forma a uma obra que une as duas pontas da arte e da beleza. O Retrato de Dorian Gray mostra que a arte, como diz o próprio Oscar Wilde, muitas vezes é absolutamente inútil, mas, neste caso, a inutilidade de uma obra de arte se legitima pela intensidade e constante admiração que dela se faz. A arte aparece como, ao contrário do que se pensa, nem sempre um meio de revelar os sentimentos de quem a produz, mas também um meio de escondê-los ao mesmo tempo em que a paixão com que escrevemos um texto ou pintamos um quadro resvala, inevitavelmente, na obra produzida e pode fazer desta uma obra-prima, o mais terrível dos sortilégios, o repugnante ou maravilhoso espelho de uma alma.
Na esteira das discussões sobre a arte, Oscar Wilde traz em O Retrato de Dorian Gray, diversas reflexões sobre a vida, o amor, as mulheres, as relações amorosas, o prazer, a busca e o conhecimento dos sentidos, a existência da alma e a lógica ilógica da beleza. Uma beleza que, se para Dostoiévski é capaz de salvar o mundo e deitá-lo aos seus pés, revela-se em outro ângulo para Oscar Wilde. Este último traz em sua obra o outro lado da beleza, aquele que retoma a tragédia grega de Narciso, apaixonado e enlouquecido pela própria imagem refletida sobre a água. Na obra, por meio dos dramas e fraquezas de Dorian Gray, o personagem principal, a beleza se mostra ardilosa, repugnante e traiçoeira quando resvala na soberba, quando cega os sentidos, quando desafia a própria alma. Dorian tem um belo retrato pintado por Basil e, no momento em que o vê pela primeira vez, fascinado pela própria beleza e pureza da juventude pede, em um acesso de ilusão e prepotência, que para sempre sua aparência se conserve jovem, sem as marcas trazidas pelo tempo, pela idade e pelos vícios e vulgaridades que alguns homens acumulam ao longo da vida.


Em um sábio e inteligente jogo onde quem dá as cartas é o destino e a arte literária, Oscar Wilde constrói um enredo no qual, Dorian de fato tem seu pedido atendido, sua aparência segue jovem, sem os vincos do tempo, intacta, com o mesmo ar puro e ingênuo da mocidade, mas, à medida que ele entrega sua vida aos prazeres mais vulgares, às ações mais vis e cruéis, à destruição da alma de outros, ele vê, ao poucos, a sua imagem pintada por Basil de forma perfeita e magistral, adquirir um aspecto cada vez mais assustado, terrível, repugnante. É como se ao olhar o quadro fosse possível ler a alma de Dorian, ver como os vícios, mais do que a idade, haviam destruído sua beleza, tornado-a apagada, quase que imperceptível.
Nesse lance que revela uma grande sensibilidade e um indiscutível talento literário, Oscar Wilde mostra que a beleza é tremendamente efêmera e não se sustenta quando junto com ela não existem a coragem para ser bom, o talento para ser humano, a sensibilidade para guardar eternamente boas recordações. Em poucas palavras, ele revela que a beleza de fato deve ser contemplada, o mundo deve buscar o belo, mas este, por ser fascinante e enigmático, precisa, acima de tudo, saber existir para conservar-se original nas paredes da essência sutil de cada um, aquela que chamamos de alma. As duas faces da beleza são, de fato, a de Dostoiévski e de Oscar Wilde, em um movimento ela salva o mundo, em outro, também pode destruir uma alma.
Ao revelar os abismos da beleza, o escritor inglês também consegue na sua história revelar ao mundo a existência da alma. Na sua história, ele materializa o conceito de alma na forma de uma obra de arte. Esta deixa de habitar o campo do abstrato humano e passa a habitar, de forma material, o que de mais abstrato um ser humano pode produzir – a arte, conferindo a ela um caráter de vida própria, a arte que vive na alma, ou a alma que vive na arte.
Uma das chaves interpretativas do livro pode ser a psicológica, Dorian Gray sucumbe aos seus dramas, tenta escapar de seus medos, é envenenado por um livro e seduzido pelas teorias de Lorde Henry no mesmo movimento em que seduzia o mundo com sua beleza, entrega-se às drogas e aos prazeres mais mundanos, escapa da morte salvo pela máscara da mocidade, mas não escapa dela quando tenta extinguir a própria alma. Ao longo de toda a história, seus dramas são o drama do leitor, as descrições belíssimas do romance dividem-se com um mergulho profundo na escuridão da alma humana e na estética da arte.
Para citar Oscar Wilde, este diz dos livros que não existe livro moral nem imoral, eles são bem ou mal escritos. Sem dúvida alguma, O Retrato de Dorian Gray paira acima da moral e aparece como uma preciosidade ou pérola literária, muito bem escrita, exalando o cheiro de pétalas de rosas que perpassa e transcende toda a narrativa.


"Um grito de terror e indignação irrompeu-lhe dos lábios. Não se operara mudança visível, salvo nos olhos, onde Luzia uma expressão nova de astúcia, e na boca vincada, um trejeito hipócrita. A imagem odiosa tornara-se, se ainda era possível, mais repulsiva. O orvalho rubro continuava a porejar, mais vivo, como sangue recém-vertido... [...] E ele estaria livre, livre dessa tela monstruosa dotada de alma, livre de suas admoestações hediondas. Viveria finalmente em paz. Empunhou, pois, a faca e trespassou o retrato. Ecoou um grito, seguido de estrépito. O grito pavoroso, na sua agonia, fora tão lancinante, que a criadagem acordou e acudiu alarmada. [...] Ao entrarem na sala, viram na parede o magnífico retrato do amo, como eles o tinham conhecido, em pleno apogeu da sua esplêndida mocidade e beleza. No chão, jazia o cadáver de um homem em traje de rigor, com uma faca cravada no peito. Ele estava lívido, enrugado e repugnante. Só pelos anéis é que seus criados conseguiram identificá-lo". (O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Evangelho segundo Saramago

Adaptação teatral de O Evangelho segundo Jesus Cristo, em São Paulo, 2001

Jesus caminha pelo deserto na companhia de alguns pensamentos, outros ou os mesmos sonhos, lembranças e frustrações. Caminha entre o silêncio estático do universo, entre a força potencial da natureza, diante da infalibilidade de um destino a se cumprir.
Aos poucos vai protagonizando as cenas da história de um homem que foi dito “filho de deus” e messias, portador da boa nova, dos novos tempos, da era de paz e prosperidade, um reino que estaria aberto para os que de seus pecados se arrependessem e de deus esperassem o perdão purificador e renovador. Eis a história contada a mais de dois milênios, perfeitamente construída em seus detalhes, discursos, mensagens, pressupostos e subentendidos. A história de um homem capaz de curar os males, fazer sarar as feridas de dentro e de fora, fazer andar aquele que já não se movimenta, fazer ver aquele que já não enxerga, fazer brotarem peixes do fundo do mar e parar tempestades vindas do céu. Eis o homem que nasce e morre crucificado, para a redenção dos demais, para a glória de seu pai e para o “bem de toda humanidade”.

Os traços expostos nestas linhas tecem os fios de uma história já contada muitas vezes, por milhares de vozes, em milhares de anos, a história sobre a qual se funda o poder da igreja católica e do deus, protetor e acolhedor dos homens tão cheios de pecados. A história do “filho de deus” já é demasiado conhecida, no entanto, o que se sabe é a versão oficial, o que se conta, o que se continua e o que encontra eco em cada lugarejo deste mundo onde exista um homem em pé, falando ao demais, estes sentados ou ajoelhados, quase sempre de cabeça baixa e atenção tão estática quanto fugidia. O que se conhece e se repete é a versão dos vitoriosos, como acontece com grande parte da história da humanidade. Até que, um homem metido a brincar e embelezar as palavras, decide por meio de uma prosa tão bela quanto inteligente e poética, recontar a história que a milhares de anos nos é repetida de forma frenética e, ao mesmo tempo, ensurdecedora. Decide recontar essa história deixando pra trás a grandiosidade do simbólico, a abstração do miraculoso, a lógica do imagético, recorrendo apenas à simplicidade e essência das histórias que são essencialmente humanas, por acontecerem na terra e envolverem homens comuns, iguais a qualquer outro, com as mesmas aflições, os mesmos medos, os mesmos desejos, os mesmos sonhos, as mesmas incoerências.


José Saramago

José Saramago, escritor português, único escritor de Língua Portuguesa a conquistar um Prêmio Nobel em Literatura, autor de tantas belíssimas obras como Ensaio sobre a Cegueira, Memorial do Convento, A Caverna, A Viagem do Elefante, dentre outras, é o homem que se propõe a recontar a história do filho de deus, e o faz com tal maestria, apuro e trabalho de linguagem que torna possível que uma história tantas vezes já contada se torne tão surpreendente como se fosse a primeira vez que a escutássemos.
Em O Evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago conta aos homens a vida de outro homem e fala de história, vida, perdas, lembranças, destino e morte. Localiza a história no tempo e no espaço, descreve lindamente e de forma emocionada e sonora os lugares, a imensidão do deserto, a pequenez de uma casa, constrói as personagens de forma real e humanizada, ou seja, bem diferente da imagem revestida de santidade e simbologia que sempre se conheceu.

O Evangelho segundo Jesus Cristo se faz original desde as primeiras linhas. Maria é uma mulher comum, trabalhadora, corajosa, que ama e sucumbe a paixões como qualquer outra mulher. Dessa forma, ela não é mais aquela mulher virgem que engravida do espírito santo. Jesus e seus outros filhos são todos frutos de relações sexuais, tão ou mais lindas e puras do que a presença do espírito santo. Saramago vai desconstruindo em sua obra, um a um, todos os dogmas, preconceitos, moralismos e contradições sobre os quais se assenta a religião católica e a própria história de Jesus. Ele mostra um Jesus atormentado por pesadelos, inebriado por sonhos, cheio de dúvidas, desejos latentes da carne e do espírito. Um homem inteligente e perspicaz que, nunca se cega totalmente em relação ao poder que por deus lhe foi atribuído.




E assim, Saramago constrói o enredo de uma história que se escreve por meio de uma linguagem poética, esteticamente rica e bela, carregada de analogias, figuras de linguagem, metáforas, ironias e personificações, em meio a uma prosa densa, porém sonora, um estilo difícil porém completo, que se faz inteligente e audacioso em cada linha, que se surpreende e se interroga, ao mesmo tempo em que surpreende e interroga os olhos de quem pelas suas linhas passeia, por horas marejados e anestesiados.
Ao mesmo tempo, Saramago explora períodos de descrição que se fazem mais do que belos. Sua capacidade descritiva, imaginativa e associativa é tão grande, clara e exata que é como se nos sentíssemos caminhando pelo deserto ao lado de Jesus, como se sentíssemos a euforia de um milagre realizado, como se compartilhássemos nós também do pão e do vinho multiplicado, como se nossos punhos e pés também fossem perfurados e nosso ar fosse aos poucos faltando enquanto nosso espírito junto ao dele vai aos poucos se asfixiando, mas no nosso caso, asfixiando-se pela linguagem realmente literária e pela história tão bem dita quanto reinterpretada.

Difícil definir uma chave interpretativa para o livro de Saramago, acima de tudo, ele pode ser entendido por meio de uma chave interpretativa sociológica, histórica ou até religiosa e moral. No entanto, é fácil perceber como o autor desconstrói uma história que se consolidou ao longo do tempo não simplesmente pelo prazer de desconstruir e sim pelo desafio de construir uma verdadeira história, mais coerente, mais impregnada de humanidade, realidade e, por tudo isso, mais bela.
A narrativa começa descrevendo a cena da morte de Jesus, o final derradeiro para o qual já sabemos que ele caminha desde as primeiras páginas. O fato é que mesmo sabendo do fim, o meio deste evangelho se faz atraente porque recontado diante de uma nova perspectiva, um meio que além de novo, se sustenta e prende o leitor até as últimas linhas em razão da qualidade, refinamento estético, apuro e cuidado no relato.


Majoritariamente, a narrativa vai se tecendo linear, os diálogos (como já é típico de Saramago) seguem soltos em meio às entrelinhas do relato, dizem algumas palavras que das entrelinhas se sobresaem e escondem tantas outras dentro delas.
Como qualquer romance que se faça realmente bom, o percurso narrativo de O Evangelho segundo Jesus Cristo, tem seus ápices e seus momentos de devaneio e reflexão. Um dos ápices da narrativa, diz respeito ao sensacional diálogo que se estabelece entre deus, o diabo e Jesus. Tal diálogo é extremamente original a começar pelo lugar em que acontece. As paredes que o protegem são formadas por uma neblina que envolve os protagonistas em uma áurea mística e assombrada. O chão, na verdade, está a metros de distância dos seus pés, eles conversam sobre o mar, tão distantes da terra quanto do céu. Para não ficar apenas no lugar, o tempo do diálogo é bastante ilustrativo e pertinente. Deus, o diabo e Jesus conversam durante quarenta dias envolvidos pela neblina da qual já falamos, tão espessa que apenas em poucos pontos se faz transparente, que só se desfaz da superfície do mar quando o diálogo por fim termina e os seus protagonistas de dissolvem no mistério que envolve todos nós.

O fato é que neste diálogo, Saramago emprega toda sua maestria e habilidade literária para revelar um deus ambicioso, sedento por poder, glória e dominação, um deus que não mede esforços em provocar sofrimento, em derramar sangue e lágrimas, em despedaçar almas, tudo em nome de um poder que ele precisa ter para sua própria glória e redenção da humanidade. Além disso, esse deus se revela em toda sua frieza e ambição quando é tentado pelo próprio diabo, quando este, em uma tentativa de poupar a humanidade de todas as mortes e desgraças que virão, propõe negar sua própria existência, extinguir-se enquanto mal para que a humanidade viva em paz. O fato é que deus, neste momento, legitima o mal, afirma ser este necessário e vital para a sua existência e para a expansão de seu poder. Sem o diabo, deus não teria sentido, sem o mal o bem não existiria e, portanto, deus, aquele que prega pela paz, pelo bem, pela harmonia entre os homens, é o primeiro a legitimar a existência do mal, da fome, da guerra em um misto de soberba e contradição.

Esse é o deus que Saramago nos faz conhecer por meio de um novo evangelho, que não sabemos se certo ou errado, mas que, no mínimo, é mais coerente, humano e próximo das coisas da terra, dos seus desejos e das suas securas morais.
A principal lição que fica deste evangelho, além de um exemplo de como se construir literatura e de como trabalhar a linguagem da forma mais bela e emocionada possível, é a percepção e consciência de que algumas histórias se fabricam em seus pequenos detalhes e pormenores, de que alguns homens são construídos para serem heróis, mas não passam de homens como qualquer outro, de que um ser supremo que diz proteger e zelar por todos os demais, sempre acaba sendo seduzido pelo poder de seduzir a humanidade, sempre acaba abusando desse poder, sempre acaba sendo autoritário e, por vezes, mesquinho demais. Se existir um deus, com certeza, ele não é esse deus que a nós nos é apresentado sem que de sua imagem nunca sequer tenhamos nos aproximado e sim um deus muito particular, que é diferente e único para cada um de nós, para cada sofrimento, para cada sonho. Um deus que pode existir na beleza de um deserto, de um céu tingido pelas cores do escurecer, que poder falar pelo choro de uma criança, pelo riso de qualquer pessoa, ou pela lágrima sincera e emocionada que da banalidade destoa. Um deus que pode existir nas belas palavras contadas por Saramago, um deus que não controla ou dita regras, que longe de saber de tudo e ter a capacidade de perdoar, busca, acima de qualquer outra coisa, perdoar a si mesmo e reconhecer-se como essa espiritualidade, essa coisa que existe, paira no ar e não conseguimos explicar, essa coisa que às vezes é destino e às vezes é apenas vontade.

Por fim, o grande e último lance de Saramago neste livro é substituir a frase, talvez a mais dita e repetida no mundo, Pai, perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem, pela frase, Homens, perdoai-lhe, pois ele não sabe o que fez.
Diante da exatidão e do impacto dessa nova construção de Saramago, absurdamente inteligente e fantástica, fica claro de quem seria a culpa (se é que existem as culpas), demos agora a César o que é de César, peçamos aos homens que perdoem a deus e não mais a deus que perdoem aos homens, (leia-se romanos).


Nos momentos finais de o Evangelho segundo Jesus Cristo, Jesus vai morrendo e sonhando com os momentos em que conversava com seu pai – José, carpinteiro, homem, morto na cruz por engano – no vilarejo de Nazaré, e não com aquele que a humanidade diz ser seu verdadeiro pai – deus, divino, portador de todas as verdades e toda sabedoria, eternizado por um homem que também morreu na cruz por engano.
E eis que, nas palavras derradeiras, surge o diabo para recolher o sangue do filho de deus.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Bem vindos ao caminho do VIRTUAL!



O livro O que é o virtual? , de Pierre Lévy tem um caráter profundamente abstrato e filosófico. Não se pode dizer do livro sobre verdades absolutas, eles traz, acima de tudo, um conjunto de ideias e conhecimentos muito bem articulados que geram formas de saber múltiplas e, ao mesmo tempo, específicas. Toda essa produção de saber se dá por meio de uma linguagem extremamente rica e trabalhada, com metáforas bem pensadas, comparações oportunas e um encadeamento perfeito de introdução de uma ideia, desenvolvimento desta ideia, construção de uma base argumentativa e explicativa para sustentá-la e, por fim, uma conclusão que, como já dito, não é absoluta e sim abstrata, inacabada, complexa e nunca fechada, maniqueísta, simplista ou dicotômica.

A obra de Lévy se faz interessante e indispensável exatamente por trabalhar com um tema atual e onipresente, a virtualização, de uma maneira aberta, profunda e, principalmente, sem se valer de preconceitos ou ideias catastrofistas. O autor é responsável, isento e audacioso no seu relato que, algumas vezes, se faz até um tanto quanto hermético, de difícil compreensão em razão da densidade dos conceitos e ideias que são trabalhados, no entanto, percebe-se do autor um esforço para didatizar seu relato por meio de exemplificações constantes, analogias e até quadros que organizam e equilibram os conceitos e definições apresentados.

O ponto mais interessante desta obra é a maneira de olhar do autor . Ele vê a virtualização com olhos que bebem da filosofia e das ciências humanas, por isso, produz uma obra com características humanísticas, de caráter social. Lévy não adota o método cartesiano, fechado, extremamente racional, ele abre possibilidades, incorpora o antigo ao novo, não descarta o primeiro em detrimento do aparecimento do segundo, pelo contrário, mostra como o segundo pode contribuir para o desenvolvimento em essência do primeiro, pela potencialização de todas as suas possibilidades.

No capítulo Três do livro, o autor trata da virtualização do texto. Este capítulo é particularmente interessante em razão da forma como o texto transportado para a tela é visto e apresentado ao leitor no que diz respeito às suas possibilidades de mutação, ampliação e transposição de limites. Lévy começa falando sobre a leitura como uma forma de atualização do texto, uma forma de agir na qual se começa a desligar o texto, rasgá-lo, amarrotá-lo, costurar suas partes, abrir um meio vivo no qual possa se desdobrar o sentido. Um texto recortado, distribuído e avaliado segundo critérios de uma subjetividade que produz a si mesma.
Ler equivale a construir-se para Lévy, um eterno recriar do mundo de significações que somos.

A filosofia a respeito da leitura se faz interessante e indispensável para que depois dela, o leitor mergulhe em questões como a do hipertexto informático.
A escrita com o início da hominização passa a ser uma espécie de virtualização da memória, virtualizante ela dessincroniza e deslocaliza, segundo Lévy. Neste ponto, ele fala de uma diferença importante e marcante do texto em papel e do texto na tela.


Para Lévy, a escrita sobre um suporte estático se sobrepõe sobre os saberes narrativos e rituais das sociedades orais, já o texto contemporâneo que corre em redes, é fluído e desterritorializado, reconstitui a copresença da mensagem e de seu contexto vivo que caracteriza a comunicação oral. Ou seja, o texto em redes, sob suporte móvel, incorpora a linguagem oral, enquanto que o texto sob suporte estático, em papel, se sobrepôs a ela no contexto do seu aparecimento, com essa ideia Lévy quer dizer que o texto contemporâneo incorpora as outras linguagens, não exclui nenhuma delas.

O texto na tela, além de incorporar a linguagem oral, surge então como uma pequena janela a partir da qual o leitor explora uma reserva potencial, não virtual.
O mais interessante e fascinante do hipertexto é que com ele toda leitura também se tornou um ato de escrita. Lévy lembra essa questão em seu livro, e ao fazê-lo mostra como o texto em redes oferece todas as possibilidades para que o leitor não seja mais um sujeito passivo diante das letras negras no fundo branco. Ele agora participa, interage, se movimenta para onde ele quiser e tiver interesse, o hipertexto é uma ferramenta do texto digital que permite dar ao leitor todas as possibilidades para que ele saia de sua passividade e passe a escrever o texto, justamente como autor, não se limitando apenas a lê-lo.


Com o uso do hipertexto e outras ferramentas, o texto claramente passa por um processo de desterritorialização. Os dispositivos hipertextuais nas redes digitais, formadas por fios de diversos universos subjetivos, desterritorializaram o texto.
O que se tem é um texto sem fronteiras nítidas, como diz Lévy com adjetivos precisos e muito bem ilustrativos, não há mais “um texto discernível, individualizável”, mas apenas, “texto”. É como se a página do texto fosse se apagando, ela se furtou e seus signos soltos vão juntar-se à torrente digital.

“Peço ao texto para me fazer pensar, a sua virtualidade alimenta minha inteligência em ato.”

Essa frase de Lévy deixa claro como o texto em redes Lévy diz claramente que a cultura do texto é levada a um imenso desenvolvimento no novo espaço de comunicação das redes digitais e não a um desaparecimento ou fim. A nós, ele nos lembra da importante tarefa de distinguir o texto digitalizado do texto em papel, tradicional, enfatizando que cada um tem suas particularidades, vantagens e desvantagens, o digital se diferencia claramente do impresso, mas o aparecimento de um não decreta o fim do outro, pelo contrário, resgata a essência deste outro, como afirma Lévy ao dizer que a virtualização contemporânea realiza o devir do texto, como se a escrita acabasse de ser inventada, como se a sua aventura tivesse acabado de começar.

Pensamento lúcido, responsável e atento às complexidades deste mundo nosso, Lévy nos ensina a ver que a virtualização sempre existiu, que nós nos constituímos nela, que ela não necessariamente é algo que exclui o resto, pelo contrário, o interessante em Lévy é que ele não trabalha com a ideia de exclusão, uma coisa não substitui a outra, elas se complementam e se resgatam em um eterno devir do texto, da palavra, do corpo, da mente, da vida...

Pontos de Lévy, em pontos do epílogo...

. Sofrimento ao se submeter à virtualização sem entendê-la, causa da loucura e da violência de nosso tempo
.. aponta a necessidade de humanizar a virtualização e ele de fato a humaniza em seu relato.
... para ser ator social deve-se usar e entender a virtualização de forma mais completa e profunda
.... desconstrução de alguns conceitos prontos e difundidos, como a idéia de que a virtualidade é algo falso, imaginário, enquanto que esta é, na verdade, um modo de existência, inerente ao mundo de onde surge tanto o real quanto o imaginário, tanto a verdade quanto a mentira.
..... PAPEL E FUNÇÃO DA ARTE
A arte propicia um salto vertiginoso para dentro da virtualização, é essencial para que se entenda e se viva de fato a experiência da virtualidade
ARTE deve fazer com que a parte ainda MUDA, ouça seu próprio canto, evitando que o POSSÍVEL esmague o virtual e que a SUBSTÂNCIA sufoque o ACONTECIMENTO.
...... a saída nunca é resistir à virtualização e sim acompanhá-la e dar um sentido a ela.
....... a ARTE aparece como principal instrumento de oposição entre uma virtualização requalificante e inclusiva e outra que se faz desqualificante e excludente. A virtualização, como qualquer outra ferramenta, não é boa nem ruim, tudo vai depender do uso que se faz dela.

o homem CRIA as ferramentas
as ferramentas RECRIAM o homem
Mc Luhan

.......Lévy nos convida por fim a seguir o caminho do virtual não de forma ABSOLUTA e sim de forma RELATIVA, não de maneira SIMPLISTA, mas ABRANGENTE, não de forma IMPETUOSA, mas CUIDADOSA, exatamente como se orienta a sua obra.
........Uma obra cuja proposta principal é fazer com que a ARTE e a disponibilidade de estar aberto para entender o novo, que na verdade sempre esteve ao nosso lado, nos preencha enquanto seres que entendam a dinâmica de seu mundo, um mundo de existência e acontecimento....
.......................DE VIRTUALIDADE.............................


domingo, 30 de agosto de 2009

Ler ou não ler..."A Paixão segundo G.H"

Clarice Lispector


Não vou aqui fazer uma análise crítica, resenha ou qualquer outra coisa parecida para falar de um livro que me rouba todas as possíveis palavras. Se as usasse, não teria garantia nenhuma de que elas não mentiriam por mim. Do livro A Paixão segundo G.H de Clarice Lispector, limito-me a dizer que, como diz a autora, apenas para quem tem a alma já formada, é uma leitura obrigatória e fascinante. Uma viagem às entranhas da alma, às suas regiões mais gélidas e selvagens. Um re-encontro consigo mesmo, uma náusea, uma angústia, um sentimento que se volta para o que não é humano, para o que existe além dele. O livro não chega até a alma, tampouco até nossas raízes mais profundas, pois, segundo as próprias palavras de Clarice, não se chega até as raízes profundas que desenham a identidade do ser humano e sua alma. Elas existem, mas são inalcançáveis.
O livro é uma entrega completa e verdadeira rumo ao desconhecido, uma leitura onde quem lê vai além das letras, das entrelinhas, além da própria sensibilidade. Uma tradução da paixão - arrebatadora, fascinante, vertiginosa, a aceitação e descoberta de si mesmo, a experimentação da vida e da morte.
“A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro”, repetia Clarice loucamente em sua busca pela essência humana.


domingo, 2 de agosto de 2009

O cochicho do nada





Anton P. Tchekhov (1860 – 1904) pode ser mais claramente definido como aquele que preencheu o mínimo com o máximo. Ao contrário dos vastos panoramas de outros escritores russos como Dostoiévsky e Tolstói, ele concentrou os grandes problemas humanos nas formas breves do conto e da novela e construiu uma obra dotada de força extraordinária, sensibilidade assustadora, enredos angustiantes, detalhes minuciosos e qualidade indiscutível que a fizeram uma das principais portas de entrada para a literatura contemporânea.
Tchekhov impressiona pela leveza e, ao mesmo tempo, pela densidade e dificuldade do relato. Lê-lo não é fácil. É como penetrar nas regiões mais gélidas e profundas da alma humana, sentir-se sufocado, angustiado e, por fim, aliviado por já ter visitado o que mais pode um homem angustiar: a solidão e o reconhecimento da miséria de nossa existência.

No livro O Beijo e outras histórias, a tradução esmerada de Boris Schnaiderman nos traz contos que reúnem as peculiaridades e os traços e temas do cotidiano mais constantes em Tchekhov. No conto O Beijo, o leitor é conduzido a um mundo de imaginação, fantasia, sonho e loucura para se perder em um labirinto obscuro que conduz à dor calada e seca das existências mudas e absurdas por que solitárias e vazias. Já no conto Enfermaria nº 6, o mestre russo da narrativa curta expõe em faces nuas e cruéis os limites entre a razão e a loucura, faz com que o leitor conheça em palavras duras e frias - assim como as paredes da enfermaria - aquilo que somos no mais fundo, aquilo que apenas a cada um de nós se faz real e doloroso. Nas linhas deste conto fica clara a conversão de quem cura em quem padece e nas entrelinhas o inferno de nossa humanidade estreita e banal que um dia conhece a glória e, no outro, apenas incompreensão, abandono e indiferença, menos dos outros do que de si mesmo.
Tchekhov se embriaga do que de melhor existe na literatura: a linguagem correta, o detalhe decisivo e a forma insinuante do relato que conduz ao inacabado e permite a reflexão de quem lê. Por tudo isso, renovou a narrativa curta com emoção e inteligência, combinadas na exata proporção.




Anton P. Tchekhov


Machado de Assis


Algo interessante ao lê-lo é perceber as claras semelhanças existentes entre ele e Machado de Assis. Em suas letras nos sentimos estranhos e, ao mesmo tempo, em casa já que o fio do enredo tchekhoviano parece ser tecido com as mesmas linhas do enredo machadiano. Semelhanças se notam nos temas do cotidiano, nas sutilezas de tratamento e no universo social abordado.
Assim como Machado de Assis faz no conto O Espelho, Tchekhov em Enfermaria nº 6 constrói um personagem que dialoga com a solidão e se faz obcecado por encontrar um sentido para sua existência. Tanto o velho professor de medicina de Tchekhov, quanto o alferes Jacobina de Machado de Assis estão prontos para ver o apagar das luzes, para sentir a frieza do fim e ouvir o cochicho do nada. O primeiro pelas ilusões da loucura, o segundo pelas lâminas do espelho. Os dois pelos mistérios da alma.