Não passe por mim como quem passa pelos anos, tímido e pensativo. Não olhe pra mim como quem olha o horizonte altivo, perdido em mera contemplação. Não me vista assim como quem veste um paletó, reto e sem emoção. Não me descreva de cabeça como quem descreve sem vibração, morno e colecionando pó. Não me faça tua como quem toma pra si a lua, e a esquece com o nascer do sol. Apenas me faça muda como quem deita na rua, e abraça uma alma nua. Me tome múltipla e escura, e faça de mim somente uma, mesmo assim ainda não serei detalhadamente tua...
Tão melancólica Como a fina chuva Tão apagada Como uma noite sem lua Tão triste Como um pássaro sozinho Tão vazia Como uma casa sem som Tão ausente Como um silêncio de amigo Tão louca Como uma tempestade sem rumo Tão longa Como um deserto sem fim Tão reticente Como um nada dentro do tudo Tão amargurada Como uma flor sem perfume Tão ensurdecedora Como um rufo de tambor Tão pausada Como uma respiração desigual e forçada Tão lamuriosa Como uma lama grudada Tão sensível Como um cristal embaçado Tão esquecida Como uma roupa pendurada Tão desimportante Como uma morte esperada Tão julgada Como um crime sem justa causa Tão iludida Como a dor de uma alma Tão impaciente Como uma cachoeira que arrebenta a rocha Tão incansável Como a onda a deitar na praia Tão insuficiente Como uma poesia sem fim Tão cheia de esperança Como alguém que vive Hoje tão triste Amanhã tão feliz Mais triste é a tristeza Pendurada no fio da alegria Afinada nas cordas da beleza
M.V
Sucesso do carnaval baiano na voz delicada e gostosa de Caetano Veloso, em um ritmo mais doce, com um sutil tom melancólico, nos acordes simples e inconfundíveis de um violão. A música que no carnanal é tão vibrante e faz dançar, aqui, torna-se reflexiva, ardente no coração, resvala na saudade e se faz quase muda.
Quando meus olhos foram cruzar os teus Algo além de um medo Sutil e delicado Me assaltou Quando minha pele foi tocar a tua Algo além de uma insegurança Intensa e inesperada Me decifrou Quando meus lábios foram misturar-se aos teus Algo além de uma tempestade Bela e rara Me encontrou Quando meu corpo foi pousar suavemente sobre o teu Algo além de um prazer Verdadeiro e guardado Me reconheceu Quando os dias foram se acumulando Algo além de uma serenidade Companheira e iluminada Me acalmou Quando minhas lembranças foram visitar as tuas Algo além de um relicário Precioso e sagrado Me trouxe de volta o que de outra vida ficou Quando o dia amanheceu Algo além do fim da noite Crepuscular e denso Me completou Quando eu achei que tinhas ido Algo além de um desespero ensandecido Efêmero e profundo Me guardou Quando eu achei que era tarde Algo além de uma história Nua e muda Me contou Que o encanto desse amor, O tempo apenas preservou... Ele vai te encontrar Incerto como uma brisa Ele vai te acordar Inconstante como o tempo Ele vai decifrar sua alma Misterioso como a lua Ele vai te proteger Quieto como o silêncio Ele vai te entender Devagar como a calma Ele vai te assustar Louco como um drama Ele vai te arrepiar Fascinante como a liberdade Ele vai te curar Delicado como as pétalas de uma flor Ele vai te tocar Afinado como as notas de uma canção Ele vai te recortar Firme como um muro Ele vai te escrever Lindo como um poema Ele vai te esperar Ansioso como um sonho Ele vai te alucinar Quente feito brasa Ele vai te beijar Suave e doce feito mel Ele vai te tranqulizar Grande e encantado feito árvore Ele vai te completar Denso e generoso como o céu Ele vai dizer que te ama Naquilo que houver de mais belo e eterno E Ele vai repetir que te ama Mudo e absurdo Como um rio a correr livre e profundo Sem margens que o limitem Nem medos que o tirem do caminho Ele vai desaguar no mar E, com um leve sorriso, Ele vai despir-se do mundo e te amar Em um simples sussurro do olhar
"O homem está sempre pronto para distorcer aquilo que dizem seus sentidos, simplesmente para justificar a sua lógica." Fiodor Dostoiévski
"Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma." Fernando Pessoa "É melhor sonhar a vida do que vivê-la, ainda que vivê-la também seja sonhá-la." Marcel Proust "Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas...continuarei a escrever." Clarice Lispector