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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Perdido



Não passe por mim
como quem passa pelos anos,
tímido e pensativo.
Não olhe pra mim
como quem olha o horizonte altivo,
perdido em mera contemplação.
Não me vista assim
como quem veste um paletó,
reto e sem emoção.
Não me descreva de cabeça
como quem descreve sem vibração,
morno e colecionando pó.
Não me faça tua
como quem toma pra si a lua,
e a esquece com o nascer do sol.
Apenas me faça muda
como quem deita na rua,
e abraça uma alma nua.
Me tome múltipla e escura,
e faça de mim somente uma,
mesmo assim ainda não serei
detalhadamente tua...

M.V

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Melancolia e Beleza

Tão melancólica
Como a fina chuva
Tão apagada
Como uma noite sem lua
Tão triste
Como um pássaro sozinho
Tão vazia
Como uma casa sem som
Tão ausente
Como um silêncio de amigo
Tão louca
Como uma tempestade sem rumo
Tão longa
Como um deserto sem fim
Tão reticente
Como um nada dentro do tudo
Tão amargurada
Como uma flor sem perfume
Tão ensurdecedora
Como um rufo de tambor
Tão pausada
Como uma respiração desigual e forçada
Tão lamuriosa
Como uma lama grudada
Tão sensível
Como um cristal embaçado
Tão esquecida
Como uma roupa pendurada
Tão desimportante
Como uma morte esperada
Tão julgada
Como um crime sem justa causa
Tão iludida
Como a dor de uma alma
Tão impaciente
Como uma cachoeira que arrebenta a rocha
Tão incansável
Como a onda a deitar na praia
Tão insuficiente
Como uma poesia sem fim
Tão cheia de esperança
Como alguém que vive
Hoje tão triste
Amanhã tão feliz
Mais triste é a tristeza
Pendurada no fio da alegria
Afinada nas cordas da beleza

M.V


Sucesso do carnaval baiano na voz delicada e gostosa de Caetano Veloso, em um ritmo mais doce, com um sutil tom melancólico, nos acordes simples e inconfundíveis de um violão. A música que no carnanal é tão vibrante e faz dançar, aqui, torna-se reflexiva, ardente no coração, resvala na saudade e se faz quase muda.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Relicário





Quando meus olhos foram cruzar os teus
Algo além de um medo
Sutil e delicado
Me assaltou

Quando minha pele foi tocar a tua
Algo além de uma insegurança
Intensa e inesperada
Me decifrou

Quando meus lábios foram misturar-se aos teus
Algo além de uma tempestade
Bela e rara
Me encontrou

Quando meu corpo foi pousar suavemente sobre o teu
Algo além de um prazer
Verdadeiro e guardado
Me reconheceu

Quando os dias foram se acumulando
Algo além de uma serenidade
Companheira e iluminada
Me acalmou

Quando minhas lembranças foram visitar as tuas
Algo além de um relicário
Precioso e sagrado
Me trouxe de volta o que de outra vida ficou

Quando o dia amanheceu
Algo além do fim da noite
Crepuscular e denso
Me completou

Quando eu achei que tinhas ido
Algo além de um desespero ensandecido
Efêmero e profundo
Me guardou

Quando eu achei que era tarde
Algo além de uma história
Nua e muda
Me contou

Que o encanto desse amor,
O tempo apenas preservou...


Ele vai te encontrar
Incerto como uma brisa
Ele vai te acordar
Inconstante como o tempo
Ele vai decifrar sua alma
Misterioso como a lua
Ele vai te proteger
Quieto como o silêncio
Ele vai te entender
Devagar como a calma
Ele vai te assustar
Louco como um drama
Ele vai te arrepiar
Fascinante como a liberdade
Ele vai te curar
Delicado como as pétalas de uma flor
Ele vai te tocar
Afinado como as notas de uma canção
Ele vai te recortar
Firme como um muro
Ele vai te escrever
Lindo como um poema
Ele vai te esperar
Ansioso como um sonho
Ele vai te alucinar
Quente feito brasa
Ele vai te beijar
Suave e doce feito mel
Ele vai te tranqulizar
Grande e encantado feito árvore
Ele vai te completar
Denso e generoso como o céu
Ele vai dizer que te ama
Naquilo que houver de mais belo e eterno
E Ele vai repetir que te ama
Mudo e absurdo
Como um rio a correr livre e profundo

Sem margens que o limitem
Nem medos que o tirem do caminho
Ele vai desaguar no mar
E, com um leve sorriso,
Ele vai despir-se do mundo e te amar
Em um simples sussurro do olhar