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sábado, 1 de maio de 2010

Instantes de lucidez para pedaços de uma loucura em cerâmica


Parte 3
Ao chegar em casa, guardei a flor entre as páginas de um romance. Romance poético. Ardente de ideais bucólicos. A flor como peça artesanal da natureza. O romance ao certo deve ter gostado muito de recebê-la entre suas páginas. Aos poucos, o cheiro da flor ia passar, no tempo certo, para o papel. Mistura essencial. Cheiro de papel velho, bem amarelo. Cheiro de flor murcha, bem singela.
Com o movimento da vida, idas e vindas, mudanças e corridas eis que o menino da flor murcha com o tempo foi sendo da minha memória diluído. Do garoto que depois tornou-se meu primeiro namorado, eu lembrava naquela época e ainda hoje me lembro apenas de uma coisa. A flor murcha.
No entanto, devo confessar pelo menos a ti minha amiga que essa história de eu ter ganhado uma flor murcha do meu primeiro namorado sempre me confundira na minha mente. No instante em que a ganhei, tentei ver o gesto pelo lado positivo. Vício incurável de mulher apaixonada. Por que achar que tudo sempre tem um outro lado. Mesmo fazendo essa cara ele deve estar gostando. Mesmo não dizendo que me ama, ele deve me amar. Mesmo não querendo sair comigo hoje, ele deve estar cansado. Muito trabalho.
Besta coleção de deves. Inevitável aderência feminina. Indisfarçável transparência dos sentimentos. Mergulho em um lago gelado. Murros na consciência. Portas abertas para jorrar torrentes de sonhos e ilusões fabricadas e remexidas no caldo traumático do inconsciente. Paixão fascinante e efêmera. O amar mais ao outro que a si mesma. Ainda quando se pensa que se ama mais a si mesma que ao outro. Doce arrebatador sentimento. O amor e seus tormentos.
Mas voltemos ao menino da flor murcha. Como já dito, o tempo suplantou minhas memórias. Tive outros namorados. Casei-me e entrei na igreja com um belo boque de rosas novinhas. Lindas. Nada murchas. Pelo menos no dia de meu casamento queria me livrar dessa maldição de flores murchas. Tive filhos. O casamento foi ficando cada vez pior. Como mulher que eu era, por dentro ainda menina, deixei meu marido. Continuei sendo mãe e menina. Nunca mais tive outro homem. Entenda-se não de forma relativamente séria. A vida ia desabrochando.
Na estrada os carros riscam o ar alucinados. As coisas passam invisíveis e banalizadas. Crianças ganham feições e assuntos jovens. Janelas amontoam-se freneticamente umas sob as outras. As pinturas aos poucos desbotam-se envelhecidas. As rugas fogem para a face. Alojam-se no canto dos olhos. Os cabelos brancos visitam os negros, loiros ou castanhos. A pele se faz mais frágil que uma seda. O coração carece de proteção. Cansada pede calma e sensibilidade. Sinfonia da eterna danação. Nomes além dos homens. Rios além de pontes. Dores além de psicólogos. Leitos poucos para tantas mortes. Sonhos arrastados por seres sem nome. Números por cima de números. Cimentos por cima das árvores. Liquefação inconstante do ser. Entupimento frenético da alma. Anabolização artificial da vida. Temperamento suicida para os dias. Ilusões cortadas em pedaços bem fininhos. Lugares plantados no vazio. Palavras entupidas pelo nada. Vozes tão potentes quanto mudas.
Hoje estou velha. Cabelos inteiramente brancos. Muitos dizem que conservo o mesmo jeito de menina.
Mas já ia me esquecendo. Um dia, sem querer, como acontece quase sempre nos poucos grandes dias ou dias decisivos de nossa vida, ao abrir um livro esquecido e empoeirado bem no fundo de uma estante, vi ali repousada, protegida pelas páginas, a flor. Mas não era a mesma flor. Era outra. Engraçado, não me lembrava de ter guardado outra senão aquela flor murcha, meio avermelhada. No entanto, ali entre as páginas quase que totalmente perfuradas pelos bichinhos do tempo, havia apenas uma flor que não estava murcha. A flor estava nova. Tal como se tivesse acabado de ser arrancada do canteiro. O vermelho era forte, regado por um leve tom rubro. A flor parecia brilhar. Radiante peça rejuvenescida pelo tempo. Admirada, eu me detive durante um longo tempo a olhar a flor. Mas que coisa incrível pensei. De que espécie rara veio essa parte da natureza? Se ao menos me lembrasse do nome daquele garoto... Poderia ir atrás dele para saber melhor, entender melhor.
Mas não me lembro. Já faz tanto tempo. Quando a recebi tinha acabado de completar 20 anos. Era uma menina. A flor murcha. Confesso que estranhei bastante, principalmente por causa daquele sonho. O sonho!
Foi nesse instante que me peguei alarmada, aturdida, desencontrada de mim mesma. Deixei a flor cair de minhas mãos de forma violenta. Claro! Incontrolada eu gritava. “Era sim a mesma flor daquele dia, a mesma flor murcha do vaso, do pássaro, dos horrores impressos na cerâmica. Ela está enfeitiçada, não toquem, ninguém toque na flor. Ficou nova assim de repente! Como pode? Pura peça de feitiçaria”.
Lembro que saí correndo para onde eu nem sabia. Andando pelas ruas eu gritava desesperada. Comecei a implorar para que todos dali fugissem, contei sobre o pássaro, o vaso, a flor, o tabuleiro de xadrez, a criança segurando a torre, falei sobre a raposa nojenta, sobre a mulher que tinha vários corpos e sobre a qual pairavam várias vozes. Depois não vi mais nada. Ficou tudo branco.
E assim chegamos aqui. Hoje já estou com 80 anos. Eu velha, murcha. A flor nova, rubra ainda aqui a conservo ao meu lado.
Não reclamo de meus dias, moro em um lugar lindo. Branco, recortado pelo verde que irrompe das árvores e pela paz que sai das formas sutis do desenho dos troncos. Algumas vezes, ouço vozes a falar sobre a minha cabeça. Elas não param. Não sei distinguir a forma, se de homem ou de mulher. Mas elas falam. Ah e como falam. Elas querem a flor murcha que agora ficou bela. Mas eu não dou. A flor é minha e acabou. De vez em quando, um homem bastante velho vem me visitar. Não sei quem ele é, tampouco dele me lembro porque alguns dizem que eu já o conhecera antes, de muito antes. Da visita dele eu gosto, mas não gosto do outro. O homem que sempre está vestido todo de branco, ele vem me ver todos os dias, sempre com injeções, comprimidos, remédios que estão me deixando cada vez menos consciente de quem eu mesma sou. Ainda bem que já contei um pouco da minha vida pra você, daqui a um tempo não vou me lembrar de mais nada. Os remédios e o homem todo de branco não vão deixar. Eles querem me esfumaçar, querem deixar tudo fumaça, também querem a flor, mas a flor eu não dou.
Antes, no entanto, preciso te contar mais uma coisa antes que eu esqueça. O que eu mais gosto de fazer por aqui é olhar o pátio, quase sempre vazio. Hoje ele está vazio. Gosto dos pisos que são todos quadrados, alguns mais escuros outros mais claros. Gosto de deitar-me nos cantos do pátio, olhar os quadrados e as pessoas todas vestidas de branco que por aqui passam. Não levo nada comigo, apenas a rosa vermelha e nova é que não deixo sozinha. Todos querem roubá-la de mim. Deitada, a seguro forte entre meus dedos para que a beleza não me escape.
Como certas figuras brancas me perturbam. Calçada oca sem acabamento nas beiradas. Alma torpe combinada a uma honra meio esfarrapada. Rua estreita inundada por vielas mal tratadas. Desejos e gemidos reprimidos sem sentido que se conte ou se figure. Espasmos de acaso. Vestes de fidalgos tão antigos como dinossauros. Postes enfeitados de sal.
Cansei da conversa contigo raposa presunçosa e movediça. Veja bem, teu relógio já passa das duas, depois só temos mais o três.
Um enfermeiro que passava naquele instante em frente à sala de Estela, a mulher que acaba de contar sua história, assim disse ao ouvir as últimas palavras daquele relato.
“Falando sozinha de novo essa aí. Vamos ter que aumentar a doze do remédio, ela ainda parece muito bem, consegue contar essas histórias malucas dela com grande lucidez. Imagina! Pássaro que vira vaso. Chama o doutor Corvo, pergunta qual o melhor remédio pra que ela nem consiga falar, perca os sentidos e nos dê um pouco de paz. Vá, depressa. Doutor Corvo não cuida só dos parasitas daqui não, há uma multidão por aí feito essa daqui a tagarelar besteiras.


Veja parte 2
Veja parte 1

terça-feira, 27 de abril de 2010

Instantes de lucidez para pedaços de uma loucura em cerâmica


Parte 2
Voltando ao homem todo de branco, do seu lado havia uma bolsa cheia de moedas. Do outro lado, um corvo. Sombrio e diria até amaldiçoado. Meus olhos moveram-se para o outro pedaço de cerâmica no qual pude ver uma mulher com incrível graça e jeito de menina. A graça e o jeito eram tão fortes e visíveis que pareciam saltar das formas constantes e mudas do desenho, era como se por um minuto falassem. Risonha, enfeitada, olhos saltados, modos ligeiramente exagerados. Ao redor de sua cabeça, voavam alguns seres que pareciam espíritos a cochichar coisas em seus ouvidos. A imagem dava a impressão de que quanto mais lhe falavam esses seres sobre sua cabeça, mais ela se agitava em uma espécie de êxtase descontrolado, quase como se estivesse embriagada. Seu corpo no mesmo movimento que ficava no lugar também saía de dentro dela mesma. Às vezes, eram dois corpos, em outras, apenas um. Tudo ali parecia dançar freneticamente, não havia tempo.
Pulando para o outro pedaço de cerâmica, vi uma raposa parecida contigo. Bela, saudável, com um ar de certeza e superioridade, assim como o teu, embora tu me parecas ainda mais petulante. Pendurado no pescoço da raposa havia um relógio que eu não sabia distinguir que horas marcava. Olhando com mais atenção, vi que nele não havia ponteiros, nem o grande tampouco o pequeno. Também os números que marcam as horas tinham diminuído. Eles não terminavam no doze, iam apenas até o três. Um. Dois. Três. Engraçado como tens um parecido, às vezes, parece até o mesmo. A raposa do pedaço de cerâmica parecia orgulhosa. Ao lado dela não havia nada, apenas um branco vazio. Confusa, fui para o próximo pedaço. Nele, algo parecido com um tabuleiro de xadrez. Não havia peças. Apenas uma névoa espessa que parecia encobrir tudo. Caída do lado de fora do tabuleiro uma criança. Magra e envelhecida. De maneira alguma, parecia-se com as crianças que eu conhecia na época em que era criança, menos ainda comigo. Era como uma pessoa já bastante velha, enrugada, endurecida. Riscada pelo passar do tempo. Em uma de suas mãos, pude perceber, ao reparar com mais atenção, que seus pequenos e enrugados dedos seguravam apertada e protegida uma peça de xadrez. No formato e aparência da peça reconheci uma Torre. Demasiadamente atormentada, passei para o último pedaço daquele vaso que eu quebrara e que antes era em tudo parecido com um pássaro. No último pedaço, se espremia uma multidão. Pessoas encostadas umas nas outras, visivelmente atormentadas. Via-se em movimentos a desenhar-se que cada uma delas buscava a outra inutilmente. Ninguém conseguia se alcançar. Desesperada, uma mulher parecia se dirigir ao filho buscando abracá-lo, lutando contra algo que não era vento, tampouco concreto, muito menos vidro ou tempestade. Todos lutavam contra algo que não se parecia com nada e podia ser chamado de nada. Mas, ao mesmo tempo, não era nada. Havia alguma coisa entre uma pessoa e outra, entre a multidão desarranjada, mas essa coisa que havia não era nada.
Alucinada. Perdida em demências angustiadas. Rabiscada. Drogada de imagens que só poderiam ser de um futuro porque nada daquilo poderia ser presente ou passado. Inspirada pela conspiração. Protegida pelo drama e pela montagem de coisas sem conexão.
Quando voltei a mim não havia mais nada no chão. O que ficou foi apenas uma flor murcha. A cor das pétalas gastas não se imprimiu naquele instante em minha mente. Voltariam depois como um produto de ressaca.
Quase do chão tomei para mim a flor, mas lembro que tive medo naquela hora. Primeiro, um pássaro morto que parece renascer. Depois, o pássaro simplesmente vira vaso. Desengonçada, eu caio bem em cima do vaso e o faço em pedaços. Nos pedaços, desenhos, formas, cores e movimentos de perfeitas imagens. Maldição. Feitiçaria. “Não! Não quero tal flor”, pensei naquele dia”, e completei, “Acho que estou ficando louca”.
Durante dias, lembro que a flor jogada na chão ali ficou. Abandonada, quietinha. Tão murcha e feiinha que ninguém pegava. Os anos foram passando e eu, da flor murcha daquele dia, quase que já havia me esquecido completamente.
A flor ficaria nesse estado de esquecimento se não fosse um garoto que tinha a mesma idade que eu na época, 20 anos, e morava ao lado da minha casa. Ele sempre me perseguira desde a infância. Fazia de tudo pra me agradar. Eu gostava dele confesso, mas queria que ele me conquistasse por completo. Foi quando ganhei desse garoto um presente que me fez perdida e muda. Uma flor murcha. Julguei-me de imediato louca. Logo pensei na flor daquele dia, muitos anos atrás, no vaso feito em pedaços, nas imagens horríveis e sombrias que assisti sem entender muito nada daquilo. Naquele tempo dos meus 20 anos, elas já estavam quase que esquecidas, mas eis que me voltava a flor. Lembro que somente naquela ocasião, pude reparar na cor que da primeira vez nos meus olhos não se imprimira. Era vermelha, de um tom avermelhado e ligeiramente gasto. Foi quando tive um minuto de lucidez e disse pra mim mesma. “Mas que bobagem. Ai como estou sendo ingênua e demasiado supersticiosa. Magina! Tantos anos depois. É claro que não é a mesma flor, aquela deve ter sido pisoteada, desfeita, engolida pela poeira, desapareceu junto com todas aquelas imagens daquele meu sonho impossível. Sim, porque hoje vejo que só pode ter sido um sonho. Nenhuma lógica. Pássaro que vira vaso. Louca eu sou se acreditar em tudo isso!”.

Veja Parte 1

sábado, 24 de abril de 2010

Instantes de lucidez para pedaços de uma loucura em cerâmica


Parte 1
Que desvirtuada flor murcha. Hoje só sei dizer de tal desassossego de alma e de alguns fluxos intermitentes. Como certas figuras me perturbam. Na maioria das vezes, é como chuva depois de trovoada. Trovoada. Arrebatamento de alma. Desintegração de crenças. Loucuras de cinema mudo. Farrapos destelhados de um abandono imundo. Ritmos tão cheios de tudo. Orvalhos decadentes em pontes ligeiramente indecentes. Paredes brancas e verdes vazia de gente. Vozes por demais lotadas de coerência. Racionalidade limitante e edificante ao extremo. Criação de verdades ao lado da repetição frenética de imagens. Diluição paradoxal de um tempo pueril e sexualizado. Sentidos atrofiados. Mentiras subornadas ao lado de felicidades que são como jardins aparados. Espelhos esfumaçados e trincados pelas rugas inconvenientes não do tempo e sim dos vícios. Bajulações excessivas e oratórias assexuadas. Abismo pintado de cetim barato. Marfim disfarçado de capim. Pedras soltas a rolar em direção a um nada sem nome. Sem nome como a flor murcha. Símbolo de algum pesadelo, tormento, peça de feitiçaria ou instante de agonia.
No dia da flor murcha eu acordei assustada. Tinha apenas seis anos de idade. Um pássaro estava morto, bem ao pé da minha janela. Pássaro morto. Estruturas desengonçadas. Uma profunda tristeza invadiu-me. Imaginei por um instante aquele pequeno pássaro que outrora devia voar livre, inconstante, vertido pelos ventos esvoaçantes. Morador do infinito, da vastidão desencontrada. Avesso a interiores de tijolo ou gesso. Adepto das intermináveis distâncias, dos longos voos, dos arrepiados esquecimentos. Imaginei como sempre eu quisera ser livre como os pássaros, ao menos por um instante. Como sempre quisera voar. Desejos impossíveis. Os desejos impossíveis são constantes em minha mente até hoje. Penso sempre em coisas impossíveis antes de dormir. Envolta no breu, disfarçada com aquilo que fingo ser meu, mas, na verdade, tampouco sei se o tenho de fato. Mordendo as brechas da escuridão. Beliscando os silêncios mudos da noite. Desenhando o instante em que a noite vira madrugada. Despertando sem querer no segundo em que a madrugada dia se anuncia sem escala. Dias de vertigem já eram os dias de minha infância.
O pássaro de repente foi saindo daquela condição de morto. O sangue que lhe cobria as penas um tanto amareladas foi, no espaço do encostar de meus cílios, sugado. A cor parecia voltar-lhe, como o frio volta depois do calor. Ficou um tempo com essa aparência de quase vida depois da morte quando, no preciso instante em que os seus olhos se abriram novamente para a luz, ele já não era mais um pássaro. Ganhara formas e a aparência de um vaso. Belo vaso de cerâmica. Simples, mas bastante delicado. Marrom e com poucos detalhes esculpidos por fora. Debruçando-me um pouco no parapeito da janela fui descobrir que o vaso era realmente lindo, fascinante, mais por dentro do que por fora. No seu interior, as formas em relevo saltavam, mesmo que não pudessem ser vistas inteiramente em razão da abertura principal que conduzia ao espaço oco de dentro ser um pouco estreita. Os desenhos, mesmo vistos com certo esforço, pareciam ser uma espécie de cronologia, organização do passado ou previsão do futuro. Naquele instante, eu não conseguia ver com clareza.
Torrente de imagens. Invasão de fantasmas, monstros e assombrações. Momentos de espasmos. Canções entoadas no seio da escuridão. Manchas de aranha, caldo de diversão. Efemeridades diluídas no estojo da separação. Orgias pervertidas, pedaços de horas mastigadas sem sermão. Luvas de borracha sem queratina. Odores de um azul sem compaixão. Prazeres condensados, extraviados e desviados para tudo que fosse contra mão. Surrealismo ou sonho da ingratidão.
Curiosa, debrucei-me um pouco mais. Caí. Tombei bem em cima do vaso. Ele se fez em pedaços. Peças soltas esparramadas pelo chão. Incrível obra do destino. Verso do acaso. Rima sem satisfação. Os pedaços tinham se quebrado de modo que em cada um deles permanecia inteiro um desenho com cores e alguns escritos completos. Eram vários instantes de um tempo que eu ainda não sabia se já fora ou se estava para chegar.
No primeiro pedaço de cerâmica, deparei-me com a figura de um homem belo, todo de branco, com olhos bastante ambiciosos e um aspecto esfarrapado. Hoje, parece que tudo aquilo me volta mais claro. Ás vezes, me surpreendo com minha própria lucidez. Não sei por que me entopem com tantos remédios. Bom, mas tenho vontade de contar essa história nem que seja pra você. Sinto que preciso. Depois dessas palavras talvez não diga mais nada.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Bela e Margarida

A Canoa sobre o Epte, Monet

De vez em quando, ela tocava levemente a água do rio, sentia como se aquele líquido, em movimentos regulares e certos, fosse penetrando todo seu corpo, curando-a de males, regenerando sua alma, anestesiando suas dores, acalmando sua grandiosa ansiedade. A água era volumosa, densa e, ao mesmo tempo, diáfana, parecia-se com uma poesia ainda não terminada, mas já esboçada por versos, rimas e ilusões de uma alma jovem e naturalmente apaixonada.
Seu olhar esquecia-se por horas na água em movimento, queria captar suas ondas, nuances, temperamento, aflições e desejos. Em intervalos regulares de tempo, estes olhos moviam-se em direção à amiga que com ela dividia a canoa e a paisagem naquele remoto fim de tarde. As duas estavam ansiosas, naquele dia haveria um baile na província vizinha, baile importante, com os homens mais distintos da sociedade, as mulheres mais elegantes, as damas mais comportadas e também as mais mexeriqueiras, homens de cultura e homens de muita palavra e pouca ideia.
Enfim, uma daquelas festas na qual todos estariam, sem exceção, todos entenda-se a alta sociedade caro leitor, jamais uma camponesa ou um empregado seriam convidados para tais festividades.
As duas moças que dividiam amigavelmente a canoa sobre o rio Epte localizado na calma e tranquila Giverny, no norte da França, e ali pareciam tão próximas, unidas e harmonizadas pela paisagem, eram, para a verdade presente na sociedade, bem distantes.
A primeira que aqui nesta história citamos, a que tocava gentilmente a água e pousava seus olhos em um movimento longo e solitário nestas, era uma simples camponesa que trabalhava como empregada na casa da outra moça pousada sobre a canoa que passara o passeio todo imóvel. Essa outra jovem sequer movimentava muito os olhos em direção à paisagem que a emoldurava, tampouco chegara a molhar seus dedos finos e delicados na água do rio, permanecia como uma estátua, remexida apenas pelo vento quando este fazia dançar seus cabelos ou um pouco do tecido brando de seu vestido. Fora isso, esboçava sorrisos tímidos, não falava muito, mas nos recônditos de sua alma parecia feliz, pintada por uma ansiosidade prazerosa diante da expectativa para o baile de mais tarde.
O fato é que a moça imóvel, de nome Margarida, gostava muito da companhia da moça que remexia espontaneamente a água, com os remos ou com os dedos, de nome Bela. Já fazia muito tempo que Bela trabalhava na casa de Margarida, seus pais e avós ali trabalharam e ela perpetuava a linhagem. Ambas tinham a mesma idade e Margarida sempre gostara muito de brincar com Bela, elas se entendiam e foram atravessando algumas das primeiras fases da vida sempre juntas. Na infância dividiam as bonecas, na adolescência as confidências e agora, nos anos dourados da juventude, dividiam desejos, expectativas, outras confidências e silêncios.
Neste fim de tarde, dividiam o silêncio. Bela estava triste pois não iria ao baile, Margarida estava radiante, apesar de não demonstrar tal felicidade em movimentos, ela iria ao baile e lá teria a chance de dançar com um belo rapaz que, mesmo sem conhecer, habitava seus sonhos e fantasias há algum tempo. O vestido que ela usaria era especialmente belo, com bordados de um tom rosa bem clarinho recortado por detalhes em azul e amarelo. Bela costurara grande parte do vestido, imaginando como seria o seu caso ela também pudesse ir ao baile. Colocara no vestido de Margarida algumas rosas verdes bordadas especialmente por ela para dar um toque original àqueles pedaços de panos reunidos.
A história que aqui vai contada começou um pouco antes quando Margarida foi até o quarto de costura e chamou Bela para um passeio de canoa pelo rio Epte. A última prontamente aceitou. Como sempre fazia, mostrou-se contente, amistosa, disposta e deixou transbordar toda a graça natural que lhe era inerente.
Bela era uma jovem incrivelmente bela. Seus pais colocaram-na esse nome, mas não pensaram que o nome condiziria tão bem com a pessoa. Não só pela aparência, mas principalmente pelas maneiras, pela graça, pelo olhar longo e solitário, profundo, jazigo de mistérios eternos. Era alguém que fora pintada com tintas caras e raras, um molde único, destes que só aparecem de vez em quando e encantam de imediato. Os cabelos eram castanhos, quase sempre ornados por um chapéu branco que a ajudava nos trabalhos sob o sol, os olhos além da aparência aqui já dita eram também castanhos, mas de um castanho menos exuberante que o do cabelo, era um castanho mais negro, mais contido, mais inebriante, rimado com um toque de alucinação. As formas do corpo eram perfeitas e atraentes, harmônicas, nada sobrava, nada faltava. A voz era sublime, tinha algo do timbre dos pássaros, do cochichar do infinito. A voz era especialmente bela em Bela.
Já Margaria era uma mulher comum. Pode-se dizer até apagada. Bonita, mas sem nada demais. Bem cuidada, vestia sempre os melhores vestidos da cidade, cheirava sempre aos melhores perfumes, mas não tinha graça, tampouco originalidade. Margarida sempre usava um chapéu de cor marrom, a última moda em Paris, que, no entanto, não chamava tanto a atenção como o chapéu branco de Bela, este era diferente, não havia outro igual, era antigo, fora de sua avó e carregava todo um ar de simplicidade e elegância que não advém da sofisticação luxuosa, mas da simplicidade delicada. Sua voz era parecida com um som bem desafinado, estridente, chegava por vezes a ser até engraçado.
A voz, elemento aparentemente banal, ela faria toda a diferença naquele dia do baile.
As duas dirigiram-se ao Epte para o passeio, as coisas iam por aquele rumo, Bela conduzindo o barco, de quando em quando deixando um pouco o remo e tocando a água. Pensativa e imaginando como ela seria feliz se pudesse também ir ao baile. Margarida seguia estática, tão distante, tão separada da natureza, tão incompreendida por suas formas, ela combinava apenas de forma aparente com todo aquele lugar, mas no fundo, era um contraste abismal. Em certos instantes, Margarida pedia para que Bela cantasse, entoasse alguns versos, disparasse alguma canção.
Dizia ela nos raros momentos em que esboçava algum movimento:
- Bela, cante um pouco para mim, quero imaginar o baile, já me vejo adentrando o salão com meu belo vestido e indo em direção ao meu amado que por mim creio que está completamente apaixonado. E terminou a frase com um leve suspiro bobo e entrecortado.
Bela respondeu doce e calmamente, deixando-se invadir pela calma e mansidão do lugar:
- Claro Senhorita Margarida, vou cantar aquela canção de que tanto gosta, mas digo apenas à Senhorita que não se anime tanto com o seu amado, ele sequer a conhece bem, apenas sua mãe falou da senhorita para ele e ele mostrou-se, ao que ela disse, interessado. Mas em amor é preciso se conhecer melhor. Não acha? Ver como o outro vê o mundo, as coisas, como ele sente a natureza, como ele passeia por um belo rio em um reticente fim de tarde como agora fazemos. São os detalhes que geram a paixão mais do que qualquer outra coisa.
Margarida disse um pouco irritada:
-Sei disso tudo Bela, mas tenho certeza de que ele gostará de mim. Nossas famílias são amigas, tudo vai arranjado. Agora cante.
Bela cantou. E cantou lindamente. O som de sua voz parecia enfeitiçar os pássaros, domar as árvores, ditar o movimento do rio, recortar suas ondas pequeninas, alimentar os peixes escondidos, antecipar as emoções do baile, recuperar momentos do passado, intensificar a hora do presente, fazer com que aqueles corpos isolados, sozinhos em sua companhia, distantes e, ao mesmo tempo próximos, brancos e infinitos, adquirem-se de repente uma leveza tão grande a ponto de que esta se tornasse quase insustentável.
Depois de algumas horas, o passeio acabou, já estava tarde, Margarida tinha que voltar para casa e se aprontar para o baile. Bela tinha que ajudá-la.
Em movimentos rápidos e apressados umas dez mulheres, contando com Bela, aglomeraram-se no quarto para ajudar Margarida e sua mãe a se trocarem. Ambas ficaram prontas em poucas horas. Não podemos completar dizendo prontas e lindas, estavam apenas prontas. Lindas seria algo mais, algo que vai além de um vestido, de alguma maquiagem, de um penteado estático, tal como Margarida estava no passeio sobre o rio Epte horas atrás. Falando em Margarida, esta parecia não estar muito contente quando ansiosa voltou seus olhos cinzentos para o espelho. Parecia que lhe faltava alguma coisa, não sabia se no vestido, no cabelo, no rosto, mas algo lhe faltava.
Bela, percebendo a insatisfação da amiga, em instantes, ofereceu o seu chapéu branco, naquele momento, pensou apenas no chapéu como algo que para ela tinha uma beleza totalmente original e única, algo de singular que se colocado por Margarida seria capaz de preencher a falta que ela sentia em si mesma. Mas Margarida detestou a ideia, enfureceu-se, gritou descontrolada. “Aonde já se viu, eu, ir ao baile com o chapéu de uma camponesa, chapéu velho, sujo, encardido, que horror! Creio que já estou bem, minha roupa está ótima, não quero mais nada, apenas ir e deixar de ouvir estes despautérios. Espero que ao menos tenha pregado as flores verdes direito Bela, para que não me escapem durante o baile, seria um vexame. Fica melhor quando canta Bela, do que quando mete-se a dar palpites sem sentido”.
Mãe e filha partiram para o baile, Bela ficou chorando, ofendida, sentindo-se triste e contemplando o chapéu jogado violentamente em um dos degraus da escada por aquela que um dia ela considerara sua amiga, por aquela para quem ela cantara nesta tarde lindamente, navegando sobre as águas profundas do rio Epte.
Chegando ao baile, Margarida avistou de imediato o tal pretendente que ela sequer conhecia. Este, introduzido por sua mãe veio ter com ela, assim disse:
Oh! Doce Margarida. Já sou de ti um completo apaixonado, mesmo antes de conhecê-la. Hoje à tarde, em uma jogada do destino, fui ter contigo em tua casa, queria fazer-te uma visita antes do baile para que pudéssemos nos conhecer melhor. Mas, quando cheguei, tua mãe me disse que havias ido passear de canoa sobre o Epte, de imediato já achei lindo o passeio, pensar que gostas daquele rio, daquelas margens tão livres. Muito já andei por sobre aquelas águas, tocando-as, sentindo-as curar minhas mágoas, dores e faltas, fundindo-me ao vento, à brisa, deixando com que meu corpo se movimentasse longa e pensativamente. Fui correndo ver se te via nem que fosse da margem, por trás das folhagens esparsas que por lá se esparramam. O fato é que não pude ver-te por completo, no entanto, pude ouvir-te e como foi bela e linda tua voz. Tenho certeza que era tua, pois voz tão elevada, doce e graciosa, só podia vir de uma jovem tão bela e educada como vós. Apaixonei-me pela tua voz, se é que isso é possível, antes mesmo de ver de ti o rosto, os gestos, as formas, os olhos, antes tua voz aos olhos ou a qualquer outra coisa. Diga alguma palavra para que eu possa enfim confirmar como és bela a voz que de tua alma emerge, porque canto tão magnífico só pode brotar das camadas de tua alma. Ou melhor, esperas! Antes que digas qualquer coisa onde está teu chapéu branco. Achei-o tão diferente, com ares antigos, dotado de uma simplicidade que há tempos não vejo. Tua outra amiga também levava um chapéu, mas pareceu-me prosaico demais em comparação com o teu. Uma peça irresistível, estás lindo teu vestido, mas creio que lhe falta apenas aquele chapéu. Lembro-me que uma das cenas que consegui vislumbrar, umas das únicas que me apareceram aos olhos por entre as folhagens e ramos esparsos, foi de uma amiga ou conhecida tua e de ti, cantando, pude ver o movimento de seus lábios, ornada de um magnífico chapéu que, no entanto, quase fugia de meu campo de visão, você estava bem no canto de meu olhar, quase escapando dele e, ao mesmo tempo, mergulhando dentro dele. Escapava e voltava pra mim, me dava vontade de entrar naquela canoa, passear com você e com sua outra amiga, ouvir de perto sua voz, tocar seus lábios, flutuar sobre aquelas águas e impedir que me fugisses.
Sem que pudesse dizer muito e tomada por um susto no coração, Margarida saiu correndo, corria e deixava com que os bordados de rosas verdes sobre o vestido fossem caindo pelo chão, pelas escadas, deixando um rastro de soberba, cólera e ilusão.
O jovem a seguiu apressado sem entender muito o que se passava. Por fim, quando a carruagem que transportava Margarida parou em frente a uma casa, ele também parou logo atrás. Ela entrou e continuava correndo, meio desesperada, meio tomada pelo ódio, pela cólera, pela raiva, nos olhos transparecia uma fúria quase incontrolável, um desejo de morte ou qualquer coisa do tipo.
Ele nada via ou entendia apenas corria e queria de todo jeito alcançá-la.
Quando atravessou a porta que Margarida deixara aberta, perdida no seu arrebatamento incontrolado, a primeira coisa que viu jogado nos degraus da escada branca e polida foi um chapéu. O mesmo que ficara no canto, quase escapando dos limites do seu olhar naquele tarde. Em um movimento inconsciente, elevando seus olhos acima dele, viu uma jovem estupidamente bela, cujo rosto estava encharcado de lágrimas que, em um momento de susto e incompreensão, perguntou:
-O que está acontecendo? Quem é o senhor? Por que Margarida entrou assim tão assustada e nervosa, tomada da mais profunda cólera, lançando a mim ofensas incontáveis que ferem meu coração?
-O jovem com um olhar tomado por tal sensação de completude que não se explica ou descreve com palavras disse apenas:
Tomes teu chapéu bela jovem, ele é tao belo como tu e a tua encantada voz e não merece ficar jogado nestes degraus frios e gelados, assim como teu rosto não merece ser regado por tantas lágrimas.
O belo jovem inclinou-se com tamanha firmeza e nobreza em direção ao chapéu branco caído no chão, tomando-o com a certeza e ansiedade de quem não quer deixar que ele quase escape de sua vista novamente, e posou-o nas mãos delicadas da mulher que ele agora sabia quem era. Ela estava ali, inteira na sua vista, tão linda como a voz que dançou sobre o Epte naquela tarde.

* Texto inspirado no quadro de Monet, A Canoa sobre o Epte, visto na Exposição Romantismo - A Arte do Entusiamo no MASP, exposição que já foi tema de um post no Impressões. Uma homenagem ao Romantismo, a todo o sublime contido no trivial que sua estética busca e apreende de forma maravilhosa.


O mundo precisa ser romantizado. Assim reencontra-se o sentido originário. Romantizar nada é senão uma potenciação qualitativa. Essa operação é ainda totalmente desconhecida, na medida em que dou ao comum um sentido elevado, ao costumeiro um aspecto misterioso, ao conhecido a dignidade do desconhecido, ao finito um brilho infinito, eu o romantizo.

Novalis


Deveríamos fazer do comum algo de extraordinário e então nos surpreenderíamos descobrindo que está muito perto de nós a fonte de prazer que buscamos em algum lugar distante e difícil. Estamos muitas vezes a ponto de pisar na maravilhosa utopia mas acabamos olhando por cima dela com nosso telescópio.

Ludwig Tieck



domingo, 4 de abril de 2010

Um olhar que cala por dentro

Peixes Preto & Branco, Paulo Consentino


Seu Manuel vivia sentado à beira do rio, contemplando sereno e regado por um leve tom de melancolia o cair da tarde e o irromper da noite. O horizonte era emoldurado pelas linhas retas e infinitas do rio, as águas calmas, silenciosas, faziam com que o restante da paisagem ganhasse um tom quase mudo. Tudo seguia seu movimento de forma lenta e graciosa. De vez em quando, o barulho de alguma ave, o ruído de algum peixe beliscando a superfície calma do rio, o espreguiçar dos outros homens que por ali se aglomeravam, cortava o fluxo sem rumo dos seus pensamentos, das memórias, dos sofrimentos daquele homem aparentemente cansado.

Daqui de baixo, eu apenas olhava. Olhava atento, devo assim dizer, e um tanto desconfiado. Passeava minha vista por todos aqueles que podia com o olhar alcançar, tentava entendê-los além da moldura turva da água, além dos reflexos do fim de tarde, além das notas de minha solidão. Enquanto fugia das armadilhas que de mim se cercavam, conseguia captar suspiros, detectar lágrimas forçosamente contidas, respirações doloridas e entrecortadas, conseguia apreender o instante da expressão humana, as coisas pequenas que bailavam nas cordas do destino de cada um daqueles pescadores.
No meu pensamento, eu achava que eram todos pescadores, ali , à beira do rio, eles eram pelo menos. Muitos, imaginava eu, já haviam passado por muita coisa nessa vida, visto, ouvido, sentido, escondido muito. Os pescadores sempre me deram a impressão de esconder muita coisa. Era como se o rio, o céu limpo, o silêncio da mata, preservasse e oferecesse lindamente toda paz que eles buscavam, como se ali eles não precisassem reter mais nada, em um movimento sutil e inconsciente, as emoções afloravam, mudas, como tudo à sua volta. Nesse movimento, eles puxavam uma conversa ou outra, lançavam as varas, armavam as iscas, e esperavam...Esperavam algo que ia muito além de mim, esperavam sentidos, respostas, uma espécie de cama macia e quentinha para dias de incompreensão e mudanças que seu pensamento, marcado pelos hábitos de outro tempo, já não acompanhava mais.
Manuel, o do começo desta história, era um dos pescadores que vinha sentar -se na margem do rio. Homem de uns setenta e tantos anos, parecido no jeito e aparência com os outros, tinha, no entanto, algo de diferente. Alguma coisa nele me deixava triste, incompreensivelmente triste. Seu Manoel sempre chegava com a mesma graça, animado, naturalmente alegre. Conversava com todos os que estavam por perto do lugar onde costumava se sentar para pescar. Contava piadas, rimava alguns versos soltos, fazia homenagens, e, muitas vezes, repetia a mesma piada que contara no dia anterior. Mesmo repetindo, achava nela graça e a contava com o entusiasmo de sempre. Não era nem alto, nem baixo, tinha uma altura média, também não era nem gordo, nem magro, tampouco demasiado expansivo ou demasiado taciturno, tinha um comportamento equilibrado. Em meio a esse equilíbrio, ele parecia ter mais alma que os demais. Nunca conseguia me pegar, tentava, tentava, mas eu parecia conhecer seus movimentos de mão, o tipo de sua isca, e, definitivamente, preferia olhá-lo de longe, assim podia vê-lo melhor, mesmo sob um aspecto meio diluído, esfumaçado. Eventualmente, podia até rir das suas piadas e, algo que ainda não contei, deliciar-me com a sua música. O homem que tinha olhos verde cor de mar, pele vermelha pintada pelo sol, cabelos impecavelmente penteados para trás e sérios no seu tom acinzentado, de vez em quando, sentava à beira do rio e entoava uma belíssima melodia em homenagem às águas que corriam soltas, às árvores, ao colorido avermelhado dos fins de tarde, à calma reticente e doce daquela paisagem que tinha ares de eternidade. Seus dedos percorriam as cordas do violão com tal maestria, perfeição e segurança que ele não tocava apenas para os homens, muito pelo contrário, parecia tocar para os pássaros, para o rio, para o silêncio das almas suspensas e ensandecidas. O ritmo que das cordas saltava tinha tanto de infância, um cheiro de menino, um riso quase ingênuo e era simplesmente lindo. Perdi a conta de quantas vezes o ouvi e dormi. No sono sonhava com outros rios, novas águas, visitava lugares longínquos para onde me levava aquela doce melodia. O fato é que o homem tocava e cantava de forma bastante melancólica, compunha letras e as harmonizava com uma melodia marcada pela saudade. Quem ouvia tinha saudade do que nem sabia, talvez do que nunca sequer tivesse vivido. Eu sentia tanta coisa das quais nem sei o nome, mas que eu tinha algumas coisas eu tinha. Era um transbordamento, um sair de dentro de mim mesmo, um caminho em direção ao sublime, ao êxtase, à vida em seu estado mais primitivo.
Lembro-me de quando o homem assim cantou em um daqueles remotos fins de tarde:

Até parece que o mundo
não está mais aqui
tudo tem mudado
tudo tem se deslocado

Até parece que as faltas aumentaram
o vazio dentro de mim é tão grande
os passos repetidos
os lugares comuns
os amores tantos perdidos

Até parece que tudo se inverteu
não se reconhece na primavera as flores
no outono as folhas
no inverno as noites frias e longas
está tudo tão mudado

Mas eis que as coisas mudem
o novo sempre vem
não é isso que dizem
até parece que os sentimentos também mudam
mas creio que os sentimentos não mudam não

Ainda somos iguais por dentro
talvez soframos até mais
Eu, já cansado,
Saio e entro do meu quarto
Sento e olho todo esse rio de tanta paz
e apenas sinto saudade
saudade de coisas perdidas
de olhares não retidos
de beijos não conseguidos
O mundo está diferente
mas as pessoas ainda sofrem de saudade
o vazio só faz aumentar
não importa o santo ou a idade
eu canto na beira do rio
por ser ele mais calmo que o mar



Lembro-me desta melodia, letra por letra, verso por verso, se tivesse mão acho que também seria capaz de tocá-la no violão, só de ouvido, nota por nota.
E também me recordo de uma conversa acontecida nas margends do rio, essa foi no fatídico dia em que ele conseguiu tomar-me, embora confesse de antemão que me deixei pegar.
A conversa era mais ou menos assim:
-E aí Seu Manoel, como vai a vida? , perguntou, meio curioso, meio ansioso, um outro velho pescador daqueles lados de lá.
Com o tradicional tom alegre e divertido respondeu Seu Manoel:
- Arrastando a carga eu diria. E soltou alguns risos mais frenéticos do que regados por sinceridade.
- E a carga vai muito pesada? Insistiu o outro velho pescador.
- Nem muito, nem pouco, mas está diferente. Não é mais a mesma carga. E esboçou um tom triste e nostálgico.
- Como assim? Era insistente o tal, meio chato até.
- Não sei, as coisas mudaram tanto. Hoje mesmo estava pensando, há alguns anos, demorava-se mais ou menos uns seis meses para que a carne de um boi estivesse boa para se comer, hoje, em um mês ela já está boa. O mesmo acontece com o frango. Vejo hoje que um frango já pode ser comido em menos de um mês, antes, também se levava em média seis meses para ele estivesse bom. O mundo está correndo demais. Tudo parece que anda mais rápido. Das minhas netas, algumas já estão bem crescidas para a idade, com as minhas filhas não foi assim. Cedo já se começa a namorar, tudo acontece bastante cedo hoje em dia. Mas, enfim, dizem que é outro tempo, que as coisas mudaram, eu estou velho mesmo, ainda penso em quando as coisas tinham seu próprio tempo, em quando se respeitava esse tempo. O fato é que tudo anda rápido demais pra mim.
- É mas o mundo está assim mesmo Seu Manoel, pra onde se vê só se fala em velocidade, tecnologia, é tudo bem rápido hoje em dia, de lerdo já basta nós que estamos velhos né! , e deu algumas risadas leves e espontâneas, um tanto debochadas.
- É! Mas ainda restam alguns lugares calmos, como esse rio aqui, lugares que andam devagar. Gosto de vir pescar porque encontro um pouco da calma que ainda não se perturbou, do mundo que ainda não se agilizou e se modernizou. Aqui, consigo ouvir um pouco dos pássaros, sentir o cheiro das árvores, provar do sabor do vento que bate em meu rosto e varre de minha mente tristezas constantes. Ouço apenas a batida do meu coração e sinto o ritmo certeiro da respiração. Diga-me companheiro, onde, lá fora, podemos ouvir a batida do nosso coração, quanto mais o ritmo da nossa respiração? O olhar rascunhou um brilho longo e profundo.
- Em nenhum lugar eu diria. Talvez nem quando vamos dormir, eu, pelo menos, fico preocupado quando vou dormir, meus sonhos são bem agitados, eu durmo com medo, medo de morrer e medo de que algo ruim aconteça com meus filhos, netos, enfim...
- Eu durmo ouvindo os carros que não param de passar em baixo da minha janela. Meu Deus! Nunca vi tantos e cada vez mais rápido eles passam, frenéticos, enlouquecidos. E o que dizer dos ônibus, certo dia tive que pegar um deles, estava simplesmente lotado, acho que não havia espaço sequer para uma formiga, um caindo por cima do outro, pessoas discutindo porque não cabiam naquele espaço, crianças chorando assutadas, algumas almas já se encontravam desmaiadas nos bancos, cansadas, em busca de alguns minutos de sossego, em busca do sono como remédio para fugir daquela loucura. Lembro-me que, nesse dia, olhei pela janela e vi um lagarto que dançava por entre pétalas cor de rosa caídas de uma bela árvore que temos na Avenida da Saudade. O lagarto no meio das pétalas dava uma belíssima imagem para um quadro, daqueles do tipo que parecem até rabiscos de criança. O fato é que o lagarto olhava tudo com um recorte meio assombrado. Dava pra perceber, por trás do vidro um pouco sujo do ônibus, como ele olhava assustado, como seus olhos estavam marcados por um tom de espanto, deixando transparecer uma espírito atônito, uma alma deslocada do seu lugar calmo e coerente habitual e despejada em um fluxo diluído, rarefeito, despedaçado, onde perdem-se as referências, há apenas uma multidão, seguida por outra e mais outra...
- É, mas está por demais pessimista meu caro amigo. Sempre te acho uma pessoa tão alegre, afeito às piadas, a uma boa gargalhada, fazendo sua música, rimando seus versos. O que te tem acontecido, de onde vem toda essa melancolia?
- Não sei, talvez dos dias, dos anos. Minha vida tem se tornado bastante enfadonha. Acordo cedo, bem cedo todos os dias, pois não consigo acostumar-me a acordar tarde. Assim que levanto, vou para o sítio. Muito dele já não é mais meu. Vendi mais da metade por causa da crise de uns vinte anos atrás. Fiquei apenas com aquele pedaço de chão que tem uma bela cachoeira, uma pequena horta onde planto alguns tomates e verduras,dependendo da estação, e um lugarzinho onde crio alguns bezerros e cabras. Aliás, interessante as cabras, tenho com elas conversado bastante, são desconfiadas, parecem desse mundo também não gostarem tanto. Quando chego em casa, almoço. Almoço bem devo dizer. Orgulho-me de ao menos comer bem e saber desfrutar de minhas refeições. Hoje, percebo que já não se come como antes, também na comida, as pessoas mudaram. Você é o que você come não é! Já ouvi dizerem isso. É a mais pura verdade. Há crianças que por não comerem carne, por exemplo, se desenvolvem mais rápido do que outras, algo de hormônio, é ouvi falar. Outra bagunça dos dias de hoje. Falando nisso, você sabe da história do jacaré?
- Não sei não! Que história?
- Vi em um desses jornais da televisão que os jacarés estão todos virando gays e deixando de se reproduzir?
- Como? Explica isso direito homem! Perguntou meio espantado o outro pescador esquecendo na terra o anzol que outrora tentava colocar na vara.
- Funciona mais ou menos assim. Os rios hoje em dia estão cada vez mais poluídos, muito material tóxico vai parar nas águas e isso acaba tendo sérias consequências. Segundo uma pesquisa, certas substâncias tóxicas presentes em um rio de uma região que não me lembro agora qual é , fizeram como que os jacarés que ali viviam passassem a comer plantas contaminadas e, em razão disso, começaram a desenvolver mais hormônios femininos do que masculinos, o que fez com que eles procurassem menos as fêmeas e se reproduzissem menos. Ou seja, está tudo uma bagunça.
- Pode ser, que coisa incrível essa do jacaré, bom, mas as mudanças também trazem muita coisa boa, o mundo hoje não é tão ruim. Nesse ponto, o outro pescador já voltara a pegar o anzol da terra e se concentrava em armá-lo na vara.
- Não, não é mesmo. As pessoas parecem felizes, vivem, lutam consigo mesmas e com todo essa bagunça cotidiana. Eu é que não estou bem, eu é que não me conformo, não consigo me conformar. Eu é que todos os dias apenas acordo, durmo, ando de um lado para o outro palitando um palito entre meus dentes há muito já podres. E assim vou, coloco uma bela roupa, visto meu chapéu, saio, converso com alguns sobre coisas que no fundo me irritam, volto pra casa, janto, assisto aqueles programas enfadonhos na televisão que me distraem e acabam fazendo com que eu canse menos da minha falta do que fazer. Às vezes, pego meu violão, começo a cantar, ouço a vizinha gritando, “Continue que está muito bom”! Eu me sinto um pouco animado, mas a animação logo passa! Nunca gosto do que faço, acho que tudo que já ouvi é melhor do que tudo que já compus. Bom, mas de uma coisa eu ainda gosto: vir pescar todos os dias. Passo aqui meus fins de tarde, longe de tudo que me atormenta, longe de vozes e discussões, longe de carros, pressa e multidão. Acho que agora estou em uma fase na qual preciso encontrar a mim mesmo, ou reencontrar-me comigo mesmo em algum lugar onde esqueci um pedaço de minha alma, a nota de alguma canção.
- Belas palavras meu amigo, belas palavras....
De repente, a conversa se interrompeu, senti que algo me fisgava, me cortava. Fui arremessado para fora da água com força, com firmeza. Em um rápido movimento de volta, pousei meus olhos nos olhos verde cor de mar do pescador que tocava violão. Seus olhos estavam ligeiramente marejados, molhados, como eu sempre tivera a impressão de que estavam, mas, dessa vez, os vi de perto, não mais turvos entre a água e o ar. Agora, era eu um peixe fora da água, mergulhado naqueles olhos verdes cor de mar, olhos dos quais eu nunca me esqueci.
O pescador depois de me fisgar, colocou-me delicadamente, revelando toda a graça e a delicadeza que lhe eram peculiar de volta na água para que nela eu voltasse a navegar.

Ouvi ele dizendo:
- Toma seu rumo amigo, acho que aí embaixo deve ser melhor que aqui em cima. Pelo menos parece um lugar mais protegido, confortável. Aqui em cima você seria mais um lagarto em meio às pétalas cor de rosa, de todo, eu já tenho tanta coisa que nem sei mais o que eu tenho. Às vezes, confesso que acho que não tenho nada.
Essas foram dele as últimas palavras que eu ouvi, naquele dia. Nos outros, ele não apareceu mais para sentar-se à beira do rio, tocar seu violão, contar a mesma piada do dia anterior, entoar algumas notas de saudade, olhar o céu, a tarde indo embora e soltar aquele suspiro tão forte e profundo que parecia entregar todo o seu coração e toda sua alma, deixando que a tarde os levasse embora junto dela. Nesses instantes de intenso suspiro que agora me voltam vagos e esfumaçados, era como se o coração daquele pescador não fosse desse mundo. Penso que ele deve ter sido, de fato, de algum outro mundo, mais calmo, mais repleto de sentidos, ligeiramente mais sublime. Seu caminho era mais largo que o caminho dos outros pescadores, feito de fatos mais perenes, de menos fugacidade.
Talvez, ele pertencesse àqueles fins de tarde, somente a eles, a mais nada.


Se acordar meio torto
meio tonto
meio vivo
quase morto
procure os lugares mudos
aqueles onde se guarda o silêncio
faça neles sua alma chorar
lá não existe mudança
tampouco tempo
o único som é do correr da água
e do bailar do vento

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A Contadora de histórias



Ela sempre usava um xale, às vezes, eu notava que ele era colorido, bastante estampado com algumas flores ou desenhos de forma familiar, que, aos nossos olhos, parecem estar presentes em todos os lugares. Outras vezes, ele era apenas de uma cor, branco, vermelho ou negro. Quando era negro dava a ela um ar de superioridade, quase de coisa inalcançável, sublime, fria e distante, levemente pensativa, detentora da ponta da eternidade ou do prazer efêmero do mais envolvente dos instantes. Vestida com um xale negro ela estava da última vez que a vi e vestia apenas isso: um xale negro. A brancura límpida, diáfana, do restante do corpo contrastava com a negritude do tecido, ela figurava de um tom enegrecido na claridade, quase como uma vertigem, sua imagem fugia aos meus olhos, adormecida e doce, tal como sua voz que falava. Era um dia de chuva, frio, com ventos acelerados, almas agitadas, tons e ritmos misturados, se parecia com uma receita de melancolia sem saudade, cheirava a abacate maduro, esperando algo, esperando alguém, esperando alguma palavra, a derradeira história. E ela veio. Quase que escondida, foi aos poucos desfazendo-se do seu véu empoeirado e despejou-se no tecido das almas ali presentes.
Lembro que naquele dia éramos quatro mais a contadora de histórias. Coberta pela escuridão do xale, ela contou de um rei, bastante sábio e nobre, demasiadamente poderoso e que se tornara também, em virtude da vida e das coisas do destino, demasiadamente humano. Seu reino era o mais extenso de toda idade antiga, abrigava povos de variadas cores e vozes, terras de inúmeras plantas e solos, árvores de incontáveis formas e frutos, rios de múltiplas margens e velocidades, mulheres de todas as belezas e idades, homens de inacreditáveis forças e vaidades, crianças de incríveis sonhos e curiosidades, velhos de todas as dores e saudades. O rei assim se tornara rei aos quinze anos quando já era um bom lutador, hábil na guerra, rápido nas emboscadas, inteligente nas negociatas, embora nesse tempo ainda fosse bastante convencido de si mesmo. Sem o perceber, o rei já estava cansado e aborrecido de si mesmo, apenas se iludia com vitórias sem trégua, com louvações sem verdade, com promessas sem dignidade. Seu mundo era festa, milagres, conquistas, seu poder parecia não ter fim, sua glória e força, típicas da juventude, faziam-no pensar que viveria mil anos, apenas a sua consciência alertava de vez em quando, sutilmente, que tanta certeza resvalava na soberba e vaidade, não deixando de tangenciar a estupidez e mediocridade. Até que um dia, o rei com um mundo todo a seu dispor, cheio de vitórias e promessas pela frente, descobriu que não chegaria aos trinta anos de idade. Ele começava a ser lentamente devorado. Por um lance do destino ou castigo dos deuses, sua pele até então fina, macia e delicada, passou a ser consumida pouco a pouco, castigada por feridas que vinham de dentro pra fora, deformada por fantasmas, queimada por chamas impiedosas, estupidamente comida e mastigada por ratos da escuridão. O rei era agora leproso aos vinte e dois anos de idade. Para que seu vasto reino não se assustasse com sua desintegração e deformação em vida, cobriu as mãos com panos brancos, revestiu a face com uma máscara prateada de formas bastante perfeitas, harmônicas e delicadas imitando um rosto que parecia ser o da mais bela das mulheres já existentes neste mundo e disfarçando o horror do mais nobre dos reis. Lançou-se uma sombra sobre a sua própria existência cada vez mais fraca e, ao esmo tempo, nobre. Doente, o rei se tornou maduro, pensativo, demorava-se nas questões sobre coisas do dia-a-dia que antes sequer se debruçava, esquecia por mais tempo seus olhos nas terras que conquistara, terras que até então ele sequer parara para admirar. Sua voz, sempre macia e antes recortada por um fino tom autoritário, agora era marcada pela mesma maciez, mas por uma doçura e temperança próprias daqueles que perderam a beleza do corpo e encontraram as respostas na visão de suas almas, posto que a visão do primeiro seria por demais insuportável, intolerável.
Assim, o rei aparecia aos olhos do mundo, cada vez mais fraco e, no mesmo movimento, cada vez mais autônomo, amoral, livre de vaidades, corroído de corpo, adormecido e engrandecido de alma.
Nos anos ligeiramente reclusos da doença ninguém nunca via seu rosto. Quando o rei morreu, ao tirarem sua máscara prateada, apenas um som mudo, um contorcer dolorido de lábios, um umedecer repentino de olhos desenhou-se nas expressões de alguns. Aquilo não era o rei, outrora tão lindo, jovem e saudável, era apenas um rosto de monstro, devorado em algumas partes, desfeito em sua perfeição, deformado por uma doença que lhe atacou a casca, mas conversou um fruto eterno e delicioso. Sobre seu corpo morto, docemente colocado, esquecia-se um xale negro, bastante perfumado a exalar um cheiro de lírios e abacates.
Foi quando o xale deslizou suavemente pelos seus ombros, sem pressa, ela os recolocou no lugar com um simples e lento movimento de braço e continuou, agora já era outra a história...
Em um dos cantos do extenso reino de um belo e valente rei, havia uma menina. Tinha lá os seus dezesseis anos, para os outros era ela uma menina, para ela mesma, já era uma mulher. Na verdade, ela era uma daquelas pedras preciosas, cujas condições de existência fizeram os anos pesarem mais, tornando-as joias maduras e delicadamente lapidadas. De olhos pequenos, tentadores, envergonhadamente decifradores, tingidos por um tom castanho e emoldurados por longos cílios bastante enegrecidos, a menina sempre tivera uma olhar perturbador combinado a uma alma revestida de névoa bastante espessa e densa, temperada com incertezas e mistérios. Aos olhos do mundo, ela pairava como uma alma suspensa, que infligia penas e castigos com um simples olhar. Muitos já haviam sido os que naquela aldeia se debruçaram sobre o segredo daqueles olhos que ora pareciam generosos, ora pareciam mesquinhos e egoístas, às vezes eram perdidos e vagos, como suspiros desencontrados, em outras, eram certeiros e retos, como seta mirada e cravada. De todo sempre eram belos, como um desmaio doce de fim de inverno e começo da primavera, como um desabrochar tímido e suave da mais bela das flores do campo, como um aroma sem nome, sentimento sem dono, palavra de repente muda e eterna. Os olhos lhe preenchiam o rosto, davam a ele equilíbrio e formas perfeitas, combinando com a boca de lábios nem tão finos, nem tão grossos e com o nariz altivo e onipotente, destes que exalam o desejo e a certeza de que com a beleza podem dominar o mundo, deitarem as almas, subverterem o próprio destino e, por fim, regarem a terra com lágrimas semeadas no vento de um excesso de perfeição.
A menina se chamava Helena, tal como Helena de Tróia, a mulher que ocupou docemente e detalhadamente dois corações inimigos na política que, por interesses econômicos, provocaram uma guerra de dez longos anos. As bocas dizem que, além dos interesses comerciais, entranhado e pregado como feitiço nos seus corações, gritava o amor pela mesma mulher, a durar, soberanamente, uma vida toda. Os pais da menina da nossa história adoravam o nome Helena e, principalmente, admiravam a mulher que o portara em outros tempos, assim não hesitaram em dar à sua filha o mesmo nome, desejosos de que ela também conservasse ao menos um pouco da graça e majestade da primeira. A beleza seria demais, esta os pais honestamente não almejavam, queriam apenas a alma altiva e parecida com a de uma heroína de um belo romance. Mas, quando a menina nasceu, viram que a beleza a escolhera, ainda não sabiam da alma, dos seus desejos e das suas insatisfações, mas a beleza já estava à mostra, uma beleza tão grande que desde o começo já incomodava.
À medida que o tempo ia passando, Helena mostrava um certo pendor para as artes do corpo, dentre elas, a dança. Dançava lindamente! Seus movimentos eram coordenados, verdadeiros, intensos, era como se em cada um deles sentisse a mais gloriosa das alegrias ou a mais pungente e dilacerante das dores. A sincronia de seu corpo era perfeita, os cabelos dançavam e se penteavam no mesmo movimento do restante do corpo. Dançando, ela era simplesmente insuportável, não só pela leveza e exatidão com que se fazia uma bailarina sobre o palco, isso muitas outras tinham, mas, acima de tudo, pela beleza de seu rosto, pela harmonia do seu corpo, pela seda esvoaçante a confundir-se com seu cabelo que, combinados aos passos da dança e ao ressoar da música, faziam-na testemunho do sortilégio despejado pelos deuses sobre essa terra habitada por homens tão vis, tão cheios de si, e tão estupidamente pequenos. Se as mulheres sentiam inveja, os homens enlouqueciam ao vê-la. No início, tratava-se apenas daquela loucura própria dos arrebatadamente apaixonados, depois tornava-se insanidade mental, os homens deixavam casa, esposa, filhos, gatos e cachorros e vagavam pelas ruas nus gritando o seu nome, deitavam sob a janela do seu quarto, uivavam como cães abandonados, assim viviam dias e dias, esperando ao menos um daqueles olhares, ah o prazer de decifrar aquele segredo navegava na alma suspensa de cada um daqueles homens, loucos eles ficavam, era como se a beleza da dançarina não pudesse conviver com a razão e moralidade mesquinhas a tornar o homem dependente e fraco. Sua beleza só colhia lírios, lírios que como já dizia um poeta, existem apenas no osso da fala dos loucos. E enquanto os homens perdiam a razão, Helena continuava linda e silenciosa, falando pouco, reparando demais, dançando e vertendo vendavais.
Foi quando na pequena aldeia em que vivia, não demorou muito para que os boatos corressem soltos, como plumas despregadas de um travesseiro e lançadas ao vento indo cada uma para um lado, perdendo-se levianamente para sempre. Todos falavam que a menina Helena visitava o rei, dono e senhor de todas as terras próximas da aldeia em que ele vivia, e ainda diziam que ela fazia suas visitas no seio de todas as madrugadas e com ele, vinha tendo já há algum tempo, uma tórrida história de amor.
De fato, Helena saía todas as noites de sua casa, vestindo apenas um xale negro, mais nada, e dirigia seus passos coreografados para o castelo onde vivia o rei. Entrava por uma porta secreta que ia dar diretamente no quarto deste último. O rei já notara desde muito a beleza daquela menina que aos seus olhos sempre fora uma mulher, muitos dela falavam, outros tantos por ela enlouqueciam, seu exército, inclusive, já tivera uma baixa considerável no número de homens em razão da loucura que acometia muitos dos que a viam. Todos esse poder a emanar de uma mulher o fascinava, para ele era como um desafio novo e empolgante que fugia um pouco daquela acomodação e mesmice cotidiana de sempre ter em sua cama mulheres comuns, medianamente belas, estupidamente frescas e totalmente vazias. O rei queria mais, Helena parecia ser mais. Ela, por sua vez, sempre o achara belo, altivo, imponente, forte, com mil anos de vida pela frente. Acima de tudo, ela o achava bom, honesto, nobre, um verdadeiro rei, destes que defendem o seu povo e não perdem a sua dignidade.
O primeiro encontro foi simplesmente mudo. Quando os olhos do rei pousaram naqueles olhos misteriosos de Helena, eles docemente se esqueceram ali. Não conseguiam desviar-se, não podiam suportar-se de tanta beleza, lágrimas explodiram insossas e já apaixonadas, o rei a tomou em seus braços, a beijou longa e deliciosamente. Depois, esquivou-se, a olhou por inteiro, pediu, sedutoramente, para que ela dançasse pra ele, só pra ele. Combinando o movimento do seu corpo com os movimentos de mão com que fazia bailar o seu negro xale, Helena dançou como um imenso campo de girassóis, iluminada, uniforme, harmônica, petulante, misteriosa, mutante e, se fez, em um só movimento, mulher e criança, sua dança tinha a graça pueril da infância e também a sensualidade branca do fruto levemente amargo e já maduro.
A cada noite pareciam mais apaixonados. Helena mostrava-se diferente aos olhos da família e dos habitantes de sua aldeia, sua dança já era menos petulante e mais natural, seus modos menos desesperados e mais doces, sua voz menos entrecortada e mais completa, seus dias menos longos e com mais sentido. O rei continuava, como sempre fora, conquistador e generoso, com a gota pingada pelo verdadeiro amor, parecia ainda mais lúcido e coerente, mas continuava levemente arrogante, agora então, que conquistara a mulher mais fascinante de todas as terras próximas, não cabia dentro de sua vaidade e grandeza, para alguns dizia que não viveria apenas mil, e sim dois mil anos, quiçá por toda a eternidade!
Até que em uma das madrugadas, o destino se apressou em não dormir depois que os homens. Naquela noite, Helena dançou como nunca antes havia dançado, o rei a beijou de forma tão interminável que ela julgou estar em um deserto lindamente longo, com um céu tingido de vermelho, salpicado por algumas manchas róseas, perfumado por um cheiro de eternidade, de perfeição, cantado por vozes afinadas e melancólicas. Acordando daquela espécie de vertigem, Helena, sem querer, no mais profundo e inexplicável instinto, sentiu que o xale queimava sobre a sua pele, ardia feito brasa incontida e esfomeada, pronta para devorar e morder a própria noite. Em um impulso frenético, atirou o xale enegrecido na claridade derramada pela lua, sobre os ombros nus do rei. Assustada, Helena correu em direção à saída, sem entender, o rei a seguiu e gritou seu nome desesperadamente, como pressentindo um mal que ainda não conseguia distinguir. Pode vê-la afastar-se pelo corredor cinzento, toda nua, grande, muda. Foi a última vez que a viu.
No outro dia, Helena descobriu que o rei fora acometido por uma das doenças mais terríveis de todas as eras e épocas. Segundo soube, ao acordar pela manhã, ele viu suas mãos já inteiramente deformadas, sua pele a verter feridas em carne viva, em breve, ele todo seria uma sombra monstruosa do que um dia foi. Inutilmente tentou visitá-lo, o rei não queria vê-la. Elas apenas o via de longe, quando este não podia vê-la no meio da multidão. Nestas ocasiões, notava que ele sempre aparecia escondido sob uma máscara prateada quando já não era mais o homem que ela tanto amara e que, dolorosamente tinha consciência, ela castigara não com a loucura da mente e sim com a desintegração do corpo, de toda e qualquer vaidade, em uma jogada na qual a razão se faria cada vez mais lúcida, não mais arrogante, apenas nobre, consciente de seus limites, não mais seduzida pela ilusão da eternidade do corpo, perecível e efêmero, e sim condutora de uma alma que se conservaria bela, serena, como um diáfano rio que se desprende das suas margens correndo livremente, sem moralidades que o prendam.
Depois da última vez que o viu, Helena olhou-se refletida nas águas de um rio próximo à sua casa. Odiou toda a sua beleza, rasgou com fúria o reflexo do seu olhar, e, em meio a tanta angústia e dor, descobriu que a máscara prateada usada pelo rei imitava exatamente as formas e traços da sua face. No entanto, não levava os seus olhos, apenas não pesava nela aquele segredo. Era como se o rei combinasse, na agonia da sua doença, a perfeição do rosto da mulher amada à generosidade gratuita que sempre se refletira no seu olhar. Confusa e quase que enlouquecida, Helena correu em direção a algo que não tinha nome, a um nada no infinito, procurando fugir daquela imagem que esfumaçava sua mente, seu rosto nos olhos dele, seus olhos na alma dele, sua dança como expressão perpendicular de um desejo horizontal. Nunca mais ela dançou, a maldição de seus olhos a condenaram à solidão, perdida, algumas pessoas ainda contam que ela vagava chamando por um nome, usando apenas um xale preto a ouvir as vozes mudas do universo em um vácuo de poesia e recordação.
Com um breve e dolorido suspiro, ela terminou a história daquela noite. Novamente, deixou cair o xale que cobria um dos ombros revelando a mesma pele branca e profunda de todas as madrugadas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pés de Pipa

Era um daqueles dias cinzentos, amenos, quase reticentes, perdido entre nuvens, vago, sofregamente ausente. Dia nublado, distante, sacudido por ventos e estupidamente seco. Não havia chance de chuva, as nuvens se encontravam no alto, mas não verteriam água, queriam um tempo maior de exposição, queriam ser vistas, sentidas por qualquer um que sob elas passasse.
Coberto por sombras o menino acordou, o quarto estava escuro, ele pressentiu, com um leve tom de melancolia recortada por uma sutil frustração, que aquele seria um dia de chuva, ou seja, nada de pipas. Nada de cores dançando pelos ares, nada de movimentos leves e encantados, nada de doce ou de suave, os pássaros ficariam guardados no recanto do quarto. Mesmo assim, levantou-se. Estava bastante desanimado, quase se arrastando abriu a janela, e, ao levantar os olhos para o céu, seu olhar esqueceu-se por um intervalo de tempo entre as nuvens, deixou-se penetrar pela névoa, turvou-se pelo vento, foi roubado pelo destino. Em instantes, foi tomado por um brilho misterioso, fez-se belo e completo, sim, os pássaros voariam! Não havia sinal de chuva, o vento era farto, tudo era vento, as cores bailariam pelo palco suspenso, assim como o prazer e a alegria primitiva e selvagem pelos seus olhos bailavam agora graciosamente.
Foi assim que a pipa do menino voou pelos ares, com a leveza de uma rara lembrança que pousa na sombra e descansa delicadamente sobre a relva. Outras apareciam em número cada vez maior fazendo companhia à primeira. O céu virara uma festa. Até que, em uma confusão de vertigens e movimentos, uma das pipas desmaiou docemente sendo tocada e resvalada pelo vento. O menino viu perder-se de suas mãos o fio branco que ele até então quase que inconscientemente segurava. O fio foi se esvaindo, tal qual um pedaço de gelo quando o seguramos por um tempo em nossas mãos sob uma réstia de água líquida e, quando percebemos, vemos que a matéria sólida vai se diluindo, fundindo-se com a líquida, tornando-se ela também líquida, tornando-se de repente nada. O menino quando deu por si não segurava mais nada. Espertos, alimentados por uma sobra de esperança e incendiados por um triste sentimento de possível perda, todos os outros meninos voltaram-se ligeiros e curiosos para a pipa que caía por entre o tecido dos ares e, ainda tiveram tempo de ver que ela caía entre os muros de uma casa do bairro. Justo aquela casa! Poderia ser qualquer outra menos aquela, menos aquele cheiro de incenso a pairar através das paredes, menos aquelas árvores escuras e opulentas, menos aquele silêncio entrecortado por suspiros infinitos e sobrenaturais, aquela tristeza toda vestida de negro, aquela saudade toda recortada pelo medo.
Pousou os dedos trêmulos sobre a campainha fria.
Da mulher a primeira coisa que vira foram os pés. E que pés horrorosos, envelhecidos, com veias esverdeadas saltadas, unhas pintadas de vermelho e compridas, de aparência grossa e firme. Dedos compridos, separados, sola reta e média. Duro. Depois, o seu olhar infantil deitou-se sobre o corpo, bastante magro, com formas desiguais, ombros caídos, cansados, parecia ter uma armadura nas costas e esconder nela o mundo, os medos, as amarguras, as lágrimas retidas, as palavras sufocadas. Os ombros insinuavam ser sua proteção e sua fuga diária. Já os olhos eram ausentes, distantes, lançavam olhares longos, tão longos como uma vasta planície de um campo verde molhado pelos raios do sol e decorado em certos pontos por algumas flores silvestres. Também eram muito tristes, a tristeza daqueles olhos perturbou o menino, não só pela melancolia e impressão que nos causa as profundas e misteriosas tristezas, mas também porque essa tristeza não vivia naqueles olhos solitária, ela era recortada por uma fina sombra de maldade, sutil e perversa, fria e desconsoladamente perdida.
-O que foi garoto, perdeste algo? - disse ela mostrando uma voz rouca e resignada, quase que indiferente à vida e às outras coisas deste mundo.
-Sim, minha pipa! – e essa palavras saíram trêmulas e engasgadas, sofridas e sufocadas, como se o garoto tivesse engolido uma azeitona e esta estivesse entalada na sua garganta, impedindo que a coragem se impusesse altiva e imponente ao medo – Poderia ir apanhá-la, corro rapidinho aí no quintal e saio com ela debaixo do braço mais rapidinho do que entrei? - perguntou ansioso e nervoso por fim.
-Tem medo de mim garoto? Não há problema em entrar e pegar a pipa, fique à vontade. Só não olhe através da única porta pela qual vai passar, a porta por onde saí e vim ter com você. Se olhar, nunca mais terá sua pipa de volta! – disse ela em um tom risonho e quase cínico, que fez com que o medo do menino fosse, por um curto espaço de tempo, substituído por um sentimento de irritação ingênua e estridente.



A mulher abriu o portão de ferro que separava a rua da casa, cortou o silêncio um ruído fino e quase assustador proveniente do atrito do ferro velho que reavivou na mente do menino os seus mais profundos e esquecidos pesadelos. Em um balançar de mãos, ela mostrou o caminho e não esperou o menino passar. Andou antes dele e entrou na porta que o menino não podia olhar. Fez um movimento lento e pensativo para fechá-la, mas quando a porta já estava quase encostada, ela recuou, deixou um fino espaço por onde entrava o vento de fora e saía o ar esfumaçado e úmido de dentro.
O menino sentia seus passos ecoando no silêncio fúnebre da casa tomada pelo verde de milhares de plantas que nela habitavam, e à medida que se aproximava da porta proibida dentro dele se misturavam sentimentos regados por uma sutil melancolia, entremeada por uma breve e séria ansiosidade em saber o que havia por detrás daquela névoa espessa a sair vagarosa e misteriosa de dentro da porta entreaberta.
Foi quando o desejo foi maior que o pudor e o próprio medo a devorar os escrúpulos da infância. O menino pousou os olhos delicadamente na fresta deixada pela senhora e seus olhos lançaram um olhar inocente e longo, demasiadamente longo, vidrado e temperado com uma pitada de curiosidade juvenil e ingênua. Em instantes era como se aquele olhar fosse como um desmaio doce, no qual os sons são todos transformados em confusos e perdidos lamentos, o olhar era um próprio lamento a mergulhar deliciosamente e perigosamente nas águas turvas de um oceano infinito e desconhecido.
Havia três mulheres, a senhora que abrira o portão velho de ferro, e outras duas, igualmente velhas e provocantes em seu mistério e leve tom de ironia diante do mundo. Só uma das mulheres falava, as outras duas apenas escutavam lançando olhares longos e pensativos que, às vezes, esqueciam-se no tapete colorido que forrava a sala para serem logo e cuidadosamente pousados nos lábios trêmulos que falavam:
-Da minha vida pouco ou nada entendi, me sinto hoje tão vazia, tão triste, às vezes, ao olhar no espelho me sinto mais madura do que sou e até mais bela, como se a tristeza que me envolve me fizesse de repente mais bela, portadora daquela beleza séria, distante, fria, inalcançável, da qual muitos falam, alimentada por uma seriedade e gravidade quase diáfanas. Lembro de tantas coisas que tive, e, ao mesmo tempo, creio hoje que nunca tive nada. Perdi, miseravelmente, quase tudo aquilo que acreditei ter um dia. E como eu comprava! Mandei vir da Europa todos os quadros que imaginam, obras de arte valiosíssimas, tipos franceses de Debret e Cézanne, espanhóis de Velázquez e Picasso, os sonhos e a realidade única de Van Gogh, a inteligência e perfeição estética de Da Vinci, as delicadas e sublimes esculturas de Michelangelo, perfeitas no seu modelo renascentista, sagradas e profanas, deliciosamente encantadoras, trouxe peças de museus, acumulei em minha biblioteca milhares e milhares de livros que somem pela parede e vivem através dela sob camadas densas de poeira, títulos dos grandes russos, dentre eles, Dostoiévski, Tolstói, Nabokóv, Tchekhov, e o inspirador de quase todos Nikolai Gógol romances franceses belos e trágicos como os de Flaubert, Stendhal, Guy de Maupassant, Balzac, Proust, irlandeses, como as essências esplêndidas de Bernard Shaw e as páginas intermináveis de James Joyce, pérolas inglesas de Oscar Wilde, que devassaram-me a alma e expuseram vis e cruéis meus vícios e pecados mais sórdidos, a palavra doce e pungente de Virginia Woolf, clássicos alemães como Goethe que expuseram-me os sofrimentos do jovem Werther que nunca foram maiores que os meus, nem sequer serviram para me consolar dos meus, nunca desejei a morte, pareço covarde, sequer tenho coragem de enfrentá-la, de em mim provocá-la, sou, entre os seres humanos, a espécie mais vil e mais cheia de saudade do que nunca teve, enganando as horas, os dias, os anos, sufocada por tudo que tive. E banhei-me de filosofias, todas as possíveis e imagináveis, de Sartre, Nietzsche, Spinoza, até símbolos do pensamento moderno como Voltaire e Rousseau. Me fizeram companhia por longas horas as belas palavras de um Saramago, o estilo de Onetti, a poesia de Borges e T.S. Eliot, a magia de Gabriel García Márquez, a politização e denúncia social de Galeano, ah! E as palavras de minha terra, os versos de Drummond, Vinicius, Cecília, as histórias de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, a intensidade sofredora de Clarice... Minha vida foi nada mais que uma sequência sutil e irremediável de perdas que eu tentava esconder de mim mesma e não me faltavam os livros, quadros e peças de decoração. Hoje, estou encravada dentro de um palácio onde não cabe tudo aquilo que comprei, pedaços do mundo inteiro, peças soltas e cinzentas que não se completam, estão longe de montar o quebra-cabeça final, falta a peça derradeira, a palavra definitiva, o amor que nunca tive para preencher o vazio que hoje me corta e alucina. O preço de tudo que comprei, de tudo que construí, talvez nenhum homem deste mundo jamais saberá, só eu sei o preço de minha construção em ruínas, de meu mar de objetos invisíveis e que ardem em minha alma feito chama prolongada. Meu sofrimento é também estéril, estendido, entrecortado por sorrisos amargos que despejo preguiçosamente e forçosamente aos meus milhares de empregados, a servir bandejas de tédio e solidão. Eles colhem mansos e lotados de pena, meu olhar rompido, trincado e sujo. Cansado e, como alguns dizem, de uma ternura branca e ressabiada.



-No, entanto, não há sequer um só dia, desta minha miserável existência, que não me recorde, doce e suavemente de um sonho lindo. Ah! Como aquele lugar era lindo! Como ele era lindo! Havia uma grande casa de fazenda, de janelas azuis e paredes amarelas, a casa parecia antiga, do tempo da escravidão, das grandes fazendas produtoras de açúcar, de um outro tempo o qual a poeria da vida já foi deixando pra trás. O lugar tinha cheiro de terra, sopro de ar, e, bem no meio da grande casa, se andava por uma passarela longa, que, em intervalos regulares, era interrompida por algum lugar que do sonho eu não me recordo muito bem, eis uma área confusa, enevoada pelas zonas obscuras da lembrança de meu inconsciente insensato. Creio que eram regiões onde as pessoas poderiam sentar-se e conversar, olhar o céu, as cores do universo, a quietude mansa e imponente das montanhas. Mas, o mais lindo de tudo, era que, no fim desta longa passarela, que no meu sonho era percorrida rapidamente, sentava-se em um banco de madeira e do alto contemplava-se lá em baixo um belo e extenso mar, regado por um intenso brilho de sol, vidrado pela luminosidade reticente do cair da tarde, mudo e estático, tão expressivo, de águas tão abundantes, diáfanas e silenciosas. Confuso, um mar ao lado de uma casa de fazenda, as águas derradeiras encravadas no seio de uma montanha, deitadas graciosamente no colo macio e aconchegante dos campos. Mas, no meu sonho era exatamente assim. E me recordo de algumas crianças, belas e saltitantes, livres mergulhando toda a graça pueril que lhes é própria nas águas líricas daquele mar. E, no sonho, eu não estava sozinha, estava comigo um homem que eu vira, de fato, uma única vez, de relance. Atraiu-me seu olhar longo e terrivelmente belo, regado por um tom esverdeado, e seu rosto tinha feições que me pareciam tão jovens e, ao mesmo tempo, tão singelas que tocaram as cordas de algum canto de minha alma que ainda não tivera sido tocado. No mesmo instante, pousei sobre ele um olhar prolongado, cheio de um êxtase incontido e arrepiado a verter um desejo que parecia ter sob as camadas nebulosas de minha alma se acumulado durante séculos. Foi apenas um instante, minutos, que eu nunca mais me esqueci. Foi um homem que eu nunca tive, sequer dele sei o nome ou o som da voz, mas mesmo assim, mesmo nunca o tendo de fato, ele foi a única coisa que eu realmente tive na vida, aquele olhar foi e continua sendo a minha lembrança, a fuga de minha alma, o ecoar do meu silêncio, um sentido sublime, intocável para meu deserto cotidiano.
Nunca soube explicar o sentimento que tive diante daquele homem. Em momentos de aflição e desespero incontrolável nos quais os olhos refugiam-se sob camadas infinitas de lágrimas, tais como uma névoa espessa e densa, ao mesmo tempo, lenta, arrebato-me e me descontrolo diante da indisfarçável transparência de meus sentimentos. Aperto com força meus olhos, esfrego o rosto com as minhas mãos trêmulas, quero fugir desse ar que me sufoca e me liberta, que faz-me bela e também mesquinha, invejosa. Quero ter de volta ou poder ter aquela paz que há tempos já não sei mais qual é, uma paz que hoje apenas me espreita, mas segue pairando longe de mim, escondida, sombreada pelo meu medo e pelo meu amor. Amor incontrolável, indomável, distante de todas as outras leis que se possa ditar sobre os homens e sobre a terra. Amor do qual às vezes chego a ter medo, será pecado amar tanto assim, qual será a peça maior do destino pregada sobre meu desmaiado coração, completamente esquecido e desejoso de teus olhos, revoltado por uma saudade incontrolável, angustiado por um tempo longo, tão longo...
Vício de minha alma, canto do meu mais profundo ser, sonho do meu passado, brilho de meu futuro, sentido de meus sonhos, condutor de meus passos, te amo, inconscientemente, talvez assim não pudesse ser, as coisas fora de mim me culpam, me julgam, eu mesma me espreito na solidão de meus loucos devaneios, eu mesma me condeno até que seus braços me absolvam e neles eu pouse leve e docemente, tal como folha a cair sobre os campos verdes extensos, embalada pelas notas tocadas pelo vento, parecendo trocar com a paz que procuro um terno e doce abraço. Esquecida em teu olhar, mergulhada dentro da sua alma, contemplo a mim mesma, um tanto esfumaçada, um tanto lenta, longa, intensa, assim como os beijos que trocamos, infinitos, pueris, sinceros, ardentes, regados por um fina réstia de ternura a selar com uma perfeição rara a afinidade de dois espíritos eternos a se reencontrarem no oceano sublime dos tempos. De resto apenas me faço muda, entrego-me à vida como vencida, ficamos tais como dois seres suspensos, pairando acima do próprio céu, recolhidos dos olhares do mundo, dos sentimentos alheios, revestidos de pétalas de rosa e poesia, onde encontro enfim a minha paz.
E de repente, esta lembrança de outrora se junta, sutilmente e como que tomada por uma graciosidade gratuita, a esse lindo sonho que agora me parece como uma despedida desse mundo. Uma última imagem de minha vida solitária e ausente, uma imagem linda, na qual ao recanto e paz infinita de uma casa de campo, se unem a grandeza e a simplicidade do mar. Um mar que entra deliciosamente a desafiar as montanhas, montanhas que cedem, gentilmente, passagem para as águas derradeiras e infinitas nas quais elas mergulham com uma sensualidade primitiva e rara. Um lugar que no meu sonho reuniu todas as possibilidade de perfeição, no qual eu prometia a ele, de costas para a casa de janeles azuis e paredes amarelas e de frente para a plenitude brilhante do mar, um amor mais bonito...
Uma lembrança sublime, intacta, suspensa, a sustentar minha vida, uma promessa, um lugar, um pano branco estendido em pleno ar.
Um silêncio tomou conta daquele ar umedecido de lágrimas, cortado por uma grave densidade, esfumaçado, cheirando a saudade, estilhaçado por memórias, dores e perdas, pela vida vivida e melancolicamente lamentada.
O menino de repente se viu ali, envolto por aquela fumaça, confuso e amedrontado por aquelas palavras tão doloridas, desperto de uma espécie de anestesiamento que envolvera seu corpo durante o momento em que saboreara e mordera o fruto proibido. Seus olhos e seu medo o lembraram de que durante aquele espaço de tempo no qual uma voz doce e pálida parecia implorar sua atenção, ele violara a palavra daquela primeira senhora que para ele abrira a velha grade de ferro, mandando que pela primeira porta, ele não olhasse, apenas pegasse a pipa e fosse embora.
Saiu correndo, dominado por um sentimento de medo e náusea, ao abrir o portão não conseguiu conter o mesmo barulho feito pelas dobradiças da grade já bastante velha e isso lhe deu de repente a sensação de que tudo ali era tremendamente velho. A casa da qual ele sempre tivera medo lhe pareceu assustadoramente envelhecida, recortada e preenchida por pessoas também envelhecidas a tecer considerações sobre a vida, a render-se diante dos fatos e da malícia e tortuosidade de um destino ao qual todos nós teremos que responder um dia.
Enquanto andava, lhe voltavam feito sombras perfuradas as palavras que saíram daquele lábios que agora ele recordava enrugados e vulgarmente vermelhos. Quando já havia andando um bom pedaço, o menino lembrou-se da pipa. Caída naquele chão enfeitiçado, solitária, colorida, com seu ar espontâneo, livre e jovial, em meio a toda aquela casa ausente de cores, antiga cinzenta, amargamente triste. Ao sair da casa, com a alma agitada e ligeiramente amadurecida, ele nem sequer se lembrara da pipa, como se tivesse sido tocado por um sortilégio que advém dos detalhes do passado, da própria vida desintegrada diante de seus olhos atentos, ainda ingênuos, pueris e fascinados.
Em meio a confusões e imagens disformes e quentes, o menino fez um movimento sutil com o corpo para voltar, mas, lembrou-se daqueles pés, e, com um leve cair de braços combinado a um suspiro de forçada aceitação, continuou a caminhar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Embaixo de um pé de laranja

Foto de Fátima Chavarria


Eu queria apenas ficar sozinha. Chovia naquele dia, uma chuva fina, reticente, contínua, esfumaçada, quase como uma dor que dançava dentro de mim e que eu não sabia muito bem qual era. Sob a chuva eu saí correndo, sem rumo, sem descanso, meu peito arfava esburacado, a respiração era entrecortada, desigual, a água derramada pelo céu encharcava meu corpo, mas conservava seca a minha alma. Seca e pálida, surda e muda, sem nenhum som aparente, ecoando vozes distantes, embaralhadas. Enegrecida eu estava de amor, cortada e regada por um fio de desespero tecido pelas teias invisíveis da solidão. O tempo chuvoso, o céu escuro, nublado, as nuvens acumuladas umas sobre as outras, a atmosfera triste, melancólica e ligeiramente taciturna no entanto, aliviava um pouco a minha tristeza. Era como se o universo tivesse naquele momento um pouco de piedade das minhas aflições e angústias e, tal como meu corpo, se fizesse ele também vertedor de lágrimas, soluços e alucinações.
Aquele dia tinha sido horrível. As imagens voltavam vagamente, envoltas por uma névoa espessa na qual eu não conseguia penetrar, as lembranças tinham cores cinzas, com pequenas zonas verdes a saltar diante de minha atenta inconsciência da qual nada fugia, tudo ela controlava, até mesmo aquelas emoções das quais eu nem havia me dado conta ainda, tal era a confusão do meu estado de ser.
Foi quando deitei-me embaixo de um pequeno e delicado pé de laranja, um dos muitos que ficavam atrás da casa do sítio. Costumava passar minhas férias no sítio de meus pais, que antes fora de meus avós. Eram dias a desfilar quase arrastados, nos quais agradava-me demasiado me fartar do verde da terra e das nuances cromáticas do céu que, ao amanhecer, era tomado por um azul quase infinito e, ao entardecer, tingia-se de um vermelho e dourado concentrados, maravilhosamente e um tanto preguiçosamente, em uma fina faixa de luz destoante do restante do véu noturno, já tomado de um azul que ganhava a profundidade escura de noites sem estrelas, típicas por estes lados de cá.
A plantação de laranja, morada do pé que me guardava, era extensa, não tão grande que se pudesse perder de vista, mas também não tão pequena a ponto de ao olhar o primeiro pé já avistar o último. Além dela, o sítio era muito verde, quase todo plano, com algumas montanhas e elevações leves que emolduravam a paisagem lindamente. Havia uma casa principal, onde moramos em outro tempo, meus pais e eu, e que agora nos recebe em períodos de tempo reservados às lembranças gratuitas e invasoras e, por vezes, a um profundo tédio engasgado na alma, quase a vomitar-se de aflição, misturado a uma angústia e ansiosidade latentes e transparentes, diáfanas e claras até para aqueles que fingem não ver. Um pouco depois do laranjal havia um lago bastante calmo e misterioso, habitado por pequenos peixes e, talvez, outros seres das águas que nunca me preocupei de fato em ver se ali deitavam morada. Gostava de nadar no lago de vez em quando, banhar-me em suas águas escuras, um pouco barrentas até, mas que faziam de mim tão leve e suave feito pluma a dançar pelo céu em dias de ventos doces e refrescantes.
Pousada nas sombras invisíveis de um dia chuvoso sob as folhas verdes e escuras do pé de laranja afundei-me em lembranças deste e de outros tempos já idos e vividos. Lá embaixo a chuva não descia tão forte, era sabiamente desviada pelos galhos da laranjeira e me chegava ainda mais fina, quase como um beijo doce e disfarçado, desses que se dá quando não se quer revelá-lo ou quando não quer uma pessoa revelar-se, tampouco o seu amor, o beijo apenas salta como coisa incontrolável e ausente de limites e margens tão ásperas quanto opressoras.
Aquele dia fora de fato terrível, durante a viagem de trem até o sítio você apenas me cutucava e perguntava “O quê tanto olha por esta janela, qual é a graça em ver este mundo passar, com esse verde sempre o mesmo a turvar as percepções e pôr qualquer um louco, e essas casas sozinhas, abandonadas, pobres no meio do nada? Fecha esta cortina que eu quero dormir”. Meio aturdida, confusa, mordendo os lábios e sentindo o cheiro de meu ressentimento eu respondia quase muda, sussurrando “Gosto de olhar”. “Olhar o quê”? , ele dizia visivelmente irritado e sem paciência. “A vida, simplesmente gosto de olhar a vida”. “É uma menina tonta, infantil e sonhadora, agora feche a cortina e deixe-me dormir um pouco, logo chegaremos ao sítio e ainda tenho que ter com os seus pais para enfim formalizarmos este namoro, preciso casar-me o quanto antes, os negócios exigem e você, apesar de nova ainda, dará uma esposa no mínimo apresentável, é só não continuar a olhar pela janela tão longamente como faz. Este seu mistério perturba-me”.
Ai como feriram-me tais palavras, perguntava comigo mesma onde ele esquecera a gentileza do trato, a delicadeza das palavras, a sutileza das formas, a generosidade gratuita da sensibilidade rara, do cuidado doce, da maneira suave. Como este que podia vir a ser meu noivo e depois marido, que outrora já me amara tão lindamente, escondido dos olhares de todos como se no mundo só houvesse nós dois, poderia colocar de lado dessa forma a lembrança pura de tantas noites cheias de lua que já havíamos passado juntos, simplesmente esmagando as lágrimas que dos meus olhos nasciam e que eu prontamente escondia, do amor negando a flor e só fazendo viver espinhos a furarem palavras que despencavam em forma de dor. Quando fechei a cortina por mim já estava tudo acabado, nada mais restava, meu sentimento era grande, mas estava cansado, terrivelmente cansado e eu repetia quase que alucinada, muda e pálida, voltada para dentro de mim mesma “quero ficar sozinha”. Ao descer do trem impedi que ele comigo saltasse, andar ao seu lado eu já não mais queria, sua presença me era insuportável como o calor que naquele dia fazia. Não, definitivamente, não o queria mais, algo acontecera ou ainda acontecia com meus sentimentos, estava cansada, confusa, queria poder olhar pela janela, pousar meus olhos sorrateiramente e deliciosamente sobre a vida, sem ter que fechar a cortina apenas porque outro assim pedia. Depois de muita insistência, mais por orgulho e menos por amor, ele por fim desistiu, pude ouvi-lo gritando, a caminho do trem, quando este já se afastava em direção à próxima estação “ Em breve conseguirei outra, bem melhor que você, mais calma eu diria, menos sonhadora e pensativa, não gosto de mulheres pensativas, de todo não a amo, nem nunca amei, amor é algo fútil que não está nos meus planos”. Estas foram as últimas palavras que ouvi dele naquele dia quente do começo do verão, há exatos dois anos atrás, e que agora voltavam um tanto quanto confusas e esfumaçadas à minha mente, com um leve sabor amargo, difícil de engolir. Depois de dizê-las, ele ainda deixou cair um lenço quando fazia o movimento para subir novamente no trem, não sei explicar por que naquele dia o peguei rápida e nervosamente do chão, com medo de que ele desse pela falta daquele pedaço de pano branco com desenhos bordados em verde escuro ou de que outra pessoa o pegasse ou até pisasse nele, manchando e corrompendo a sua brancura ingênua e delicada. Deste homem, além das lembranças sempre a me abraçar, às vezes com mais força, em outras com mais suavidade, ficou-me apenas o lenço. O trem afastou-se levando dentro dele nos primeiros vagões o meu primeiro amor, só pude segui-lo com os olhos, febril e contínua, até um pouco antes da primeira curva, quando, em um movimento rápido e regado por um leve tom de irritabilidade e sofrimento, as cortinas azuis se fecharam e o trem por fim sumiu ao fazer a curva, deixando um rastro de poeira na terra e uma mancha de saudade no meu coração.
Acordei assustada, como se tivesse dormido durante aquela lembrança, como se ela tivesse me arrastado de volta àquele dia de sol, àquele trem, a escutar aquelas vozes, ver aquelas cores que tingiam meu coração com a graça do primeiro amor. Hoje tudo era diferente, a chuva, o céu cinza, a atmosfera densa e escura, contrastava com aquele dia de sol que pintou a minha primeira separação amorosa na estação do trem. Agora, estou eu sozinha aqui neste sítio distante, embaixo do pé de laranja onde, em uma noite distante e quente de verão, lá se vão mais de dois anos, foi esta noite um pouco antes do dia na estação, eu amara G., assim o chamavam. Era ainda uma menina, tinha meus dezesseis anos. Naquele fim de semana, meus pais estavam na cidade, se quer o conheciam, nunca chegaram a fazê-lo posto que o mandei embora antes disso, mas namoramos um tempo escondidos e como era divertido, como a cor do perigo, o aspecto do proibido, o sabor da fruta mordida era irresistivelmente doce e livre. Rolei com ele grudado sobre meu corpo ainda tão inocente, o desejo bailando sobre nossos lábios, as folhas verde escuras descendo leves e, de vez em quando, pousando sobre a nossa pele e se encharcando com o nosso suor, o dia era quente, as almas também.
Agora estava eu só, embaixo do pé de laranja, nenhuma folha caía, estava frio, não havia vento, tudo era seco.
Tudo aqui é seco me dizia um homem que trabalhava na mesma estação ferroviária onde eu havia me separado de G. Já se fora um ano desde a separação, e eu vinha passar férias de verão novamente no sítio de meus pais. Naquele dia chovia, quase como hoje, eu descia sozinha e de lá pegaria um carro que me traria até o sítio. Mas o carro atrasara por causa da chuva, segundo me disse o guarda da estação, em quem até então eu nunca havia reparado, estava atolado em lama e não havia previsão de quando sairia de tal estado. Foi assim que fiquei um tempo conversando com o guarda de aparência cansada e solitária, que olhava com um tom melancólico, dia e noite, a estação de trem.
Perguntei se ele vivia sozinho ali, se tinha família, como era o trabalho de um guarda de estação. Ele me respondeu calma e longamente. “Há anos trabalho aqui menina, tenho apenas uma esposa que já não amo, estou com ela apenas porque ficar sozinho aqui no meio do nada, onde as pessoas nunca param apenas passam, seria de todo insuportável demais. Vou me aguentando, quase me arrastando, por aqui nunca acontece nada. Entre a passagem de um trem e outro o silêncio é maior que o de um enterro, o demorar do tempo tão longo quanto um deserto a perder de vista. Nunca vejo rostos diferentes do meu, de minha esposa e do de dois rapazes que aqui trabalham, exceto quando passa um trem e eu espicho a cabeça na direção das janelas abertas na esperança de topar com um belo rosto de rapariga, mas logo o rosto se vai e nunca acontece nada. Por aqui, escuta-se até o barulho do brilho da lua a molhar a terra e, depois de um tempo na solidão, começa-se a conversar com a lua, com as árvores, com a própria mão. É difícil estar no lugar onde as coisas são tão efêmeras como um piscar de olhos, a efemeridade enlouquece e, ao mesmo tempo, o arrastar lacrimoso e preguiçoso das horas desintegra. Não creio que nada de pior possa me acontecer, sempre temi menos a morte e mais a solidão, conheci primeiro a segunda, portanto, já não temo mais nada, espero apenas o próximo trem. “És um homem completamente amargurado e melancólico então”? “Não menina, digamos que, no fundo, gosto de sentar aqui e ficar olhando”. “Olhando o quê?”, perguntei surpresa e ligeiramente ansiosa. “A vida”!
Acordei de mais aquela lembrança, a chuva engrossara, o pé de laranja era remexido violentamente, as folhas e galhos se debatiam contra mim e começaram a arranhar todo meu rosto, e era como se arranhassem e perfurassem as minhas próprias lembranças, fazendo com que delas vertesse um sangue vermelho e ainda vivo, fresco, pastoso. Inconscientemente, levei minhas mãos aos bolsos de minha calça, como a procurar algo que pudesse me proteger um pouco da chuva no caminho de volta pra casa. Tirei de um deles, admirada e surpresa, fisgada pelas cordas do destino, o lenço de G. Aquele que ele me dera quase como prêmio de consolação, sem o saber, há dois anos, em um verão na mesma estação na qual há um ano eu vira a mim mesma em um original e solitário guarda de estação ferroviária.
Não quis cobrir-me com ele, talvez pelo desejo de que nenhuma lembrança de G. se colocasse entre mim e os pingos agora grossos da chuva, assim como nunca quis que uma cortina se pusesse entre meus olhos e a cena do mundo. Saí correndo pela chuva, a viver, completa e menos angustiada no meu estado de existir enquanto coisa ou ser humano, menina ou quase mulher, sabendo que eu não havia conseguido ficar sozinha. Aquele já não era mais um dia terrível.
O lenço branco ficou sob o pé de laranja, já sobre ele várias folhas haviam caído, elas eram da mesma cor que os bordados verde escuros desenhados sobre o lenço branco, mas já não eram as mesmas que outrora se banharam no suor diáfano de nossa juventude e do meu necessário primeiro amor.