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terça-feira, 9 de março de 2010

Um pouco mais, um pouco menos, por Marcelo Masagão

O que dizer daquilo que se tem hoje, não se quer agora, quer se ver distante amanhã e, ao mesmo tempo, está revestido por um medo, uma falta, uma ausência tão farta quanto inútil. Algo que se tem, que se quer perder, e que se tem medo de sentir falta. Eis assim esta tal solidão. Estranho como a ausência de vozes, sons, gritos mudos e distantes fazem falta e chegam a enlouquecer a mente quando se ausentam por períodos demorados de tempo. O silêncio prolongado, depois que a alma cansa de dirigir-se a si mesma tão inutilmente, termina por deixar o corpo cansado, sem que se tenha saído do lugar, provoca dores no pescoço, nas pernas, nas costas, turva o pensamento, confunde os sentidos, no mesmo movimento em que, leva os sentidos a sua mais aguda e extasiante percepção. A voz quando de repente se solta, é tímida e estranha a si mesmo, distante, fantasmagórica, até as lembranças se perdem cansadas, embaçadas, juntam-se a um amontoado de restos despedaçados, em uns mais, em outros menos...



E o labirinto é extenso, não há como sair dele, sobretudo não há o que fazer, as alucinações se repetem, agigantam-se, a falta de tudo se faz imensa, multiplicada em proporções bem maiores, juntamente com o real tudo se faz profundamente irritante. A espera é interminável e torna-se insuportável nos dias quentes de sol, quando tudo lá fora é lindo e tudo lá dentro é cinza, abafado e pobre. Mas se sairmos, a multidão nos esmaga, os olhares nos estilhaçam, a diluição do tempo, das imagens, da lógica, a fruição do tempo, o anestesiamento dos sentidos, nos faz mais malucos do que quando encerrados na nossa prisão de cada dia. O mundo atual e suas grandiosidades falhas fere. Estão todos correndo, desesperados, afoitos, amedrontados, estão todos ansiosos por viver, consumir, consumir-se, deteriorar-se, estagnar-se, inchar-se sem nutrir-se. O mundo está alvoroçado, desesperado, frenético e vazio, tremendamente perdido, iludindo-se com multidões de pessoas e objetos, buscando encontrar-se dentro do seu próprio vazio, e assim, enfeitam cada vez mais sua gaiola dourada, enfastiam-se dela, mas se saírem são engolidos pelo bichos que espreitam do lado de fora dela, a gaiola pode ser um quarto, um longo edifício, uma cidade a perder-se de vista, pode ser do tamanho do corpo, um pouco mais, um pouco menos...



Sobretudo há um cansaço, tédio irresoluto de tudo que ainda passa despercebido nas almas de muitos, mas não demorará demasiado para vir à tona, basta perceber que tudo isso é um completo caos sem sentido, que toda espera torna-se longa e ressecada, que todo sentimento grande e verdadeiro demais é anulado ou pisoteado por outro extremamente medíocre e embalado por uma casmurrice que se supõe altiva e superior, mas termina rastejante e pálida.
Enfim, sinto como se o mundo estivesse perdido nas raias da contemporaneidade, afogando-se nesta onda de coisas e mais coisas sem sentido, perdendo a essência, a plenitude, a beleza de um verso, de uma tela com cor e ritmo. São muitas janelas, tantos pequenos buracos, empilhando histórias e mais histórias, cada buraco tem uma história, cada história um buraco...
Se a solidão de dentro enlouquece, o vazio de fora entontece e massacra. Antes a loucura da solidão, ao caminhar sem rumo encravado no seio de tantas e estranhas multidões, sozinhas, perdidas no que fizeram delas seus desejos, nos desejos que elas fizeram...
A alma está profundamente confusa e cansada, presa em sua gaiola dourada, tentando escapar dela, esperando do outro o que não vem dela mesma, mas um dia se desprenderá, voará livre e longamente, entrará na paz de um deserto de formas parecidas e será invadida pela claridade crepuscular do sol que mergulha delicadamente na linha do horizonte. Um dia, em sonhos que seja, serão ditas frases, de um jeito e com um significado, que vai além das palavras, além, um pouco mais, um pouco menos...

domingo, 27 de dezembro de 2009

Abraço


Um dia para remexer nos guardados, tirar daqui, colocar ali, desfazer nós, encontrar saudades, resgatar lembranças, esvaziar os espaços, ir, aos poucos, preenchendo a alma.
Assim o fiz hoje e acumulei mais sacolas do que esperava. Separei tudo com carinho e cuidado pensando nas meninas que usariam algumas roupas que foram minhas outrora e comigo passaram alguns momentos a olhar certas cenas com uma sofreguidão às vezes nem sempre aparente ou com uma desconfiança nem sempre prudente, uma advertência, um aviso, uma bela surpresa ou uma íntima emoção. Agora, ganhariam elas as formas de outro corpo, os destinos de outra alma, os mistérios de outro olhar, o cheiro de outro suor. Mesmo sem saber que forma elas teriam e quem exatamente as usaria, uma certeza ao menos eu tinha: a de que elas estariam muito “bem servidas”.
Andei, olhei de relance todo quarto e me detive nas gavetas que se achavam mais vazias, como quando decidimos enfrentar nossos medos e angústias mais escondidas, lavar o fundo de nossa alma, tirar a poeira do canto de nossos dramas e inseguranças, um movimento que dói, mas o único capaz de realmente fazer brilhar os cantos, respirar aliviada a alma, encontrar espaço a alegria, mesmo que em ponta, resto ou diagonal da emoção. Em poucas palavras, tudo se arrastou um tanto dolorosamente para fora do tapete nostálgico que disfarça os buracos e manchas espalhadas pelo chão da minha vida selvagem e primitiva, como coisa que desvenda por dentro.
Ao olhar, deparei-me com um urso grande, daqueles bem gostosos e macios, um urso que ganhara ainda quando a infância a habitar totalmente em mim pedia braços deliciosos que a envolvessem e a protegessem de um mundo novo a abrir-se, mundo do qual eu jamais sentia medo nos braços de um lindo e macio urso a abraçar-me. E quanto nele eu me deitara, tão leve, tão pequena, tão cheia de sonhos e graças amadas...!
Decidi que meu tempo com o urso já passara, olhando para mim percebo que os seus braços já não me abraçam por serem curtos demais para o meu corpo que ainda continua frágil, mas já demasiado grande para ser completamente abraçado. É um abraço que já não me abraça, como aqueles abraços dados quando o amor acaba, abraços vazios, menos apertados, mais apressados, tão evasivos, tão pouco intensos e emocionados, mas, neste caso, o corpo não se torna grande como acontece comigo em relação ao urso, o amor é que se torna tão pequeno a ponto de não poder sequer ser alcançado por um abraço. Pensei um tanto excessivamente reflexiva e com uma leve ponta de angústia que o amor, em alguns casos, de fato tem o tamanho e a dinâmica do abraço.
Tomei o urso em meus braços e não tentei um último abraço, já caíra no mundo, ele me trouxera outros abraços, tirou-me alguns, deu-me outros, o mundo me abraçou, soltou-me e agora me ensina como abraçar a mim mesma com coragem e firmeza em um eterno desencontro de braços e múltiplas estranhezas.
Com sacolas e aquele urso grande e gostoso, atravessei a rua. Entrei em uma casa que há tempos não via, um lugar que estava ficando mais bonito, as paredes estavam sendo pintadas novamente, uma única camada de tinta se via nelas de modo que a outra logo viria dar o acabamento final da reforma. Nos muros exteriores já repintados algumas palavras marcavam o concreto e atraíam os olhos de quem por elas passasse. As frases escritas eram curtas e soavam como uma poesia doce e suave, diáfana e tão leve que parecia voar e passar para o outro lado do muro, insinuando-se provocante pela rua. Um pequeno jardim enfeitava a entrada do prédio e a pequenez de seu tamanho era necessária à simplicidade e beleza natural de suas formas, canteiros e flores. Era como se a simplicidade do jardim o fizesse enorme, acolhedor, aconchegante, nem um pouco suntuoso, domesticado, artificial ou algo que possa parecer frio e arrogante. Em uma vertigem, de repente vi ali no jardim, brincando entre as flores, todas as 130 crianças que eu sabia que ali naquela casa viviam. Elas brincavam felizes, os olinhos brilhavam, os cabelos das meninas refletiam a luz do sol e dançavam no ritmo do vento, sua conexão com a natureza era tanta que pareciam sair de cada flor e transformar-se novamente na mesma flor e aí se faziam plenas, donas de um mundo no qual a realidade era apenas um pouco diferente, como na maioria das vezes acontece.
A realidade era que aquelas lindas meninas não voltavam para as flores de onde tinham saído, como acontecia com o meu devaneio, essas flores as deixavam sem sequer um toque suave de suas pétalas ou o aroma delicado de seu perfume e se perdiam pela vastidão dos anos e do mundo, aparentemente, alheio a tudo.
Perdidas de suas flores, as crianças esperavam que outra flor as aceitasse, jamais as outras seriam como a flor primeira, mas das crianças essas outras flores cuidariam, mesmo não podendo substituir por completo o brilho nos olhos e a sensação de sentidos capazes de serem trazidos apenas pela flor primeira.
Uma voz atendeu-me interrompendo meu devaneio e trazendo-me de volta à minha realidade naquele instante. A voz era de uma mulher que me pareceu extremamente bondosa e doce, portadora de uma atenção e de um cuidado que eu julgava serem, com certeza, maiores que os meus. Sem jeito lhe falei que trouxera algumas roupas que pra mim já estavam pequenas, mas que se achavam novas e poderiam ser usadas, apesar de precisarem de uma boa lavada. A mulher ia agradecendo-me com um sorriso lindo, um contentamento sincero, um olhar que quase me ofuscou tamanho era seu brilho e bondade gerados a partir de um gesto de outra pessoa quando duas meninas e um menino que ali moravam quase a atropelaram a correrem alegres e profundamente ansiosos diante de uma possível novidade que trazia cheiros de alegria e brincadeira no ar. Uma menina ainda pequena, de uns seis anos, adiantou-se na frente dos demais. De pele clara, cabelos loiros que desenhavam leves cachos nas pontas, olhos verdes, um tanto perdidos e solitários, ela agarrou o urso que eu trouxera, o abraçou forte e mostrou um sorriso aberto, realmente completo, um sorriso da infância, carregado de toda felicidade e inocência essencialmente gratuitas nessa fase da vida. Ai como é lindo, que gostoso, como é fofinho! Ai ele já é meu, esse é meu! , ela dizia com uma voz fina, delicada e ansiosamente extasiada. Quanto ao sorriso, mais que um sorriso de infância, aquele era um sorriso de uma menina que talvez nunca tenha tido um urso tão gostoso como aquele, que ela pudesse abraçar e se proteger. Era o sorriso de uma menina que na fragilidade e beleza de seus seis anos já conhecera uma das piores ausências que alguém pode um dia sentir: a ausência constante, arrastada, inexplicável e incompreendida em si mesma de um pai ou de uma mãe. Talvez, ao abraçar aquele meu urso, que se achava até um pouco sujo e empoeirado, a menina tenha sentido um pouco do perfume da flor que pelo caminho da vida ela perdera e tenha sido acolhida por braços de pelúcia que foram sentidos por ela quase que como pétalas e assim ela pode adorar aquele urso, esboçar um sorriso, deixar ver uma expressão de felicidade e proteção no seu olhar, ela pode se aproximar da flor.
Fui colocando as sacolas no corredor de pedra da entrada que conduzia ao interior do lugar, a outra menina e o outro menino já pegavam algumas delas e ajudavam a levá-las para dentro. Notei um olhar de tristeza e um leve desapontamento no menino quando disse que as roupas eram de meninas, mas, no fundo, vi que ele ficou contente pelas muitas moçinhas que ficariam felizes com as roupas novas e com o grande urso branco de pelúcia. Ele parecia já cultivar em seu jovem coração a chama da esperança que faria incendiar os seus olhos a cada nova vez que a campainha tocasse e que sombras de sacolas pudessem ser vistas a se desenhar pelo vidro da porta principal.
Quando a bondosa moça que abriu a porta se despediu gentilmente e a fechou atrás de mim, ainda pude ver através do vidro a menininha linda correndo saltitante e alegre pelo longo corredor de pedra agarrada ao urso, o abraçava de uma maneira tão forte que parecia que não iria soltá-lo jamais e que, provavelmente, hesitaria um pouco em dividi-lo com as outras meninas que, de certo também o adorariam, deitariam sobre ele, se confortariam e se protegeriam em seu abraço, como a menina de cabelos loiros cacheados nas pontas agora fazia. No entanto, tenho certeza que ela o dividira, o urso ainda tinha abraços para todas e, em meu pensamento, por muito tempo, o seu colo seria o lugar onde elas mais gostariam de estar, por ter o conforto e a maciez tão próxima das pétalas de cada uma das flores já perdidas de cada uma daquelas meninas.
Virando o corredor, a linda menina provavelmente o urso ainda segurava. Mesmo não podendo vê-la a imaginava e a imagino agora a envolver e abraçar aquele urso tão grande e tão macio. A lembrança do momento em que ela chegava e abraçava o urso, jogando-se sobre ele, tão contente, tão pura, tão completa, não me deixa, assim como não me deixam as lágrimas que insistem em rolar pelos meus olhos, incontidas, profundamente tristes e melancólicas, lágrimas a expulsar de minha alma a dor e a indignação profunda que sinto diante de um abandono tão cruel e miserável e que se choca com a beleza de uma cena tão linda, de um abraçar tão cheio de carinho e felicidade, tão repleto de inocência e gratuidade!
Como recordação, me salvará ou me acordará eternamente, o instante em que fechei o portão de ferro do orfanato e lágrimas nasceram da boca da minha alma indo deitar-se no contorno dos meus olhos. Estes, prontamente tentaram escondê-las, sufocá-las, porque aquelas lágrimas estavam doendo demais e queimariam feito brasa quando sobre minha pele fossem elas derramadas. E, em um sutil movimento de mãos, assim como a menina abraçou o urso, abracei eu as minhas lágrimas...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

De computadores e mesas


Este tempo que não passa tem me sufocado. Olhos ardem, queimam, descem e se fecham cansados. Os braços já me doem, os dedos são lentos em clicar, recortar, escrever. O tempo se estende, longínquo, sombreado e ele se faz inútil, tão inútil quanto desencontrado. O mundo corporativo é todo muito engraçado, ao certo não nasci pra ele, encontro cada vez mais dificuldade em nele me adequar. Reconheço-me inevitavelmente como aquela roupa antiga que adoro, ainda a conservo no fundo do guarda-roupa, mas é por pura saudade e alimento da lembrança. Em mim ela não quer mais entrar, não passa pelo meu corpo que, mesmo sem que eu tenha percebido, cresceu um pouco nas laterais. Assim como essa roupa não me cabe, tal mundo de mesas, computadores, e pessoas sentadas em frente a eles, dialogando mudas e estáticas com ele, absortas e tomadas pelo sono, apatia e acomodamento não me faz nem um pouco feliz.

Diferentemente da roupa da qual ainda conservo certa saudade, deste mundo no qual me encontro atualmente, não guardo saudade, se é que é possível guardar saudade daquilo que ainda se vive. Mesmo assim, já não guardo saudade, pois sei que quando neste mundo corporativo não mais viver, definitivamente, não marcarão as minhas lembranças certa nostalgia, talvez apenas uma leve e serena emoção.. Isso me assusta às vezes. Afinal, como viverei? Como me sustentarei ou poderei ter e ver crescer uma família se não consigo me adequar ao mundo no qual todos parecem se adequar? Mas o que se repete alucinadamente é que não me sinto bem neste conjunto de mesas, nestas formas frias, nesta atmosfera de ar condicionado. Tudo isso me sufoca e as horas não passam. Aqui o tempo é lento, asfixiante, torturante e denso, assustadoramente denso. Mas, lá fora, quando vejo o mar, quando cercando meu corpo não há paredes, só há mundo, brisa, cor, umidade, cheiro de água, balanço de tons, toque de ar, sombra do vento, lá fora, o tempo simplesmente se esvai. Ai como isso me é insuportável, essa fugacidade é terrível, a fugacidade das melhores coisas, dos mais belos horizontes, dos mais puros cenários. Ao mesmo tempo, o tempo aqui, insiste em essa atmosfera fazer-me engolir e aceitar.

A lógica do tempo é estranha, mas mais estranha que ela são os homens e sua lógica de vida. Engraçado, mas esse mundo corporativo e endurecido no qual vivemos quase que a maior parte do tempo sentados, olhando para uma “linda e atraente” tela de computador nos deixa terrivelmente casnados. Cansamos de tanto ficar sentados. Inversões contemporâneas caro navegante.
Engraçado, mas há alguns anos atrás, não havia tantos carros como hoje, as distâncias não haviam sido tão encurtadas, os homens andavam mais e não reclamavam tanto que estavam tão cansados, tampouco diziam que não tinham tempo pra nada. Interessante, se não fosse tão desesperador. Hoje estamos nós aqui, corporativizados, cheios de carros, aviões, trens de alta velocidade, internet e tantas outras tecnologias despejadas gentilmente no colo dos habitantes da era da revolução digital, e mesmo assim estamos cansados e sem tempo.

O fato é que nem todos se sentem assim. A maioria adora a lógica moderna, corporativa, o que não é de forma alguma algo mal, muito pelo contrário, eu diria que é o normal. O normal é que as pessoas se corporativizem, se adaptem, decorem suas inúmeras senhas, lidem todos os dias com seus infindáveis comandos, códigos, a tecnologia está aí e é sim muito boa. Ela muito faz, a internet é uma revolução sem dúvida alguma, de fato democratiza o acesso à informação, é humanizadora e também humanitária já que permite também o acesso das minorias ao conhecimento e à possibilidade de representatividade.
Mas, creio que ao menos para mim, dentro da minha complexa e por vezes insuportável individualidade, todas essas revoluções estão deixando pra trás muita coisa. Elas estão acontecendo no mesmo movimento em que excluem outras tantas coisas, estão trazendo o novo, sem resgatar ou resolver as sombras que ficaram pra trás. De que adianta uma potencialidade tão grande para o ser humano, se ele está vazio das coisas mais primitivas, selvagens, bem mais próximas do mar ou da terra e tão longes das máquinas, das paredes, mesas e corporações?

Como disse, o mundo é corporativo, as pessoas se acostumam à lógica das empresas, usam da tecnologia e buscam conhecê-la e é bom que seja assim, acho até necessário que seja assim. Mas, continuarei achando que tudo isso não é suficiente, tampouco traz a verdadeira felicidade. E não me venham com os tradicionais “momentos de felicidade” que devem substituir uma felicidade que nunca é permanente.
A felicidade é permanente sim, pois ela só existe a partir do momento em que se compreende que a realidade traz dores e alegrias, na mesma proporção. Aceitar de fato essa condição e suportar a própria existência e a realidade, já é a conquista da felicidade. Nunca será feliz aquele que vive de momentos de felicidade, confundindo-os com momentos de êxtase, ilusão ou com o hedonismo mais infantilizado possível.

Regressando à lógica do tempo, aqui, ele segue lento em passar. Os olhos seguem ardendo, o copo frio pelo ar condicionado, a mente atenta e desperta em tentar entender. Para alguns, o corporativismo não faz parte de sua felicidade, a estes só resta sair dele, buscar outras zonas de mais sentido, que podem fazer nascer aquela felicidade permanente que se nutre da aceitação da própria realidade. As escolhas são sempre individuais, mas como esperança temos o fato de o corporativismo não ter ainda tomado conta de tudo, há outras alternativas, outras portas mais coloridas. Sempre há outras saídas.
Não adianta reclamar do tempo, não adianta se nutrir de tédio apenas por um salário no fim do mês, certas coisas definitivamente não compensam. O salário é importante, mas há diversos caminhos para consegui-lo, sem ter que ver seu tempo e paciência serem esmagados, seus valores e consciência serem linchados e destruídos.

Quem sabe algum dia as escolhas e atitudes do sujeito humano façam com que o seu tempo na praia, cheirando o vento, deitando na areia, pulando ondas, fechando os olhos e sendo atingido por aquele horizonte tão eterno e gostoso do pensar, não seja maior e passe enfim mais devagar do que o tempo que ele suporta sentado atrás de uma mesa, cercado por paredes, recebendo ordens e agindo mecanicamente, sem pensar, refletir criticamente, criar. E o mesmo vale para aqueles que orientam e sustentam o seu próprio vazio existencial por meio da vida do outro. Eis uma forma de gastar o tempo, de produzir vazios e uma sucessão de nadas, de desperdiçar os olhos percorrendo as linhas escritas pela vida do outro, ao invés de escrever sua própria vida ou, ao menos, buscar ler as linhas da vida de um personagem escondido e esperando para ser descoberto dentro daquele bom livro já empoeirado no fundo da prateleira.

Aos que querem mais, aos que buscam a beleza do mundo, dos seres, aos que querem de fato ser felizes suportando os nós da nossa existência, sugiro que, mesmo precisando de um mundo corporativo (para aqueles que dele não conseguem se desvencilhar) façam escolhas menos adultas e mais autênticas, pautadas pela sabedoria infantil, mas não pela infantilização hedonista, sugiro por fim uma boa caminhada à beira da praia, sem relógios, máquinas, compromissos ou data, sem tantas senhas e marcas. Com muitos livros e mais nada e, no fim, deixemos que a vida, com todos os seus encantamentos e decepções, nos empreste a grandeza escondida na vasta dimensão cotidiana de nossos dias e dias....

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Amarelo


Quando ontem tudo apagava, a chama amarelecida da vela ocupou por algum tempo o lugar do barulho das máquinas. O girar frenético do ventilador cedeu espaço para o movimento sedutor e atrativo da chama que, por alguns instantes e ângulos, parecia ser eterna. O zunido do computador e suas luzes que cansam e entontecem saíram de alguns ouvidos para que estes escutassem e atingidos fossem apenas pelo som primitivo e selvagem da chama intermitente da vela. A televisão emudeceu-se. Por um instante de tempo, foi interrompida a produção de sentidos, a canalização de desejos, o conforto e o engano da solidão. De repente, não havia mais sequer uma simples imagem, tampouco as vozes perdidas, alheias e distantes que de dentro da tela saltam alucinadas. No seu lugar, aos olhos foi trazido o consolo de uma imagem pura, simples, tão cheirosamente delicada.

No instante em que tudo por fim escureceu, algumas vozes gritaram, outras se calaram, outras derramaram curiosidade, poucas as que sentiram o apagar de tons e o acender de luzes tão mais belas, naturais e, desde sempre, familiares, que vieram ao socorro do homem quando os seus tantos e, aparentemente, infalíveis aparatos técnicos de fato falharam. Eis que assim como a fé caberia onde a razão não mais é suficiente, a simplicidade de uma luz de vela é que nos conforta quando a sofisticada técnica parece querer nos aprisionar na escuridão. De todo, já digo de antemão que me agradou demasiado a chama que saltava da vela, saía de dentro dela para rasgar-me e vir refugiar-se dentro de mim. A chama tornou meu quarto mais belo, mais essencialmente clássico, como se tivesse sido desenhado, pensado e esculpido em cada sutil detalhe. Presenteou-o com o silêncio das máquinas, com o canto afinado das luzes de outros e tantos tempos.

Ao longo deste vasto país nosso, para muitos as máquinas não pararam, continuaram alimentando vícios, preenchendo ausências tantas de nós, seres já tecnificados. A vela continuou guardada no fundo da gaveta, coberta de poeira, ou sequer precisou ser comprada por muitos que já não a têm mais em sua casa. Para outros, cercados pelos limites de seu lugar, alguns trabalhos no computador podem ter sido perdidos, os últimos segundos do banho podem ter sido protagonizados por uma água gelada, o que significa um fim de banho apressado e originalmente natural, ou uma saída rápida, automática, com o corpo ainda coberto de espumas, ainda molhado.
E outros ainda se viram presos nos elevadoras de nossa sociedade excessivamente amontoada ou verticalizada, sufocados pelos limites extremamente limitados, sinais de nossa claustrofobia contemporânea.

Ouvi dizer de uma senhora que utilizava um aparelho respiratório elétrico e ao apagar das luzes teve que sair de casa em uma ambulância às pressas rumo ao hospital mais próximo de sua casa. Enquanto isso, a mídia e suas vozes pedem alucinadamente calma em uma eterna contradição de discursos. Talvez, muitos precisassem desse conselho de calma, desse conforto partindo de uma voz distante, tão distante. São tantos os casos, tantas as casas, tantas as criações que permeiam uma grande cidade, tantos os dramas, tantas as histórias, tantos os momentos, tantas as faces de um mesmo apagar de luzes e de almas. As coisas enfim são tão incertas.

Em meus tantos e infindáveis limites, confortei-me de todo com a chama de minha vela. O apagar geral me era distante, suas causas, consequências, culpas e omissões mais ainda. Apenas que fascinava a chama de minha vela, pois sigo conservando algumas em uma gaveta não para casos em que a luz elétrica me falta, mas para momentos em que dela me canso. A chama da vela me inspirava, tornou-te tão mais belo aos meus olhos, pude sentir por um instante a respiração, o cheiro, o silêncio do mundo e, em meio a gritos de um, sufocamentos e desespero de outros, acariciei a tua pele linda e amarela.

...instantes cortantes de existir e estar. Entendam a luz, incorporem a chama.


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A lógica do “Carpe Diem”


Hoje queria escrever sobre alguma coisa, preencher este lugar que está precisando do sabor da novidade, cansado do que nele já está, das letras já traçadas, da imagem já representada. Quero escrever mas não sei sobre o quê, tampouco me surgem ideias ou me sobra o tempo. Este vem escasso, rápido e intenso. Se termino algo, logo vem mais uma coisa, se respiro aliviada, essa respiração em instantes é sufocada e o ritmo volta a ser frenético. Neste momento em que traço estas linhas de cá penso em acontecimentos corriqueiros do meu dia de lá, das vozes, das cores, dos sons.
Hoje, almocei ouvindo músicas que marcam e já marcaram alguns momentos desta minha vida, melodias que me são conhecidas, letras que trazem lembranças de outrora. Almoçar de repente ficou mais sonoro, nítido, de todo mais alegre. Ah! Como podemos resgatar certos brilhos de nosso frio e atormentado cotidiano. E como perdemos tempo em falar de outros, em julgar outros, em olhar com um olhar torto, às vezes mesquinho, tão superficial e limitado. Quanto tempo perdemos com ausências, sendo que destas talvez a que nos traga mais prejuízo seja a do nosso próprio presente. Vivemos sem presente, querendo sempre voltar ao passado ou prever e chegar logo ao futuro. Que inconstância, que utopia da idade perfeita, da felicidade plena, da verdade absoluta. Quantas utopias vãs e sem sentido. Vivemos a Era do Prometeu, acreditamos que o mundo nos deve tudo e tudo nos deve ofertar, a nós cabe receber não dar. E com isso nos afundamos em incoerências, conflitos, dramas, vivemos uma vida reativa que simplesmente não acontece, uma vida de entupimentos, aparências, neuroses e alucinações. Terminamos seres controlados, por deus, por governos, pela mídia ou seja lá por quem mais deseje aparecer com uma dita verdade absoluta que a nós se impõe de forma alienadora, ilusória e automática.
E aonde fica a essência, a vida que se permite viver, a sensibilidade e o tempo para ouvir uma música durante um almoço e lembrar de cenas da vida, o caráter e a autoconfiança de quem não precisa falar do outro, da vida do outro, porque está alegre e experimenta de uma completude em relação à sua própria vida?
Quanto mais eu olho e penso, mais vejo o quanto precisamos aprender. Buscamos e valorizamos tanto uma verdade vã, que esquecemos de encontrar a nossa própria verdade, a que vem de dentro pra fora e não de fora pra dentro, a verdade autônoma e não a determinista.
Mas como já dizia Mário Quintana, e aproveito assim para deixar por essas páginas de cá minha homenagem a ele...

Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem. Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela…
Um dia nós percebemos que as mulheres têm extinto “caçador” e fazem qualquer homem sofrer…

Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável…

Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples… Um dia percebemos que o comum não nos atrai…
um dia saberemos que ser classificado como “bonzinho” não é bom…
Um dia percebemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você…
Um dia saberemos a importância da frase “Tu se tornas eternamente responsável por aquilo que cativas…”

Um dia percebemos que somos muito importante para alguém mas não damos valor a isso…
Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais…
Enfim… um dia descobrimos que apesar de viver quase um século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos que os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer tudo o que tem que ser dito…

O jeito é: ou nos conformarmos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutarmos para realizar todas as nossas loucuras…

Quem não compreender um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.

Decidi escrever esse texto depois de perceber que alguns belos quadros de temática indígena estão expostos no meu local de trabalho há alguns dias e que só hoje me dei conta de sua presença depois de já ter por eles passado inúmeras vezes!

domingo, 13 de setembro de 2009

Rabiscos

Jardim Botânico, Curitiba - SP


Saudade dos tempos onde, vã que fosse, alguma lógica restasse. Saudade da vida que algum dia, nesta terra de loucos e insanos, dever ter-se feita digna e pura. Saudade dos sentimentos que hão de ter sido bons, sadios e firmes. Saudade de uma igualdade que um dia por estas terras deve ter passado, portadora de honras e gratuidades. Saudade da beleza primitiva, que se faz bela pelo belo que faz, que se faz eterna pela intensidade das marcas que deixa ao passar. Que se faz misteriosa no instante do olhar.


Saudade de um mundo menos podre, mais generoso. Os homens devem ser de todo muito maus para que desgraças e humilhações não cessem de por aqui passar. O mundo é obtuso, dói, as pessoas não se importam, simplesmente não se importam. Os palcos estão vazios porque as pessoas nele habitam vazias, as letras estão pobres porque os que as escrevem estão cansados de falar inutilmente. A poesia solta um grito mudo e abandonado, porque seus versos não são por estes cantos crus e incongruentes apreciados, cantados, desintegrados.

Perdemos as pessoas sem antes tê-las e vivemos com medo de perdê-las. A morte desce implacável sem chance de salvação. Não sei se suportarei o mundo por muito tempo. Ele me é dolorido e distante, com alegrias que o tempo faz passar rápido demais. Não sei se sobreviverei a essa lógica industrial, a essa vida mecânica, a esse tempo que me esmaga e sufoca. Não tenho estrutura emocional para momentos que minha mente imagina, não tenho força para viver escondida.

A solidão espera-me insistente, o drama espera a todos. Que a ilusão conforte os corações superficiais de nosso tempo, um tempo cada vez menos nosso. Que a esperança anestesie os corações dos que sofrem. Tenho saudade de uma saudade que nem sei se existiu, de um tempo que eu prefiro acreditar que um dia a estes seres atormentados abrigou. Seres tão pequenos diante da morte, fascinados e engolidos pela vida.

Para todos os efeitos só nos restam os sonhos, fico com eles, um espaço onde vivo o quê quero, como quero, com a liberdade e o tempo que quero – infinito e sublime como nenhuma realidade jamais será.


Ópera de Arame, Curitiba -SP

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Poesia e Crônica, Literatura e Paixão


Em tempos quando se discute fotografia nos espaços da universidade com a terceira edição do Seminário Imagem e Atualidade da PUC-Campinas, realizado no mês de agosto, estive pensando em como somos, atualmente, atraídos por uma verdadeira ressaca de imagens sem olhá-las de maneira crítica e reflexiva e, ao mesmo tempo, tentei encontrar a origem de tanto fascínio e fixação pelo instante fotográfico.
O primeiro flash da fotografia, antes de qualquer disparo de luz, passa pelo tempo. A fotografia fascina porque consegue oferecer um alívio para o frenético passar deste tempo que tanto nos sufoca, anulando a sua efemeridade e congelando-o dentro da lógica de uma realidade enquadrada. A imagem fotográfica emociona ao dialogar sorrateiramente com a saudade.
Além disso, a fotografia pode refletir várias cores e tons. Ela pode ter os recortes da natureza, a essência do humano, a estética e a inspiração da arte, as luzes e as sombras da vida. Ela se faz individual e também universal, bebe de todas as fontes da realidade, desta realidade que pede para ser vista, registrada e revelada ao mundo. Uma realidade que produz cenas dramáticas e incrivelmente belas.
A sequência de flashes fotográficos produz por fim a imortalidade do fotógrafo que vive na sua foto, assim como o escritor vive no seu texto, o compositor na sua música, a vida no seu desespero. A foto não só congela o tempo, como também o ultrapassa, alcançando os ares sublimes da tão sonhada imortalidade.
A filosofia da caixa-preta não para, porque as lentes a captar o mundo seguem como uma matéria viva e aliciante, produzindo imagens que contam criativamente a sua história. Cabe a nós o desafio constante de lê-las, seja no espectro das cores ou nas situações limites que configuram a pureza do preto e branco.

M.V


* para os que ligaram perguntando não me utilizei de "outros meios" para escrever a crônica, é tudo uma questão de inspiração mesmo, mas como diz uma amiga "aí vai de cada um rsrs..."

terça-feira, 7 de julho de 2009

"Olhai os ipês do campo"



Seguindo algumas pegadas deixadas pelo vento vi um ipê maravilhoso que tinha um cheiro de promessa, uma beleza de outrora, reminiscências e pedaços de uma primeira infância. Ele brota do chão. Já o tinha visto meio de relance enquadrado pela janela do ônibus. Fiquei fascinada e ansiosa por congelá-lo nas lentes fotográficas que paralisam o tempo. Abro o portão do quintal que me é tão próximo e íntimo. Ele está repleto de matéria viva, galinhas correm e protegem seus pequenos pintinhos. Como estão lindas! Há tempos não as via, tampouco me lembrava de como o quintal era calmo, bucólico e capaz de despertar em mim tímidas lembranças do ontem. Andei com cuidado, pisei com passos delicados para não acordar a terra e assustar os que vivem nela.





Quando cheguei perto do ipê, meus olhos foram cegados pelo rosa das flores que contrastava com o azul do céu. Como é lindo o rosa com o azul, que combinação perfeita! Pensei nunca ter combinado em mim as duas cores, algo que agora não hesitarei em fazer. Meus gestos emudeceram, senti que não poderia perder aquele instante da natureza contemplativo. Como ela é perfeita, suas formas harmônicas, o caule se desdobra minuciosamente em partes menores que compõem a beleza indiscutível do todo. De repente, brotam flores aqui e ali em lugares exatos, se aparecessem um pouco mais adiante a beleza não seria a mesma. Elas têm forma e lugar corretos.





Decidi por fim fotografar. Saí em busca de detalhes, daquilo que o olhar apressado porventura não visse, olhei de baixo pra cima, quis sair de dentro dos galhos, de dentro do caule, de dentro de mim mesma.
Quis ser por um minuto um ipê tão lindo, tão único, tão harmônico e, ao mesmo tempo, tão efêmero já que na próxima estação as flores, majestosamente, nos deixarão para que a sua beleza dure o tempo da juventude. Quando ela começa a ficar não tão bela assim, já não existe mais. É como se a natureza soubesse o momento exato de parar para que as pessoas ao olharem o ipê não digam “Ah! Que bom, ele ainda está belo”, e sim “Ah! Como ele é belo”.





É preciso saber que, muitas vezes, quando decidimos parar para ver o ipê ele já não é mais o mesmo. As flores podem até voltar na próxima estação, mas jamais serão iguais. Todas as coisas acabam. Todas. Antes, no entanto, elas têm o tempo de existir, florescer, cabe-nos a sabedoria de saber olhar e amar as coisas enquanto elas ainda estão diante de nossos olhos.
Olhai os ipês deste mundo, olhai além da tua rotina, da tua pressa, antes que as flores se entreguem ao chão e deixem em teus olhos marcas de nostalgia e de vontade!


sexta-feira, 3 de julho de 2009

Flores pela janela



Ontem vi flores lindas pela janela.
Elas atraíam meu olhar com a beleza que emudece de tão grande e singela.
Ontem vi homens que andavam a beira da praia. Era uma praia linda, havia um mar de azul transparente, tão claro como valores e conceitos de outro tempo que não existe mais.
As águas do mar e a que escorria pelo chão eram calmas e diáfanas, ao contrário dos homens que estavam inquietos, atormentados, buscavam qualquer espécie de consolo ou sentido que visse do grito, do choro, do silêncio, do abraço. Andavam sem rumo, onde a falta de rumo era o próprio rumo.
Ontem vi pessoas que esperavam por mais alguma coisa, com os olhares perdidos, distantes, os gestos inquietos, o corpo falante.




Ontem vi eu mesma no meu passado e no meu presente, mas não pensei no futuro.
Ontem acredito ter conversado com alguns sem prestar muita atenção nas frases, minha cabeça era tonta e meu corpo cansado.
As vidas individuais que se encaixam como peças a formar o quebra-cabeça desintegrado e sem sentido da realidade apareceram como mágica diante de meu olhar perdido. Pessoas e suas dores, pessoas e suas faltas, pessoas e seus sonhos, alegrias e loucuras. Pessoas e seus gritos mudos no conflito entre o ser e o estar. Li em um livro denso e sincero que para ser é preciso não estar, se o homem está ele perde seu ser em essência, se estamos no mundo competitivo e perdido não somos capazes de ser, apenas estamos, e assim perpetua-se o estar neste mundo que ainda tem muito de bom e de belo, mas também tem muito de mal e também de flagelo.




Ontem vi cheiros e cenas familiares, passei rápido por alguns, me detive mais demoradamente em outros, mas estive, acima de tudo, sonhadora e nostálgica.
Quero sentir em demasia, pensar um pouco menos, quero ser sonho e alento, quero-me livre das dores do corpo, as da alma já me são eternas e, todavia, me enriquecem. Quero não mais pensar no que não vivi, afinal, não esquecerei tão fácil de que ontem fui capaz de olhar para o prosaico do cotidiano e ver muito por detrás de cada olhar, de cada ausência, de cada volta, de cada pessoa a esperar, de cada sorriso ou lágrima a denunciar.
Ontem as vi quando ninguém mais as tinha notado. Não sei ao certo se eu é que as vi ou se elas me desnudaram primeiro, por inteiro. Sei apenas que as vi.
Ontem vi flores lindas pela janela...



segunda-feira, 28 de julho de 2008

"No mar estava escrita a história de uma cidade."

Recentemente fiz uma viagem ao Rio de Janeiro e trouxe dela inúmeras impressões e lembranças de momentos, sensações e reflexões que vivi e fiz. Encantou-me a vontade e a alegria de viver de pessoas que carregam em si uma energia e simpatia espontâneas, inebriei meus olhos com a belíssima paisagem de um mar que parece não ter fim, cortado por montanhas e formas que dão a impressão de terem sido desenhadas. Visitei lugares que marcaram uma época não vivida por mim, mas que pude reconhecer por terem feito história e estarem presentes como símbolos da antiga capital da república. Entre esses lugares estão o Paço Imperial, antiga residência da família real, que hoje funciona como Museu da República. De uma de suas janelas D.Pedro disse a famosa frase: " Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico." Surpreendeu-me a beleza, o luxo e a sofisticação do Teatro Municipal, o cheiro de livro e o ar de conhecimento que paira sobre a Biblioteca Nacional, as cores e formas da arte e a imagem da cultura que marca o Museu Nacional de Belas Artes.
Admirei o fato de o Rio de Janeiro ser uma cidade que homenageia por toda parte aqueles que buscaram inspiração na sua gente e na sua beleza e, de alguma forma, fizeram história no Brasil e no mundo. No bairro do Flamengo há uma região chamada Largo do Machado, onde morava o Escritor (digno da letra maiúscula) Machado de Assis, em uma casa que hoje já não existe mais. No Jardim Botânico há um espaço homenageando Tom Jobim, que buscava conforto e inspiração para suas canções na paz e na beleza do lugar. José Alencar também ganhou um monumento em sua homenagem, e os bustos de D.João espalham-se pela cidade que ele preparou para ser digna de abrigar a corte portuguesa. Tive o imenso prazer de me sentar ao lado de Carlos Drummond de Andrade nas ondas do calçadão da praia de Copacabana. O Poeta, que também é digno da letra maiúscula, estava sem os óculos arrancados pela sétima vez, se não me engano, mas conservava o ar pensativo e simples que marcou toda sua vida na cidade, que como ele mesmo descreveu, teve sua história escrita no mar.
Foi uma viagem que valeu a pena por ter me proporcionado aquela felicidade gratuita, que vem naturalmente, marcando-nos de alguma forma, e também porque dela levo muitas coisas que vi e aprendi. Termino este texto e resumo minhas impressões desta vigem, com uma poesia daquele que ainda habita imóvel o coração desta cidade.


Memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.


Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.


As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão


Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade


quarta-feira, 9 de julho de 2008

Uma história

Dona Rosinha, uma senhora com seus setenta e quatro anos, anda, fingindo estar distraída pela Praça da Sé em São Paulo. Pára em frente a alguma vitrine, foge de lugares cheios de outras mulheres e, sem que se possa perceber, começa a conversar com um homem. O homem é, digamos, de meia-idade, aparentemente alguém livre de qualquer suspeita, muito bem vestido, tem um ar de intelectual e conversa amistosamente com Dona Rosinha. Ela parece desconfortável durante toda conversa, não parece estar simplesmente tendo uma conversa ocasional, os olhares são de um compromisso maior.
Dona Rosinha não é uma senhora como outra qualquer, ela vive sozinha em um barraco simples, de terra batida, com algumas coisas velhas amontoadas e perdidas, somente duas fotografias se destacam em meio à bagunça generalizada. Uma é do seu filho e a outra é sua de quando era moça, talvez uma época menos amarga, mais feliz e não tão solitária como se faz sua velhice. Dona Rosinha mostra as fotos a todos que visitam seu barraco com orgulho, saudade e uma pontinha de tristeza no tom de voz.
Os olhos de Dona Rosinha são cansados, conformados, muito fundos e tristes, como um rio profundo e silencioso no qual você se perde em indagações. O corpo e o rosto são envelhecidos pela idade e pelo temp0, a voz é doce, o jeito meigo e suave, parece o de uma menina frágil e desprotegida que ainda não foi apresentada a este mundo e à sua realidade. Mas voltando à conversa na praça com o homem de meia idade, depois de um tempo, Dona Rosinha sai andando em uma direção e o homem a segue com o mesmo ar de superioridade no rosto. Ela entra em um hotel simples, um local que já está acostumada a freqüentar, haja vista a intimidade que tem com seus administradores. O homem a esta altura já está atrás dela. Dona Rosinha entra no quarto e fecha a porta depois que o homem por ela passa. Ela não diz uma única palavra durante uma meia hora, neste tempo, apenas falam seus olhos tristes e humilhados através de lágrimas disfarçadas. Depois de um tempo ela diz: são trinta reais mais dez do quarto. Ela recebe e o homem sai sem dizer obrigado.
O bom jornalismo realmente é aquele feito de boas e surpreendentes histórias como esta que acabei de conhecer por meio do Profissão Repórter, um programa da Rede Globo que mostra os bastidores da notícia e todo trabalho que envolve a realização de uma reportagem, o programa é sem dúvida alguma um dos poucos redutos do bom jornalismo na televisão brasileira atualmente. Imaginar que uma senhora de 74 anos, que já viveu e passou por muita coisa na vida precisa se prostituir por trinta reais, como ela conta na reportagem, é algo triste que chega a doer em pessoas que ainda têm um mínimo de sensibilidade. Não estou encontrando palavras para expressar minha indignação e tristeza perante uma história como essa, que país é esse onde as pessoas têm que se submeter a situações tão humilhantes simplesmente porque não encontram outra forma de sobreviver a essa selva na qual vivemos, que país é esse que não respeita seus idosos, que têm homens capazes de usar e abusar de alguém que deveria estar tendo uma velhice digna e serena, como ela realmente tem que ser. A prostituição é algo conhecido pela grande maioria dos brasileiros, mas, as suas distorções são algo impressionante. Estas distorções acontecem quando ela envolve jovens e idosos, nestes casos o que já é algo degradante torna-se simplesmente indefinível, insuportável, revoltante.
Esse mundo me surpreende e me impressiona cada dia mais, não há sequer palavras pertinentes para descrever essa nossa caótica realidade. Peço que algum ser superior ou alguma divindade proteja Dona Rosinha porque nesta terra de loucos não sei mais para onde implorar por um pouco de lógica, humanidade e, principalmente, bom senso. A única certeza que tenho em relação às pessoas é que elas precisam viver com dignidade. Dona Rosinha admite no final da reportagem, com a voz meiga e os olhos cansados, que lhe são característicos, que não é feliz. Não esperava outra resposta de alguém que, além de viver sozinha, sem ter qualquer espécie de conforto e proteção familiar, tem que encarar uma realidade tão fria que chega a doer, tão degradante que deixa um vazio nos olhos de Dona Rosinha, olhos de um personagem deste mundo que teve sua vida roubada e não pode sequer desfrutar da serenidade e dignidade que qualquer ser humano merece em sua velhice.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Passeio, família, felicidade...

No meu primeiro artigo neste blog gostaria de falar sobre uma impressão particular que tive durante um passeio agradabilíssimo, que selou o encerramento das atividades deste primeiro semestre com o pessoal da “melhor idade”, e que me fez pensar em coisas simples e um tanto quanto importantes. O lugar que nos recebeu chama-se Porto Feliz, cidade simples de pessoas que carregam o mesmo adjetivo em sua personalidade. O lugar deve se orgulhar por ter uma beleza singela, daquelas que a gente ouve falar, mas demora pra saber como é. A impressão, olha a palavra de novo aparecendo por aí, realmente é uma questão de impressão. Bom, deixemos as divagações de lado, voltemos ao centro da questão, mas aviso logo de cara que você, caro leitor, deve se acostumar com as digressões desta que vos fala. À medida que ia passeando pelas ruas desta cidade que acreditem, já fez história, senti sensações que não se podem definir, posto que por serem sensações não há como explicá-las, realmente é preciso senti-las, mas elas se pareciam muito com o conforto da casa dos pais, ou com a permanência daquilo que é certo.
Não vou descrever os lugares, este não é exatamente o objetivo deste artigo, álias, aconselho ao leitor que os conheça. Mas o que realmente me impressionou foi o contato com a família que nos recebeu. A casa era simples, pequena e um tanto quanto aconchegante, a comida era farta, saborosa, suficiente para o corpo e para a alma. A família era composta por filhos e netos de um casal que construiu uma vida juntos, baseando-se no companheirismo e no respeito, menos efêmeros que o amor, que às vezes cobra demais e quando se vê já se passa. Nem por isso o amor me pareceu ausente, pelo contrário, considerei-o algo que transbordava em cada ato de carinho ou até de punição humanamente responsável daquela família, mas era um amor natural se é que me entendem.

José Roque Neto, em seus desenhos sinais de tristeza, que está muito próxima da felicidade, se é que ambas existem de fato, como sentimentos puros e em essência


Quando cheguei em casa vi que esse passeio não foi como tantos outros que eu havia feito, em tantos outros momentos, foi um passeio aparentemente normal, simples, mas que me fez pensar sobre o que é necessário para que se encontre a tão sonhada felicidade, aquela que tantos falam e poucos têm. Dei-me conta disso quando liguei a TV, hábito esse que não sei quando vai me abandonar, e, oportunamente, bom pelo menos acho que foi oportuno, vi uma das cenas da atual novela das oito da Rede Globo, A Favorita. Confesso que sempre pensei que novelas não são capazes de acrescentar nada às pessoas, mas neste dia vi que até aquilo que não acrescenta em nada pode servir de fato para algo construtivo, deixemos o maniqueísmo de lado, assim como ninguém é bom ou mau em essência, nada é inútil ou desnecessário por completo. Mudei, em parte, minha opinião. Vi uma cena que mostrava uma família, aparentemente com os personagens centrais da trama, a casa era luxuosa e grande, ao mesmo tempo vazia e vulnerável, a comida era farta e exagerada e as relações entre pais e filhos (como já diria Renato Russo) eram um tanto quanto frágeis e desequilibradas. O amor era excessivo, as lágrimas exageradas, as dores inventadas, o importante não existia e o descartável sobrava. Não enxerguei na família da ficção, que não deixa de representar tantas famílias da realidade, o brilho e a segurança no olhar que reconheci nos olhos da família de Porto Feliz, onde eles pareciam dizer uns aos outros “eu sei que posso contar com você." Resumindo, não encontrei a felicidade da qual tive o prazer de compartilhar naquela tarde, naquele passeio, felicidadade que brota daquilo que se convencionou chamar de "família de verdade." Dormi pensando em uma frase de Tolstoi, com a qual ele começa o seu romance Anna Karenina, a frase dizia: “todas as famílias felizes se parecem." Quando finalmente peguei no sono vi que, somente naquele dia, tinha entendido o significado da frase.