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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Especial



Diante de muitas questões que se colocam na atualidade, tantos desafios, causas mais humanas e carregadas de sentidos pelas quais lutar, a cooperação, sincronização e organização coletiva fazem falta no sentido de evitar que este nosso tempo, onde dificilmente conseguimos atingir um grau de participação e organização coletiva harmônica, seja marcado por lutas isoladas, angústias espalhadas e condenadas à falta de esperança, vozes que gritam mudas, porque solitárias, pessoas que falam e ouvem quase que constantemente o eco da própria voz.

Eis que surge, neste caótico e fantástico mundo nosso, um vídeo, produzido por alunos de uma Faculdade de Comunicação em Quebec, que é uma espécie de aula, um exemplo claro de como sincronia é apenas uma questão de treino, vontade, concentração, esforço e disposição das pessoas para tal.

O vídeo tem vários elementos que o tornam original e interessante. Primeiramente, não há edição, a gravação é contínua, ininterrupta e há uma perfeita sincronia entre música, movimento de corpo, movimentos gestuais, fala e dinâmica espaço temporal. Além de animado e divertido, ele trás uma proposta de produção totalmente diferenciada que depende, acima de tudo, da cooperação, participação e perfeita harmonia entre todos os participantes e também entre o conjunto de signos que ajudam a dar vida a ele.

É justamente com a colaboração de todos que se faz outro jornalismo, outro capitalismo, outro socialismo, outra realidade, outro professor, outra escola, outra universidade, outro amor, outra viajem. É com a voz coletiva que se constroem outros discursos, outras lógicas, que se erguem mais pontes e menos muros, que se recitam mais versos e menos ordens, que se abrem mais sorrisos e abraços, que se ajusta o olhar, sem muita luz ou muita sombra. É encarando esta luta como coletiva, carregada de um sentido social, pautada por uma verdadeira ética baseada em valores, não em moral que se conquista qualquer coisa, seja ela um prêmio, um namorado, uma vitória, um emprego, uma boa história.

É claro que tudo começa em cada um, a semente da luta, da insatisfação, do descontentamento, da busca por mais sentidos, por mais poesia, por mais humanismo, por mais verdade, por mais alegria é plantada no coração de cada um, no coração daqueles onde a terra é mais fértil, mais aberta, menos fechada, menos absoluta, mais inacabada, onde a terra é menos seca e mais molhada. Mas essa semente depois de plantada, depois que crescer, de em árvore se transformar, revelando toda potência existente no atual que se realiza por fim no virtual, não consegue crescer e se fazer árvore apenas a partir da semente, esta para germinar precisa da água, da luz, dos pequenos encantos da natureza viva, ou seja, a semente plantada não se faz árvore sozinha.

Da mesma forma, aquele que quer mudar, não muda sozinho, ele precisa do outro, ele precisa de outros sonhos tão belos quanto o seu, que fortaleçam o seu, ele precisa da sincronia dos alunos de Quebec para que, assim como eles, produzam um vídeo sem edições, uma obra completa, bela, que ao menos faça sentido, que ao menos queira sempre construir. Às vezes, podemos achar que estamos sozinhos, no desespero de um dia, quando somos destruídos por alguma outra pessoa sem aquela mesma terra fértil a cobrir seu coração, mas depois que o desespero passa é possível ver que não estamos sozinhos, é possível se completar com as coisas miúdas e fazer delas encantadas. É possível fazer das pequenas coisas o encanto da vida, extraindo o silêncio de suas mais profundas e intraduzíveis cores e formas.

Começemos pela poesia...

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.


Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

"Meu fado é de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades."

"No osso da fala dos loucos têm lírios."

“Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser árvore.”

Manoel de Barros

domingo, 4 de outubro de 2009

Desejo

Luiz Fuganti


Luiz Fuganti é filósofo, arquiteto, professor e escritor. Desde 1986 ministra cursos, palestras e seminários acerca de um tipo de pensamento sem referências, imanente à própria natureza. Foi um dos fundadores da ONG Pivot em 2002, não mantém vínculos institucionais e criou um movimento, a Escola Nômade de Filosofia, resultante das práticas de pensamento que vem realizando.

Recentemente, assisti a uma palestra de Luiz Fuganti que desconstruiu a idéia de verdade comumente estabelecida entre nós. Ele começou sua palestra indagando “quem precisa da verdade?” e durante toda a sua fala buscou demonstrar diante do público a coerência e sustentabilidade da resposta dada por ele a esta pergunta “aquele que precisa da verdade exterior, imposta, construída sócio-historicamente e religiosamente é aquele que possui uma vida reativa em contraposição a uma vida em essência, dotada de potencialidade e autonomia, pensamento alegre e produção de um corpo pleno”.

A partir daí, Fuganti discorre sobre a história da verdade, fala dos três mestres da verdade na antiguidade grega, sobre um novo mestre da verdade e, por fim, sobre a condição de acesso à verdade. Como pano de fundo de todas essas discussões sobre verdade e mentira aparece a relação entre o desejo e o pensamento, quando Fuganti nos revela a existência de dois caminhos: o caminho da forma e o caminho do acontecimento, sendo que apenas este último é capaz de nos conduzir a uma verdade.

Verdade esta que não se faz absoluta em relação ao mundo exterior e físico das aparências, posto que esta não existe, mas verdade do mundo interior de quem constrói uma vida cuja essência permite recebê-la.
As ideias de Fuganti se contrapõem ao tempo em que vivemos, um tempo em que não mais se ousa desejar, agir epensar, um tempo onde a covardia, o medo de arriscar e de criar novas maneiras de viver corrói as consciências, como diz o filósofo.

"Vivemos um pessimismo e conformismo íntimos da contemporaneidade e com isso nos esquecemos de buscar e nutrir modos de vida que se constituem como autênticas obras de arte e modos de eternidade." (Luiz Fuganti)


Aos navegantes indico aqui um vídeo no qual Fuganti fala sobre o desejo e sobre a ilusão que construímos em torno dele. O filósofo diz que nosso grande equívoco na contemporaneidade é conceber o desejo como um sentimento que deseja algo exterior a nós, que está fora do nosso alcançe e que complementaria a nossa substância, o nosso sujeito, ou seja, ao desejo faltaria o objeto, ele se constituiria na falta, um grave erro que alimenta muita confusão e serve apenas ao poder, este que se nutre de ilusão e confusão.

Fuganti aponta um caminho para que essa ilusão possa ser desfeita desde que o sujeito entenda que tudo começa pelo meio, o desejo na verdade está no próprio acontecimento, no cerne do acontecimento, como diz Fuganti, então é o acontecimento que deseja em nós e não algo em nós que deseja o objeto.
O sujeito precisa encontrar a natureza do desejo no inconsciente da superfície: a virtualidade. O virtual é que deseja em nós, na medida em que a presença que nos constitui se encontra com a virtualidade do acontecimento. Nesse encontro o desejo emerge e se efetua.
Desafio fugantiano: O que é o acontecimento que deseja em nós? O segredo é chegar até ele para nos libertarmos de todos os sistemas de referência.

sábado, 5 de setembro de 2009

"Busquemos uma vontade de comunicar e não simplesmente informar"



Dominique Wolton, sociólogo francês




O sociólogo francês e membro do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França, Dominique Wolton, falou ontem à noite a cerca de dois mil participantes na abertura do Intercom, XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, que acontece em Curitiba dos dias 4 a 7 de setembro.
Dominique falou sobre a comunicação como valor democrático e grande questão política do século XXI e enfatizou, em vários momentos, a diferença entre a informação e a comunicação, afirmando que a grande descoberta do século XX é que temos muita informação, mas não nos comunicamos de fato.
Diante disso, o sociólogo enumerou algumas dificuldades instaladas na sociedade contemporânea que impedem uma comunicação que tenha como objetivo maior o conhecimento e não a simples troca alucinada de mensagens.
A primeira delas diz respeito à dificuldade do homem em tolerar e conviver. Se não há convivência, não há possibilidade de comunicação, assim como não há democracia sem comunicação e a democracia pressupõe justamente valores que orientam uma boa convivência, como o respeito ao outro e a negociação pura e simples, em busca da aceitação dos valores do outro. O Brasil é citado por ele como sendo um exemplo de lição política e de convivência.
A segunda dificuldade diz respeito à ausência de um espaço político efetivo. Segundo ele, vivemos em um mundo onde a imprensa se instaura, há uma participação cada vez mais ativa da opinião pública e a comunicação política se impõe como motor e cerne da democracia, uma comunicação que não é marketing e sim condição para o seu funcionamento.
Ao mesmo tempo, ele ressalta que vivemos um modelo de democracia de massa, com um sufrágio universal contraditório e uma comunicação que se faz contraditória dentro da lógica globalizada.
A globalização por sua vez, segundo Dominique, veio depois do fim do comunismo e inaugurou a era da multipolaridade do poder no contexto de um mundo sem regulação, onde a produção e difusão de milhares de informações não basta para que ocorra a comunicação, já que, neste ponto, surge a potência da alteridade, ou seja, o peso do outro que nunca está totalmente alinhado com a nossa opinião.
O fato é que a mídia, segundo o sociólogo, se constitui como uma "mídia come tudo", em outras palavras, os espaços midiáticos são superiores aos políticos, há um reforço da mídia e da opinião pública e um enfraquecimento do peso político. Com uma política enfraquecida, a relação entre os homens, objeto primeiro desta, também se enfraquece. Se, no pensamento de Dominique, para ocorrer a comunicação a figura do outro e as relações humanas são essenciais, com um espaço político enfraquecido gera-se uma grande dificuldade para que a comunicação aconteça de fato.
Outra contradição apontada por Dominique existe entre a velocidade da informação e a lentidão na comunicação, já que para esta ocorrer os homens precisam se compreender e isto não acontece, pois a política é falha, como dito acima.
O comunitarismo também é apontado por ele como uma ameaça ao estado nacional, alimentando a ilusão interativa criada pela internet e dificultando a comunicação. A ilusão que temos de transparência também dificulta a comunicação segundo Dominique, já que ter transparência não garante efetivamente uma melhor compreensão da informação.

Mas o quê fazer para salvar o lugar da comunicação e o modelo democrático?

- primeiramente, entender a comunicação como uma relação mais complexa que a simples mensagem divulgada e transmitida.
- olhar a comunicação como algo essencial para o ser humano que pressupõe duas atitudes básicas e primeiras: a negociação e a convivência para garantir o mínimo de equilíbrio na organização social, em um contexto de globalização cultural, não só econômica e política.
- lutar contra a ideologia da técnica. Dominique diz que transferimos toda deficiência na comunicação para a performance técnica, enquanto que, na verdade, na comunicação o mais complicado não é a técnica e sim o homem. O homem pode ser ruim ou bom com a técnica, no entanto, esta é sempre neutra. Portanto, seja qual for a performance das ferramentas, o social é sempre mais complexo.
- enfatizar o papel da comunidade internacional e levar a política para a internet, implantando um direito relacionado a ela no âmbito da Lei Democrática Mundial.
- construir zonas regionais de convivência política, passar do mito da Aldeia Global para a tragédia da Torre de Babel. Um exemplo citado por ele é a União Europeia, modelo de convivência política que pode ser inventado.
- reforçar espaços públicos nacionais e reduzir a concentração da indústria cultural e do conhecimento em nível mundial.
- revalorizar e defender a profissão de jornalista, reduzindo a demagogia de que não precisamos mais de professor, jornalista ou médico na sociedade da informação. Esta não é uma sociedade onde todos fazem tudo e sabem de tudo, mas onde se valoriza o papel das mídias intermediárias.


Momentos de Dominique:

"Devemos nos constituir como seres sociais, não técnicos."
"Compreender que não compreendemos o outro, só assim pode existir respeito e a percepção de que não há uma hierarquia de culturas."
"O homem precisa ter cuidado para não ser vítima da própria vitória. Somos mais complicados que um computador. Guerras são fenômenos políticos, humanos, não técnicos."
"A evolução técnica não extingue a matança no mundo, os homens continuam a matar-se uns aos outros, aí entra a convivência, elemento indispensável para a paz. Se quisermos paz devemos considerar o humano além da técnica e praticar uma palavra que talvez nunca tenha sido valorizada e considerada na história da humanidade: tolerância."
"Busquemos uma vontade de comunicar e não simplesmente informar."
"Que os homens pratiquem o reconhecimento de uma alteridade que não rompa o laço frágil do amor. Este pode parecer pouco, mas é tudo, e quando ele acaba não resta nada. Por isso, toleremo-nos e busquemos uma verdadeira educação política."

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Bonecas da Primavera




O Grupo Primavera foi fundado por voluntárias em 1981 e desenvolve programas de educação complementar junto a meninas de 8 a 17 anos, moradoras do Jardim São Marcos, na periferia de Campinas. Atualmente, os projetos da entidade atingem mais de 400 adolescentes, suas famílias e a comunidade local.
O Grupo Primavera existe em um espaço que de longe pode parecer pequeno, mas, à medida que se entra pelos seus corredores e portas escondidas, salas vão se abrindo. São espaços livres onde acontecem aulas de dança, salas com computadores de última geração onde as meninas aprendem a utilizar as infinitas possibilidades da rede e são inseridas no mundo da tecnologia e salas sem computadores, mas com lousas e carteiras para que as meninas possam se construir por meio do conhecimento básico e essencial.
A grande marca do Grupo Primavera são as bonecas. Estas que são a companheira de infância de todas as mulheres, o rascunho de seus filhos do futuro, a promessa de um talento de ser mãe. O grupo primavera tem um espaço onde funciona uma oficina de confecção de bonecas de pano. Na oficina, um colorido que mistura alegria e esperança invade os olhos emocionados de quem entra. São retalhos espalhados pelo chão, linhas coloridas pelas paredes, mesas cheias de bonecas ainda não acabadas, pois nestas mesas estão sentadas mulheres e meninas com a missão de, justamente, terminá-las. Além da confecção de bonecas é possível notar que algumas peças de artesanato também saem de mãos tão habilidosas, sensíveis e lutadoras. Tudo é feito com muito cuidado, a boneca é delicada e autêntica em cada detalhe, parecendo sofisticada e simples, infantil e madura, às vezes menos brinquedo e mais menina, mais uma das meninas do Grupo Primavera. As bonecas depois de prontas são vendidas em uma loja do Shopping Galleria em Campinas, espaço cedido gratuitamente pelo Shopping ao grupo. Toda renda proveniente das vendas é revertida em benefícios para o Grupo Primavera. Sem dúvida alguma, a oficina de bonecas é um dos motores principais desta entidade voluntária, já que além de oferecer trabalho para as mulheres da comunidade e atividade para as meninas do grupo, gera uma renda que ajuda o Grupo a crescer e se modernizar cada vez mais, visando sempre uma melhor formação humana e educacional, com base em valores e vivência cultural.




No entanto, a oficina não é o motor principal do Grupo Primavera. Mais importante do que ela é a iniciativa, a coragem e a determinação de um grupo de mulheres que decidiu, voluntariamente, olhar para outras mulheres que precisavam exatamente deste olhar. Simone Rodrigues, uma das mulheres que fazem parte do conselho da entidade, lembra que as meninas, em sua maioria, não têm histórias muito felizes. São traços do abandono, da desigualdade de oportunidades e do desperdício de talentos. Vítimas da violência, da ausência de cultura e educação. Desconhecem essas meninas o que é esperança e sonho.
No entanto, uma vez no Grupo Primavera essas meninas conhecem outra realidade. “As meninas ficam o dia todo aqui com a gente. Elas se revezam em atividades como aula de dança, aula de informática, aulas referentes às matérias básicas do ensino infantil, fundamental e médio e de cursinho preparatório para vestibulinhos dos cursos técnicos. Para ministrar todas essas atividades, contamos com um grupo de educadores, psicólogos e temos também uma assistente social”, diz Simone.
Enquanto andava pelos corredores do Grupo Primavera e me admirava com tudo aquilo, pensava em como os brasileiros lutam para melhorar a realidade do nosso país. As mulheres do Grupo Primavera me fizeram lembrar como somos um povo corajoso, que, de repente, deixa de olhar para si mesmo e olha para o próximo, para alguém que precisa de mais, que pede mais.
O Brasil ainda está cheio de desigualdades, abismos, cenas que envergonham e chocam, ainda estamos longe de uma democracia, muito menos de uma civilidade humana e cultural, mas temos exemplos como o das mulheres que construíram e constroem diariamente o Grupo Primavera e, como elas, aposto que muitas outras também dedicam parte do seu dia e do seu tempo para ajudar o outro sem exigir nada em troca, exemplo maior de alteridade e consciência social.
É com ações como a do Grupo Primavera que se constrói um país melhor. O Grupo me encantou, pois reúne tudo o que um país e seu povo, principalmente seus jovens, precisam: educação e cultura.
Que as bonecas do Grupo Primavera espalhem sua beleza, suas cores e sua inocência por esse nosso mundo que há muito parece ter se esquecido delas.

Uma vez vi uma flor se abrindo no inverno, a despeito da neve...
Nunca me esqueci. Tomei essa visão como metáfora do que acontece na vida: nos campos queimados pela geada, há sinais de Primavera.
Assim é o Grupo Primavera, sinal de esperança para crianças e adolescentes que não têm esperança.
Ao pensar no Grupo Primavera, eu sorrio de felicidade como corri ao ver aquela flor teimosa sob a neve...
Ajudar o Grupo Primavera é ajudar a Primavera a florescer...

Rubem Alves
Educador, escritor, psicanalista e professor emérito da Unicamp



Do ninho do passarinho
Ele voa rapidinho

Com olhinhos de jasmim

Ele pisca para mim!

Mariela Concino dos Santos, 10 anos


Menina quando nasce
Chora sem parar

De onde sai lágrima menina?

Sai do meu olhar!


Gracielle B. de Mello, 11 anos


Essas poesias foram produzidas por meninas do Grupo Primavera em oficinas realizadas pela poetiza Sarah de Oliveira Passarella na última semana de julho, com 28 meninas, de 10 a 11 anos.

O Grupo Primavera recebeu o prêmio Kanitz Bem-Eficiente, "Melhor da Década" (2006) e tem conquistado reconhecimento nacional e internacional, como da UNICEF e da UNESCO.


Loja do Grupo Primavera


sábado, 8 de agosto de 2009

Princesas decaídas e reflexões sobre o amor

Branca de Neve: cheia de filhos e o príncipe no sofá


Qualquer mulher quando visita sua infância se lembra das princesas e heroínas dos contos de fadas. Mulheres lindas, sensíveis, inocentes e, ao mesmo tempo, sedutoras. Mulheres perfeitas, idealizadas, possíveis apenas no território da ficção, distantes das dificuldades e da realidade da vida. Talvez, o que sempre tenha nos fascinado nessas princesas seja justamente essa perfeição e a certeza de um final feliz, aquele onde todas as dificuldades e maldades são superadas em busca do tão repetido “e eles viveram felizes para sempre”.
As princesas são parte da infância de muitas mulheres. Elas são nossos sonhos, nossa projeção, a inocência típica desta inicial fase da vida. Difícil encontrar uma mulher que não tenha uma princesa preferida, mais difícil ainda encontrar alguma que não sonhou com um grande amor, talvez um príncipe que não viesse em um cavalo branco, mas que soubesse ao menos fazê-la feliz. O fato é que um dia acordamos para a realidade ou a realidade nos acorda, vemos que os príncipes não são tão belos assim, as princesas não tão perfeitas e as histórias nem sempre tão felizes e carregadas daquele maniqueísmo simplista.
A fotógrafa canadense Dina Goldstein vem nos ajudar nesta descoberta com sua série “Fallen Princesses” (Princesas Decaídas), onde ela traz as princesas popularizadas por Walt Disney para o mundo real, que inclui situações nem sempre tão agradáveis. As fotografias são belas, coloridas, inteligentes e reais. Além de criativas, propõem uma reflexão sobre a realidade do amor por meio da estética da arte.
É, um pouco de realidade não faz mal a ninguém, afinal, se os contos de fadas não existem o verdadeiro amor mostra-se real e belo justamente nas suas dificuldades e imperfeições, materializando-se em diferentes histórias do nosso cotidiano, muitas vezes, o que nos falta é apenas um pouco de coragem para vivê-lo já que o verdadeiro amor costuma não ser o mais fácil. Mas, como dizem, a sua chama não se apaga nunca, nem mesmo depois da morte.

terça-feira, 21 de julho de 2009

"O jornalismo tem que ter literatura", diz Gay Talese

O jornalista e escritor Gay Talese



O jornalista e escritor norte-americano Gay Talese foi o entrevistado do programa Roda Viva da TV Cultura exibido nesta segunda-feira, 20 de julho de 2009. Gay Talese se tornou um dos expoentes do gênero literário mais conhecido como New Journalism – uma inovação de origem um tanto incerta, surgida principalmente nas revistas Esquire, Haper’s, e The New Yorker, ao lado de outros nomes como Truman Capote e Tom Wolf. O New Journalism é um jornalismo de não-ficção, ou seja, ele se baseia em fatos da realidade, do cotidiano, mas os relata de uma forma um pouco diferente do modelo tradicional, dando aos acontecimentos um toque literário, um olhar mais amplo, profundo e humano.
Muitos críticos ao New Journalism dizem que os autores deste gênero deturpam os fatos para conseguir um maior efeito dramático, afirmação que o próprio Talese contesta em seu livro Fama e Anonimato. Neste, Talese afirma que embora, muitas vezes, o novo jornalismo seja lido como ficção, ele não é ficção. Segundo o jornalista e escritor, ele é, ou pelo menos deveria ser, tão fidedigno quanto a mais fidedigna reportagem, embora busque uma verdade mais ampla que a obtida pela mera compilação de fatos passíveis de verificação, pelo uso de aspas e observância dos rígidos princípios organizacionais a moda antiga. Ainda segundo Talese, o novo jornalismo permite uma abordagem mais imaginativa da reportagem, possibilitando que o narrador se insira na narrativa ou assuma uma postura mais neutra diante dos fatos e dos personagens que compõem uma história a ser contada.
Mas, New Journalism a parte, a entrevista de Talese no Roda Viva teve muitos pontos positivos. O jornalista mostrou em cada pergunta sua facilidade com as palavras, sua fala natural e articulada, seu raciocínio lógico, seus valores morais e pessoais. Ele falou do jornalismo como alguém que realmente vive e é apaixonado pelo que faz. Enumerou os princípios básicos que devem orientar o jornalista em sua profissão. Segundo Talese seriam eles: curiosidade, busca pela exatidão e precisão e, o que ele considera o mais importante, capacidade de produzir um bom texto, se possível com literatura. Ao falar de exatidão e precisão, o jornalista ressaltou que estas são mais importantes que a velocidade ou a rapidez na apuração de um fato. Não concorda com os jornalistas que são obcecados por furos. Segundo Talese, um bom jornalismo se faz com precisão, responsabilidade e isenção. Ele não se importa de passar meses pesquisando um tema, mergulhado na vida de algum personagem, nos cenários de algum lugar. O importante é reunir dados suficientes para que no final você possa produzir uma boa reportagem, diz Talese. E aí entra o ponto mais interessante de sua entrevista: o texto jornalístico. Ele disse que de nada adianta curiosidade, apuração ou precisão se o jornalista não for capaz de elaborar um bom texto, de saber distribuir as palavras, equilibrar as impressões e transmitir para um pedaço de papel a realidade por ele vista da forma mais clara e harmoniosa possível, o que só se consegue com um conhecimento profundo da língua com a qual se escreve. É necessário compreender suas regras e seus recursos literários. Por isso, em sua opinião, um bom texto tem que ter literatura.
A literatura, quando bem utilizada, enriquece o relato, tornando-o mais interessante e rico. Talese lembra que quando lemos um romance de ficção nos interessamos pela história, nos identificamos com personagens ali retratados e somos envolvidos pelo correto e sedutor uso da linguagem, ou seja, somos seduzidos pela literatura. Um texto de não-ficção deveria ser tão bem escrito a ponto de provocar o mesmo efeito, envolvendo o leitor nos fatos da realidade, não nas espirais da imaginação e da fantasia, mas envolvendo-o a ponto de tornar a realidade algo tão interessante e importante quanto um bom romance. O essencial é perceber que a literatura pode estar presente no jornalismo de maneiras muito sutis, em textos puramente informativos, que visam a objetividade, ou em textos como crônicas e perfis, que já adotam e admitem um tom mais poético.
Além de defender a literatura como forma de enriquecer o texto jornalístico sem que este perca sua função originalmente informativa, Talese falou da importância de estar com as pessoas, de manter uma boa relação com as fontes, tornar-se quase que íntimo delas, ganhando a sua confiança. Defendeu o contato humano, real, em detrimento da mediação tecnológica, cada vez mais freqüente e comum no jornalismo atual.
Quando perguntado a respeito da formação necessária para se tornar um bom jornalista, Talese disse que não acredita que alguém se forme jornalista, para ele, o jornalista de verdade precisa ter algo dentro dele que o chame para o jornalismo, algo que vai muito além de técnicas, aparências, furos e passa muito perto da determinação, vontade, persistência, paixão pelas pessoas, pelas histórias e pela palavra escrita.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Manifestação X Arte

Boneco de borracha apresentado na 53ª edição da Bienal de Veneza: manifestação pura e simples ou técnica artistica na semelhança com o real?



Nas palavras de Robert Hughes, um dos mais famosos críticos de arte do mundo, “a experimentação em arte é somente figura de retórica”. Esta frase e as demais ideias expostas em recente texto do jornalista Mino Carta, publicado na revista Carta Capital, me colocaram a refletir sobre a arte e sobre algumas outras questões como a existência de limites em sua constituição e a delimitação, às vezes esfumaçada, da fronteira entre a arte que é arte e a manifestação pura e simples de qualquer coisa que se faça disfarçada e materializada no jogo de cores e formas de um quadro, no movimento de luzes e corpos no palco, nas entrelinhas das páginas de um livro, nos passos de um espetáculo, nas formas subjetivas de um objeto esculpido para ser admirado ou decifrado. Como se olhasse esses conceitos refletidos no espelho de minha memória encontrei no inconsciente indagações a respeito da possibilidade de espetacularização da experiência artística e imbecialização parcial, não geral, do mundo, dos homens, da lógica moderna.
Há uma frase que gosto do poeta Ferreira Gullar que diz: “Toda arte é manifestação, mas nem toda manifestação é arte”. Gullar tem uma visão mais crítica em relação à arte dita moderna e contemporânea. Ele exagera em alguns pontos de sua posição, generalizando certos conceitos, mas o considero claro e correto em outros, como quando ele fala em critérios, em certa racionalidade na construção da obra artística, em uma coerência mínima entre os elementos que a desenham, que a revelam aos olhos do mundo. Gullar fala de razão, critério e coerência, palavras cada vez mais raras em um mundo que confunde liberdade de expressão com técnica artística ou jornalística (fazendo aqui uma breve, mas suficiente menção a respeito da polêmica do diploma para exercer a profissão de jornalista). Queremos ser multiculturais, modernos, abertos, globalizados, mas esquecemos de ser claros, lúcidos, sólidos. Sou uma defensora clara da liberdade, da arte em toda sua expressão e plenitude para que ela deixe transparecer os mais profundos sentimentos, as mais belas sensações, os mais impossíveis dramas e amores, mas acredito que ainda mais importante que a liberdade seja o conhecimento, posto que a liberdade nos é tirada já o conhecimento não, ele se faz cumulativo e eterno. Uma arte apenas livre pode ser refutada, tornando-se ligeira e frágil, mas uma arte pensada, fundamentada no conhecimento e no saber artístico é eterna, forte, pungente e lancinante.
Exemplos como o da recente Bienal de Veneza nos mostram o quanto a arte pode perder parte da sua estética em benefício da obsessão pelo novo e da reprodução de modelos midiáticos. A arte tem se transformado, em alguns casos, em mais um produto da indústria cultural, ou seja, tornou-se superficial, anti-reflexiva, descartável, efêmera e banalizada.
A arte contemporânea tem muito de belo, de sentido, de lógica, de emoção, mas alguns de seus cantos por vezes mostram-se incoerentes e, neste caso, é preciso razão e discernimento técnico e estético para aparar as arestas, acertar os detalhes e mostrar ao público o real sentido da experiência artística que é, basicamente, a busca do diálogo entre texto, imagem, objeto, dor e, por vezes, loucura, estabelecendo uma relação entre as diferentes formas artísticas. A arte deve se fazer sempre da complementaridade de processos criativos que possam, acima de tudo, ampliar o sentido cultural. Lembremos que a linha que separa a razão da emoção, a técnica da inspiração, o conhecimento da vocação é muito tênue. É preciso ter cuidado no fazer arte, ela é mais do que uma pura e simples manifestação, ela é menos do que uma técnica rígida, mas ela bebe de todas essas fontes para se constituir enquanto melhor representação da verdadeira liberdade - a liberdade que existe no conhecimento.

domingo, 31 de maio de 2009

"Madame Bovary sou eu", diz Gustave Flaubert

Jennifer Jones como Emma Bovary no filme A Brief Summary, de 1949

Estive lendo sobre Gustave Flaubert, mestre do realismo francês, minucioso na escolha das palavras, sentimental nos detalhes de um cotidiano para ele mortalmente carregado de tédio, ensopado do mesmo, inebriado por falsidades e convencionalismos. Estive lendo sobre suas obras, suas influências, sua história de vida marcada por solidões ocasionais e por ataques nervosos depois dos quais sobrevinha sempre a perda da consciência.
Segundo os médicos, Flaubert extravasava sua demasiada energia por meio desses acessos “histérico-epiléticos”. Os ataques desapareceram durante muitos anos de sua vida e só voltariam a agredi-lo no fim de sua existência. Existência esta que se encerra quando a palavra certa já não lhe ocorria mais, quando a mão já não tinha mais firmeza. Com um golpe mortal, o tédio se dissolve, a vida para. Em um dia de primavera de 1880 esse grande escritor francês resolve enfim suas inquietações, mesmo assim, morre sem cumprir uma das promessas que fez a um amigo. Flaubert queria resumir a sua vida, dizia ele, “tentarei contar-me a mim mesmo”.
Lendo tantas coisas sobre o escritor o que mais me impressionou foi entendê-lo justo por meio de sua personagem mais emblemática, forte, densa, misteriosa e fantástica - Emma Bovary, ou Madame Bovary. No livro que leva o nome da personagem, Flaubert decide atacar a moral burguesa, posta a nu em toda sua fragilidade, convencionalismo e falsidade, por meio da caracterização da vida monótona e sem atrativos da província.
O livro foi classificado por muitos da sociedade da época como imoral e, por isso, foi censurado, tendo sua publicação suspendia e seu autor processado. Flaubert sentou-se no banco dos réus em janeiro de 1857 para responder ao processo e ouvir um promotor pequeno e nervoso descrever Emma Bovary citando passagens do livro e investindo contra o autor.
Gustave Flaubert
A heroína era descrita e vista como depravada pela burguesia francesa, mas, segundo o advogado de defesa de Flaubert, toda depravação de Emma tinha que ser muito bem descrita, como de fato o foi pelo autor, para provar que o seu fim trágico constituiria o justo castigo de seus erros. Flaubert acabou absolvido graças à habilidade da defesa em distorcer e dissimular os verdadeiros propósitos de sua obra. Esta, uma vez publicada, esgotou-se em pouco tempo. Todos queriam saber quem era Madame Bovary, em quem o autor se inspirara para criar essa mulher que causava tanto alarde, tanta discussão. Porque ela era tão perigosa para os valores daquela sociedade tediante e vazia era a pergunta a que muitos se faziam na época.
A realidade é que Emma era a única personagem do romance de Flaubert que, para escapar à mediocridade do ambiente, enfrenta os preconceitos e persegue os próprios sonhos e aspirações. Por sua coragem e autenticidade ela se faz linda e sedutora e fica ainda mais instigante por meio da descrição de um autor que desejava a forma perfeita, a palavra certa e passava noites em busca de um adjetivo, semanas atrás de uma frase, escrevia e reescrevia uma página dezenas de vezes.
Mas, afinal, quem seria a mulher inspiradora de tão enigmática personagem? Nenhuma pista era satisfatória até que Flaubert decidiu revelar quem era Madame Bovary. “Madame Bovary sou eu” disse o escritor. De fato, conhecendo um pouco melhor a história do autor das linhas que deram forma a tão incrível mulher, percebe-se que a frase encerra muita verdade. Flaubert teve em sua vida o mesmo temperamento romântico de Emma e, assim como ela, também procurava fugir à mesquinhez cotidiana e sonhava com amores irreais, ansiando por uma existência mais plena.
Talvez, assim como Emma ele também cultivasse o desejo de sucumbir ao gosto do arsênico não vendo saída para a complexidade das experiências de uma natureza humana que se nega a fazer os pactos a que sorrateiramente somos coagidos por um entorno saturado pela aparência e falsidade das relações. O próprio Flaubert chegou a declarar ao concluir Madame Bovary: “Quando escrevi a cena do envenenamento, senti na boca o gosto do arsênico, senti-me envenenado. Tanto que tive duas indigestões seguidas – duas indigestões reais...”

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A igreja na sociedade do espetáculo

Fé na mídia: a cruz é a antena, a antena é a cruz

Vivemos no mundo pós-moderno, na era da internet e da globalização, na sociedade da telemática - aquela que transmite voz, dados e imagem em tempo real. Somos iludidos e bombardeados pelas ofertas de consumo em uma sociedade onde as partes se diluem no todo. Impera a superficialidade, o materialismo, o culto ao corpo, a pressa que não nos permite viver o lento, a dinâmica do tempo. Em meio à ilusão de conectividade, estamos mais isolados do que nunca, individualizados, perdemos a noção do coletivo e não encontramos um sentido para nossa vida. Somos apenas mais uma engrenagem da roda do mercado que gira frenética impulsionada pela lógica do espetáculo, pela midiatização generalizada e pelas regras da indústria cultural.


Rebanho que cresce: evangélicos na Marcha para Jesus em São Paulo, junho de 2008


O mercado e as regras desta sociedade capitalista parecem ter tomado conta de tudo, inclusive da própria espiritualidade que já não escapa da lógica esvaziada de sentido que pauta a sociedade moderna. Falo aqui de um fenômeno que vem se tornando cada vez mais comum nos dias de hoje: o processo de midiatização e adaptação às regras de mercado por que passa a igreja na atualidade. As chamada igrejas históricas ou tradicionais (católica e protestante, por exemplo) adaptam forma, linguagem e discurso para se inserir dentro das regras da sociedade mídia-espetáculo, com isso, ocorre um nítido processo de mercantilização da fé e espetacularização da experiência religiosa que perde a sua gratuidade.
A fé e o milagre viraram condição, a gratuidade e a essência da espiritualidade deram lugar a discursos superficiais e sedutores que transformaram a fé em um produto e o fiel em um simples consumidor. Percebemos, claramente, neste processo de midiatização e espetacularização da igreja o cotidiano travestido em linguagem ficcional e a substituição da lógica da fraternidade e da solidariedade pela lógica da concorrência já que em um cenário marcado pela liberdade religiosa há uma pluralidade de religiões que se vêm como concorrentes, disputando consumidores e deixando claro aquilo que dissemos no início: a sociedade de mercado tomou conta da nossa espiritualidade.

Decano dos televangelistas: Bispo R.R Soares está há mais de 25 anos no ar


A realidade é que neste processo de espetacularização as essências se perdem em favor de uma uniformização da fé que navega ao sabor das ondas do mercado. O vínculo comunitário fica pra trás dando lugar à experiência religiosa direta e individualizada, em outras palavras, ao discurso “Deus sem religião”. Ocorre um acúmulo de mediações e a lógica da indústria cultural de dar ao público o que ele precisa e, em um segundo momento, dizer a ele o que ele deve querer bate na porta dos templos eletrônicos e entra à vontade, sem pedir licença.
Em meio a essa inversão de valores e verdades, a igreja quantifica o mercado religioso, o reduz a números e estatísticas e, visando crescer tal como uma empresa, incorpora as ferramentas de marketing para alcançar maior visibilidade e ajustar a sua oferta à demanda. Tudo é pensado para aumentar o número de adeptos à sua mensagem e, consequentemente, o lucro, satisfazendo desejos e necessidades do consumidor da fé.
Mas, a consequência mais grave de todo esse processo de espetacularização é que nós, seres humanos, não temos mais a quem recorrer. Ou nos contentamos com a superficialidade sedutora dos discursos religiosos atuais ou nos individualizamos na nossa própria experiência religiosa. A lógica do mercado nos prendeu em mais uma de suas armadilhas sufocando a nossa espiritualidade em um contexto onde não se sabe mais o que é produto e o que é mensagem, as coisas se confundem e passam a vir em um pacote que as pessoas consomem sem distinguir as partes.
O homem, que recorria à fé para buscar respostas e explicações que a razão não é capaz de dar, agora encontra apenas uma religião que para ele já não faz mais sentido porque não reflete a sua realidade e sim a realidade do mercado. Somos todos espetáculo, somos todos mídia, não mais nos reconhecemos enquanto causa ou efeito e nossa falta de sentido transborda e enlouquece. Eis o show da fé caro navegante, o último e derradeiro espetáculo.

sábado, 25 de abril de 2009

Sonho de menina nas pinceladas de Degas

Prima Ballerina, A primeira bailarina - Edgar Degas

A primeira bailarina poderia ou não ser a primeira. Quem sabe a última, aquela que se esconde em valsas descompassadas ou harmoniosas, notas que saem da alma ou do desespero. A primeira bailarina parece estar voando. Ela realmente voa em saltos e toques certos e perfeitos. O ambiente em torno dela é de todo inspirador e implacável. Parece conduzir a um limite entre a terra e o sonho. As pinceladas fortes, expressivas, marcadamente impressionistas que dão forma a esta delicada e, ao mesmo tempo, forte bailarina são do gravurista, pintor e escultor francês Edgar Degas (1834-1917), que tornou-se famoso por suas bailarinas doces e arrebatadoras. Degas cumpre o propósito impressionista quando reconstrói o real, aderindo às suas infinitas possibilidades, dando vida a uma pintura que antes de tudo sente e faz sentir, buscando o momento da contemplação e do tempo que se dá ao tempo.
Admirar uma bailarina de Degas é embarcar no voo da arte, incerto e fascinante. A vivacidade de seu quadro traz uma sensação de liberdade, uma delicadeza juvenil e uma maturidade natural. A primeira bailarina acordou poesia, só pode ser poesia para transmitir gratuitamente, a quem o sabe perceber, tamanha dose de sensibilidade e nostalgia. Gosto de Degas pois quando da primeira vez que o vi foi como se aprendesse a sonhar. Degas nos ensina a sonhar o sonho que toda menina carrega: o sonho de ser uma linda e delicada bailarina, protegida de todos os perigos, cercada de belos vestidos e extremadas sensações, acorrentada ao ritmo da dança, alheia ao controle da vida, entregue à coreografia do amor, do verdadeiro e grande amor, sonhado por toda menina-bailarina ou bailarina-menina.

Porque o quadro e o meu momento me fizeram lembrar estas linhas...

Suave, serenamente,
Eu hoje acordei poesia.
Passei o meu dia versando você,
olhava em seus olhos,
distantes dos meus,
e a cada olhar,
por demais atento,
brotavam, em pensamento,
versos que seriam seus.
Mas antes que eu conseguisse
definir-te em versos,
com um simples gesto,
mero falar,
conseguiste de súbito
meus versos quebrar

Cida Villela

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Aquele que vai além do retrato

As leis não bastam.
Os lírios não nascem da lei.
Drummond
Caro navegante, as questões políticas nem sempre aparecem cá por este blog, mas elas são importantes, elas sempre foram importantes. Apenas me abstenho de discuti-las em demasia porque sou mais afeita à arte, literatura, poesia, letras e ilusões variadas. Mas, quando o evento é importante merece ser amplamente e exaustivamente discutido por todos aqueles que veem nele um marco histórico e uma possibilidade de que as coisas enfim, algum dia, possam ser diferentes. Falo aqui do episódio ocorrido no Supremo Tribunal Federal no dia de ontem, 22 de abril de 2009.
Ele foi marcado por uma discussão mais do que urgente e totalmente necessária entre o ministro Joaquim Barbosa e o presidente do Supremo, ministro Gilmar Mendes. Em meio aos tradicionais e irônicos “vossa excelência” Joaquim Barbosa disse a Gilmar Mendes muito daquilo que ele merecia ouvir há tempos. Pois, há tempos ele vem de fato, como disse Joaquim Barbosa, destruindo a credibilidade da justiça brasileira. O ministro Gilmar Mendes se comportou das maneiras mais antiéticas e cínicas nos episódios da história recente. Várias vezes, esqueceu-se de sua condição de ministro e simplesmente transformou-se em um censor ao interferir diretamente na programação da TV Câmara por exemplo, ferindo a liberdade de expressão e a própria já tão machucada “democracia brasileira”.
O ministro realmente confunde os brasileiros com seus capangas do Mato Grosso, tal como lembrou oportunamente o ministro Joaquim Barbosa, já que trata a nação de forma autoritária e coronelista, nos moldes do mandonismo da república velha. Gilmar Mendes é um retrato empoeirado da nossa tão conhecida modernização conservadora. Já Joaquim Barbosa é um retrato lúcido daquilo que o Brasil tem de melhor. Ele, simplesmente, decidiu falar. Falar de coisas que todos veem, mas que fingem não ver por motivos esses ou aqueles, coisas que envergonham a nação e nos fazem andar pra trás, nesta terra que parece gostar de andar sozinha, tal como uma terra sonâmbula, obstinadamente para trás. Joaquim Barbosa disse palavras verdadeiras, que por serem reais, carregam o efeito cortante e um tanto assustador próprio da coragem dos que não se omitem, em um país que fabrica omissões desavergonhadas em série. Precisamos de um Supremo cheio de “Joaquins Barbosas”, precisamos de coragem, de verdade, de uma verdadeira justiça que, definitivamente, não se faz com um Gilmar Mendes no seu comando.

Joaquim Barbosa, ministro do STF

Quando Joaquim Barbosa começou a falar firme e com toda a dignidade de quem sente o peso de sua responsabilidade, custei a acreditar no que via e ouvia. Como tal coragem no Brasil, o país do homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda? Como uma voz que se agiganta em direção ao futuro, apontando para as diáfanas águas da honestidade e do caráter, pode ainda ser ouvida, quando todo resto é sombra e tempestade? Joaquim Barbosa me fez ter vontade de escrever sobre política, não porque antes dele eu não acreditasse nela, muito pelo contrário, a política sempre acreditou em mim e eu sempre me busquei nela, mas confesso que para mim, ela sempre foi o mesmo festival de mesmices, disfarces, cinismos e máscaras enfeitadas com muita purpurina, recheadas pelo vazio das coisas que não se fazem coerentes com a sua própria identidade e escassa de discernimento e lucidez. No entanto, nem tudo está perdido! Termino com meus sinceros parabéns ao Ministro Joaquim Barbosa, este sim um Ministro digno da mais alta corte de justiça do nosso país, este sim digno de ser lembrado e citado como aquele que falou o certo na hora certa, não deixando o dito pelo não dito.
Para os que estão dizendo que Joaquim Barbosa não respeitou os limites de sua posição e situação, suponho que quem desconhece limites há muito tempo seja o presidente do Supremo, Gilmar Mendes. Joaquim Barbosa disse a Gilmar Mendes que ele deveria respeitá-lo, Gilmar Mendes, sinicamente, também pediu respeito. Engraçado como um ministro do Supremo ainda não consegue entender algo tão simples e elementar: é preciso respeitar para ser respeitado. Que tipo de respeito será que ele quer? Joaquim Barbosa personificou em sua fala os anseios sufocados de todos os brasileiros que, estes sim, precisam respirar respeito, afastar os fantasmas da inversão de valores, aumentar em suas lembranças episódios dignos de serem lembrados, como esse, apagando tantas e tanto que existe em benefício de poucos e prejuízo de muitos, apagando o riso cínico de Gilmar Mendes e lembrando dos olhos corajosos e humildes de um ministro tão inteligente quanto humano. Uma daquelas raridades. Fruto da impossibilidade do retrato, já que vai além dele.
cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas
Paulo Leminski

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ver sem reparar

Nestes tempos corridos e cansativos tenho feito uma análise digamos mais atenta e minuciosa ao jornal Folha de S. Paulo em decorrência de trabalhos e mais trabalhos acadêmicos. Acabo de fazer a análise de um artigo publicado hoje, 23 de março de 2009, pela presente Folha de que vos falo e corri para cá este meu espaço dividir com os caros navegantes um pouco de minha, eu diria, irritação com um artigo, que na minha modesta opinião - e ela é só minha, enfim, algo que acredito possuir de fato - perdeu todas as chances que tinha de ser um bom artigo, como de fato poderia sê-lo.
O artigo do jornalista José Maria e Silva que pode ser lido aqui toca em um ponto polêmico: a legalização das drogas e a política de redução de danos - que gera discussões das mais variadas e por envolver questões complexas deveria ser analisado com mais cautela - o que, definitivamente, não se faz notar no presente artigo. José Maria defende e sustenta sua opinião com base em seus argumentos, até aí nada de novo em se tratando de um artigo. O problema começa no "como" ele defende e sustenta a sua opinião. José Maria faz uso de comparações absurdas, mistura temas como o "Manifesto Comunista" com a legalização das drogas e a política de redução de danos, comparando-o a uma "Declaração dos Direitos dos Usuários de Drogas", que ele critica de maneira enfática. Fácil ver que uma coisa não tem nada a ver com a outra, não servem para serem usadas a título de comparação. Seguindo a lógica, contrapõe "arauto de ciência de ponta" com "entulhos do Maio de 68".
Em meio a essas comparações vazias de lógica e critério, senti no texto uma falta de humanidade e uma imensidão de preconceitos. Não se trata de defender o usuário de drogas, eles não estão totalmente livres de culpa, mas também não precisam ser atacados de maneira generalizada e um tanto quanto equivocada. Nossos problemas imploram por entendimento e não por atitudes que os reprimam. O autor limita consideravelmente sua capacidade de análise a respeito do tema, pois comete um pecado mortal ao se perder daquela que contempla a quem sabe encontrá-la com mais equilíbrio e perspicácia: a simples capacidade e sensibilidade de perceber que tudo tem um outro lado e antes de tomar partido de um ou de outro, em uma situação específica, é preciso analisar muito bem todas as variáveis que compõem esta dada situação. Variáveis tão multiplas e tão inexatas.
Termino citando meu querido Saramago - "Se podes olhar, vê, se podes ver, repara”. Minha impressão é de que José Maria viu, mas não reparou e assim ficou apenas no dito pelo não dito.

Os pontos de Elio Gaspari e os "des" de nosso Brasil

O texto de Elio Gaspari deste domingo, 22 de março de 2009, na Folha de S. Paulo, está como sempre criativo e especialmente irônico. Faz rir e pensar, com a mesma sinceridade desconcertante que alguns acontecimentos recentes acontecem na crônica, especialmente original, de nosssa realidade, que consegue se superar em absurdos para os quais só mesmo recorrendo ao riso e à ironia. Por isso, fica aqui desde já minha contribuição ao amigo navegante com alguns trechos do, como sempre inteligente e perpicaz, Elio Gaspari.

Entra e sai

Pode-se entender melhor a qualidade da base de apoio do governo quando se vê que em menos de um mês aconteceram duas coisas:
1) O deputado Eduardo Cunha, um parlamentar de real grandeza, defendeu a saída do senador Jarbas Vasconcelos do PMDB porque ele disse que uma banda do partido gosta do alheio.
2) Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, o lord keynes do mensalão, foi a Brasília para cabalar o seu retorno ao partido, do qual foi expulso.
O melhor seria chamar Jarbas para o PT, mandando Delúbio para o PMDB. Pode até dar na mesma, mas anima o bailado.

Ponto para Elio Gaspari. Já que o bailado está realmente animado e especialmente alterado, eu acrescentaria que vivemos no tempo da "farinha do mesmo saco" com algumas excessões é claro, não seremos levianos e generalizadores, Elio Gaspari não o seria.

El Deportador

Negociando com o arrozeiros de Roraima, o comissário Tarso Genro deve perguntar quantos deles gostariam de ir para Cuba.

Ponto para Elio Gaspari novamente já que nosso Ministro da Justiça, Tarso Genro, sempre consegue um jeito excêntrico e contraditório de resolver questões essenciais, como se apresenta o problema dos arrozeiros que, na minha opinião, demoraram pra sair. Cadê a definição de prazo? De nada adianta defender os interesses dos índios se na prática não há definição de "pesos e medidas" porque apenas essas parecem surtir efeito em alguns casos e com algumas pessoas. Agora, pra isso, precisamos de um pouco mais de coerência e senso de realidade daqueles que nos representam. Coerência já!

E falando em coerência o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, pronunciando-se na semana que passou a respeito da contração do PIB no último trimestre, disse que o cenário para este ano é razoável, pois "ficaremos distantes de um déficit técnico".
Citando Gaspari:

Meu leitor o termo déficit técnico não existe. O que existe é o termo recessão, que ocorre tecnicamente quando há dois trimestres seguidos de crescimento negativo. Natasha* acredita que o doutor Mantega está com déficit técnico. De que, ainda não sabe.
Seu colega Eremildo, de quem ela não gosta porque é um idiota, suspeita que o Banco Central passou a remarcar as previsões de crescimento do PIB pela técnica das liquidações do varejão. Baixou uma previsão feita por seus sábios de 1,2% para 0,59%. O cretino acredita que daqui a pouco o BC anunciará um PIB de 5, 99% em oito prestações anuais.

Ponto duplo para Elio Gaspari. Esta que traça estas mal traçadas linhas dispensa comentários neste ponto. Para resumir o absurdo o caracterizarei com algumas palavras tais como desserviço, desrespeito, desumanização, descalabro e quantos mais "des" couberem nesses contantes deslocamentos morais. Haja "des" para tanto desprepararo e descaramento.

* Natasha é uma personagem criada por Elio Gaspari nos textos em que este fala de economia. Assim como Eremildo, o idiota. Ambos representam um pouco dos brasileiros que acabam enganados e ludibriados com os números, dados e termos de uma economia que não se explica para a maioria.

sexta-feira, 20 de março de 2009

DitaDURA e ditaBRANDA

Recentemente, o termo “ditabranda”, trocadilho proveniente de ditadura, ganhou espaço na mídia brasileira em decorrência de um editorial publicado pelo jornal Folha de S. Paulo. O uso do termo provoca uma discussão sobre o grau totalitário que perdurou durante o Regime Militar no Brasil (1964-1985). O trocadilho não é de todo errado, muito menos se faz desinteressante, carrega um sentido de originalidade, mas deve ser visto com cuidado. A ditadura que se instalou no Brasil foi gradual, assim como muitas outras que semearam o horror pelo mundo afora. Só para citar alguns exemplos, o Nazismo começou de maneira tímida e só depois se fez conhecer como um dos regimes mais abomináveis da história. A Revolução Francesa foi uma em várias, realizou-se em fases e uma delas ficou efetivamente conhecida como “Período do Terror”, sob o comando dos Jacobinos, onde a crueldade era mais visível e a guilhotina ocupava seu lugar de protagonista no festival de cabeças cortadas.
A ditadura no Brasil começou, para usar a ótima sequência e caracterização de Elio Gaspari, de forma envergonhada. No seu início, algumas garantias democráticas ainda persistiam em meio às tentações autoritárias. Era como se a dureza da ditadura estivesse com vergonha de se impor, daí ditadura envergonhada. Mas em 1968, com o AI-5, a ditadura deixa de ser envergonhada e passa a ser a ditadura escancarada. Ela mostra toda a sua crueldade, desrespeito à dignidade humana, cerceamento das liberdades individuais e de expressão, bem como a abolição de todas as garantias democráticas. Depois desta fase destes que a história decidiu chamar de “Anos de Chumbo”, tivemos uma ditadura encurralada, cercada por ameaças nem sempre visíveis e por uma oposição que começava a tomar forma novamente, mas mesmo assim uma ditadura que continuava firme na sua desumanidade, de início - é bom lembrar já que a boa história agradece - patrocinada por boa parte da sociedade civil (não esqueçamos, o golpe foi um Golpe Cívico Militar). No entanto, como tudo que começa tem um fim, a ditadura de encurralada passou a derrotada! Eis nossa gradual ditadura política, com suas fases, suas peculiaridades, sua variações que, no entanto, não diminuem, muito menos justificam todo seu horror!
De todo esse pensamento a respeito de parte de nossa história, concluí que nenhuma ditadura pode ser considerada branda. Por definição não há brandura nas ditaduras, assim como não há explicação razoável para os efeitos de uma guerra que mata aos milhares. São coisas para as quais não cabe um meio termo, tão buscado em muitas de nossas relações sociais. Veja bem meu caro navegante! Ser gradual é uma coisa, faz parte do próprio processo histórico- político dos fatos, de suas causas e conseqüências. A história é gradual, mas dentro dessa gradualidade existe o justo e o injusto, o duro e o brando. Não vejo problemas no uso do termo “ditabranda”, como disse no início, achei-o original e sugestivo, apropriado para comparações entre a época de lá e de cá, ilustrando eventos de cerceamento e autoritarismo parecidos com os da ditadura, mas que acontecem em plena vigência da democracia (ou do que acreditamos ser a plena vigência da democracia). Mas, com respeito à história e às suas sutilezas e verdades naturais, acho de todo necessário olhar para o termo com cuidado e com a amplitude de pensamento daqueles que percebem que a gradualidade de uma ditadura não a redime de seu horror.
Em poucas palavras uma ditadura é sempre dura, a diferença é que às vezes esta dureza está vestindo roupagens de vergonha, de escancaramento, de encurralamento ou de derrota! Mas é tudo uma questão de ponto de vista, um pouco de história e uma dose de criatividade. Esta última nosso último refúgio para tratar de tantos absurdos e barbaridades, como a transformação de um ministro em censor e todas as decorrentes feridas desta transformação na liberdade de imprensa e na liberdade individual.

quinta-feira, 12 de março de 2009

E a literatura vai ganhando mais espaço

Hoje pela manhã ao acordar, como faço por hábito, liguei a televisão para ver algumas notícias do começo do dia no Bom Dia Brasil (telejornal da Rede Globo) e com muito prazer e surpresa vi uma reportagem de Jorge Pontual falando sobre os “refugiados da crise” – cidadãos americanos que desempregados se veem obrigados a abandonar sua própria casa já que não conseguem mantê-la. Mas tais refugiados não foi o que mais me chamou atenção na reportagem, e sim a comparação destes com uma situação já presente nas páginas da literatura americana e, inclusive, aqui no Impressões. Falo da menção na reportagem da obra As Vinhas da Ira, de Steinbeck, com a exibição de algumas imagens do filme, baseado no livro, e dirigido por John Ford. Demonstrando criatividade, o repórter viu todas as semelhanças encontradas entre a história dos refugiados da crise financeira atual e a história dos refugiados de sua própria terra, retratada tão bem por Steinbeck em seu livro. Gostei de ver a literatura ganhando espaço no jornalismo, que ela faça parte dele com cada vez mais frequência, trazendo a riqueza de seu texto e a sensibilidade de sua percepção!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Uma ilha de lucidez em um oceano de descrença

A Aula Magna da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) - que abre oficialmente as atividades do ano letivo de 2009 - contou com a presença do senador Pedro Simon (PMDB-RS), um dos poucos que defendem a já tão desvalorizada e esquecida bandeira da ética no senado federal em Brasília. O senador - que se formou em Direito pela PUC-RS, foi professor na Universidade Caxias do Sul e especializou-se em Economia Política e Direito Penal na Universidade de Paris, Sorbonne, além de ter feito estudos sobre Direito na Faculdade de Direito em Roma, Itália – mostrou, ao longo de toda sua fala, um tom de preocupação e seriedade em relação ao presente e ao futuro, tom este que tanto faz falta a grande parte de nossos representantes políticos.
Ao longo da sua exposição na Aula Magna, Pedro Simon falou sobre muita coisa, deu lições, emocionou, fez-se merecedor das palmas da plateia em vários momentos; e mostrou toda sua lucidez e discernimento ético em relação ao que deve e pode ser feito. Cito aqui alguns pontos de sua fala - de muita valia a todos aqueles que ainda acreditam no Brasil - não só para que conheçam um pouco do que disse o senador, mas também e, principalmente, para que não se sintam tão enganados, desmotivados, anestesiados e descrentes com o festival de horrores a que somos apresentados todos os dias. Ainda resta alguma lucidez em toda essa falta de coerência!

Pedro Simon
Família

"A família de ontem não é mais a mesma de hoje, as coisas, as relações, mudaram muito. A forma como encaramos a vida atualmente também mudou. Hoje ela é um tanto desorientada e excessivamente televisiva. E há qualquer coisa de doloroso nisso quando vemos que a família já não é mais aquela família e a escola já não é mais aquela escola."

Escola

“Na escola atual instruir já é difícil, educar então...”

“A formação básica tem uma grande importância diante da ideia de que o cérebro se forma até os cinco anos, portanto, é nessa fase que as coisas que acontecem ou não, realmente importam no que diz respeito às consequências que virão mais a frente.”

Televisão

“Um mundo onde se janta assistindo TV ou Jornal Nacional, não sei o que é pior. O papel da televisão atualmente é o de entrar na formação da sociedade, e como tudo que é ruim se espalha, estamos diante do fenômeno da exportação de novelas brasileiras para o mundo todo. Diante disso, faço uma pergunta: qual é a formação da sociedade brasileira atualmente?”

“Eu tive uma séria discussão com o Lula em relação à criação da TV Brasil por decreto. Além do autoritarismo, não houve nenhum preparo ou planejamento. O resultado está aí na audiência da TV Brasil: zero. É o Brasil das inconsequências.”

Impunidade

“O grande problema do Brasil é a impunidade. Mas o Brasil é diferente dos outros lugares porque aqui ninguém é preso, a não ser pobre e ladrão de galinha, que não sabe nem nunca ouviu falar na justiça, só conhece a polícia. O Congresso reclama, faz um alvoroço quando a prisão de um rico - de pijama na porta de sua casa - aparece na TV, mas isso acontece todo dia com o pobre, é o que acontece todo dia.”

“Precisa-se acabar com a impunidade, vamos nos respeitar.”

“Certa vez, ocorria uma discussão no senado envolvendo um senador que, entre outras falcatruas, também estava envolvido em um roubo de galinhas, algo assim. Tive que ir à tribuna dizer que, neste caso, ele realmente precisava tomar cuidado porque roubo de galinha no Brasil é perigoso.”


“Para acabar com a impunidade é preciso, em primeiro lugar, acabar com o foro privilegiado, afinal, quantos foram condenados no Supremo? Nenhum. Depois é preciso tomar providências como diminuir o número de partidos. O Brasil não pode ter 20 partidos, isso é uma distorção. A fidelidade partidária também deve ser cobrada e não adianta dizer que vai sair do partido porque nele existe um bando de vigarista, é preciso seriedade para cobrar. A saída é marchar para um sistema democrático onde haja obrigatoriedade no que se tem que fazer. Imagine se o que aconteceu nos EUA com os assessores de Obama - que simplesmente foram destituídos dos cargos diante de acusações de sonegação fiscal – aconteceria no Brasil. Aqui isso soa como piada.”

“Eu estou apresentando um projeto de lei ao senado federal segundo o qual ficha-suja não pode ser candidato, e que aquele que tiver um processo deve ter esse processo julgado em primeiro lugar, senão antes das eleições até no máximo antes da posse. Enquanto não houver julgamento em caráter definitivo continua-se atuando na vida pública e recorre-se aqui, ali, às milhares de instâncias que fabricam a impunidade.”

Mais do mesmo

“No Brasil não conseguimos sair dos ciclos – dos usineiros, cafeicultores - os ciclos daqueles que mandam e fazem tudo por conta própria, sem que ninguém mais fale, participe ou manifeste a sua opinião. E nós continuamos assim, políticos cada vez mais isolados do restante da sociedade.”

Lula e o PT

“Com a primeira vitória do Lula quem ganhou foi o Duda Mendonça com a sua fabricação do Lulinha paz e amor e isso não pode, não se vende um candidato como se vende uma máquina, uma pasta de dente.”

“O PT era uma ótima oposição, ele foi ensinado muito bem no que diz respeito a ser oposição, mas também devia ter sido ensinado a estar no poder, do outro lado. Pegar a caneta é muito difícil.”

“Nada mais igual que o PSDB de FHC do que o PT de Lula.”

“O PT foi incoerente com a sua própria história.”

UNE

“A UNE está fazendo o quê? No máximo a meia-entrada e o movimento pela liberdade sexual. Ela caiu na mesmice, assim como muitas outras organizações. Precisa mudar, não só ocupar uma linda sede.”

PMDB

“O PMDB quer ser a noiva: dá pra quem paga mais, ou dá pros dois.”

A Mocidade

“Quando o Brasil achava que a ditadura não iria acabar, a mocidade saiu às ruas e protestou. A emenda Dante de Oliveira não foi aprovada na época, mas depois a ditadura foi acabando. Quando o Collor pediu que a juventude saísse às ruas de verde e amarelo em seu favor, ela saiu de preto e ele foi cassado dias depois. Olhem o poder da mocidade.”

“As CPIs são uma ótima saída, pena que elas não adiantem mais. Elas aparecem como um movimento incrível, importante, que mandava prender, cassava mandatos, mas isso quando o senado ainda tinha capacidade de se indignar, como fez em vários momentos. Hoje, ele perdeu essa capacidade, basta ser partidário. Por isso a saída é a mocidade.”

Realidades e possibilidades

“Estamos acostumados à vulgaridade, à rotina do escândalo, nada nos choca mais. As revistas divulgam um fato atrás do outro, mas só ficam nisso, depois de um tempo de tudo se esquece, não há continuidade.”

“Eu acredito na movimentação, conscientização, cobrança, divulgação do fato, no povo brasileiro ocupando o seu espaço. Isso pode e deve ser feito.”

“Levantar, debater, discutir, cobrar, isso é importante. Trazer a oposição - o outro lado - o que é um grande trabalho. São vocês que podem mudar, eles morrem de medo de vocês. Parlamentar morre de medo de opinião pública classificada.”

sexta-feira, 6 de março de 2009

Séculos que separam a mesma realidade

Na Idade Média, que se estendeu até meados do século XV, a igreja era a instituição mais poderosa. Era ela que ditava as regras, determinava a moral, infligia os castigos, queimava hereges nas chamas da inquisição, proibia livros, era totalmente antipática ao conhecimento, à ciência, e àquilo que estava marcado pelos rastros da razão, da observação, do pensamento. A igreja também não via com bons olhos as emoções, condenava inclusive o próprio riso. Ela comandava uma sociedade que vivia em permanente e constante estado de medo e, ao mesmo tempo, em profunda e melancólica contradição interna. Nunca deixou de esclarecer e delimitar muito bem quais eram os seus princípios e suas verdades - dogmas para ser mais exata. Em sua maioria, eram princípios pautados pela falta de liberdade, pela doutrinação pura e simples, pela distorção daquele que seria o sentido mais puro da religião – o de encará-la como um reflexo da nossa realidade, ou seja, a religião só teria algum sentido para o homem na medida em que ela refletisse a sua realidade e fosse identificada, de alguma forma, nos conflitos da sua vida.
O fato é que dentro da igreja católica, mesmo em períodos de total falta de liberdade como a Idade Média, sempre existiram grupos mais e menos conservadores, ou seja, alguns defendiam os sagrados princípios a qualquer custo, sem permitir brechas ou interpretações. Outros acreditavam que certas verdades deveriam ser sim respeitadas, mas que algumas coisas poderiam ser discutidas e relativizadas, proporcionando uma maior liberdade na construção da fé.
Bom, estamos no século XXI, o tempo passou e trouxe com ele as mudanças - tidas por alguns como totais e abrangentes - escancaradas aos olhos do mundo moderno. Na realidade, não vejo as mudanças como tão totais ou tão abrangentes, admito uma desconfiança em relação a essa espécie de senso comum, afinal, nunca achei que as coisas tivessem mudado tanto assim. Acredito que a roupagem da sociedade muda de acordo com a época, com a estação, mas sua pele continua a mesma; prova disso são atrasos e mais atrasos que volta e meia batem à nossa porta e nos confundem em meio a datas e contextos, a ponto de não nos sabermos se no século XV ou XXI, nas trevas da Idade Média ou nas luzes da modernidade, na época da justiça ou no tempo da intolerância.
Um dos atrasos mais recentes de que se tem notícia diz respeito ao caso da menina de nove anos, de Alagoinha (PE), que foi submetida a um aborto para interromper uma gravidez de gêmeos – consequência de um ato de estupro do qual o padrasto é o principal suspeito – e a reação da igreja católica em relação ao aborto e ao estupro. O arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, excomungou a mãe e a equipe médica envolvida no procedimento de aborto, mas não infligiu a mesma pena ao padrasto, que, segundo o bispo, não pode ser excomungado. Apesar de admitir que o padrasto cometeu um crime gravíssimo, Sobrinho considera o ato de interromper uma vida inocente muito mais grave. É com esse argumento, aliado ao da proteção e cumprimento dos princípios da igreja – cá estão eles novamente, os princípios – que o arcebispo de Olinda e Recife justifica a atitude da igreja em excomungar mãe e médicos e apenas dirigir ao padrasto uma crítica sem tom de crítica.

Por detrás do Santíssimo ou "princípios", o arcebispo Dom José Cardoso Sobrinho

Discutir dogmas e verdades seculares da igreja é de todo algo no mínimo complicado e indigesto, seja porque alguns setores da igreja estão a cada dia mais conservadores – fato que não deixa de sofrer certa influência do pontificado atual de Bento XVI, um papa ultraconservador que, inclusive, apoiou a decisão do arcebispo Sobrinho - ou porque, como foi dito acima, pouca coisa mudou em algumas instituições de nossa sociedade de uns séculos pra cá, e a igreja, com certeza, foi uma das que menos mudou. Ela continua proclamando seus princípios como se estes estivessem acima de qualquer suspeita e pudessem justificar uma posição tão ambígua quanto essa que a igreja acaba de tomar. Afinal, uma coisa é certa nesta história toda, a igreja condena o aborto porque este interrompe uma vida, a destrói, mas e o estupro? Será que este também não destrói a vida de uma pessoa, deixando traumas e marcas de todas as espécies possíveis? Como uma menina de nove anos pode ter uma vida normal daqui pra frente sem as lembranças que insistem em atormentar? É neste ponto que as contradições e as intolerâncias se encontram fatalmente. São tantas as formas de se destruir uma vida humana, e são tantos os princípios que não se mostram exatos!
A igreja não vai mudar, isto é fato, dogma é dogma. Se as verdades absolutas antes quando contrariadas queimavam homens, hoje elas acabam se chocando com a própria igreja, queimando-a na sua contradição, na sua irredutibilidade, na sua moral tão justa a ponto de condenar um aborto, mas deixar passar um estupro. Essa atitude da igreja, no entanto, não surpreende, vale tudo, simplesmente, para não voltar atrás e permitir o aborto quando este tem relação direta com certos casos que ameaçam a vida humana. Não, mas isso não, como a toda poderosa instituição católica pode, ela mesma, torna-se a herética de seus próprios dogmas?
É, pelo que parece as coisas realmente não mudaram tanto assim, a diferença - e talvez essa seja a mais grave de todas - é que agora, ao contrário da Idade Média, os livros circulam livremente e as bibliotecas não são mais queimadas. O conhecimento e a liberdade de expressão deste são plenos, mas as injustiças continuam acontecendo e ninguém diz nada. A Teologia da Libertação busca ganhar espaço nesta igreja dogmática e atrasada, tentando mostrar que além das questões espirituais e dos dogmas, as questões sociais também têm importância e deveriam ser tratadas com um mínimo de coerência e respeito. Mas a ação dos teóricos da Teologia da Libertação não deve ser isolada. Todos precisam de lógica e luz, de respeito à vida humana em todas as suas dimensões, e todos devem reforçar essa luta, caso contrário, corremos o risco de voltar a viver com as chamas não mais da inquisição, mas do atraso. Este que nos queima devagar, soltando uma fumaça marcada pela inversão de valores e pela permanência do mesmo.